Está havendo um certo embate entre Demétrio Magnoli e Muniz Sodré relacionado a como a mídia brasileira trata do tema das ações afirmativas. Começou com Sodré, Magnoli respondeu, e a tréplica ficou por conta de Milena Almeida e Angélica Basthi. Com um certo atraso, registro finalmente minha opinião sobre a coisa toda.
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Há coisa de dois meses atrás eu divulguei aqui um seminário na ABI que discutiria o papel da mídia nos debates sobre questão racial. Eu só pude ir no segundo dia, mas que era também o de maior interesse para mim. Especialmente porque uma das falas ia ser proferida pelo Mestre dos Mestres, Muniz Sodré.
Naquele dia, Muniz, como de hábito, fez considerações de muita agudeza sobre o posicionamento geral da grande mídia (termozinho chato e batido, mas que deixa claro, aqui, ao que me refiro) no trato negativo em relação às ações afirmativas de cunho racial, em especial as cotas para negros nas universidades. A fala de Muniz, então, deu no artigo “É necessária uma nova Abolição?”, publicado no Observatório da Imprensa em 27/10/2009. Sugiro que vocês leiam, mas, em resumo, o que Muniz afirma é que esse desequilíbrio é fruto de uma saudade da escravidão presente na consciência dos grupos que comandam os meios de comunicação, que se expressa de várias formas. Vejamos:
Ela é a superfície psicológica do fato histórico-econômico de que as bases da organização nacional foram dadas pelo escravismo. Por isso, vale perguntar que apreensão os brasileiros fazem desse fato, pouco mais de um século depois da Abolição.
(…)
Alguns pontos devem ser considerados:
1. A palavra “apreensão” não diz respeito a concepções intelectuais, e sim, à incorporação emocional ou afetiva do fenômeno em questão. No interior de uma forma social determinada, nós apreendemos por consciência e por hábito o seu ethos, isto é, a sua atmosfera sensível que nos diz, desde a nossa mais tenra infância, o que aceitar e o que rejeitar.
2. A reinterpretação afetiva da “saudade do escravo”, que envolve (a) as relações com empregadas domésticas e babás (sucedâneas das amas-de-leite); (b) o afrodescendente como objeto de ciência (para sociólogos e antropólogos); (c) imagens pasteurizadas da cidadania negra na mídia.
Diferentemente da discriminação do Outro ou do racismo puro e simples, a saudade do escravo é algo que se inscreve na forma social predominante como um padrão subconsciente, sem justificativas racionais ou doutrinárias, mas como o sentimento – decorrente de uma forma social ainda não isenta do escravagismo – de que os lugares do socius já foram ancestralmente distribuídos. Cada macaco em seu galho: eu aqui, o outro ali. A cor clara é, desde o nascimento, uma vantagem patrimonial que não deve ser deslocada. Por que mexer com o que se eterniza como natureza?
É claro que poderíamos fazer uma leitura mais “óbvia” e dizer simplesmente que as elites não querem ceder seu espaço (de voz e representação, especialmente, que é o primeiro passo para tomar posse da riqueza) a grupos marginalizados, como negros e pobres, e por isso se coloca enfaticamente contra as cotas. O resultado, no fim das contas, é o mesmo. Mas não se pode desconsiderar o fato de que essa mesma grande mídia não se posiciona de maneira tão adversa quando se fala das cotas “sociais” (para alunos de escola pública e de baixa renda), e por isso mesmo Muniz fala da saudade da escravidão: porque há uma questão – muito profunda – que diz respeito ao negro, especialmente. E não há como falar de escravidão sem falar da questão racial, bem como não é possível falar de questão racial no Brasil sem falar de escravidão.
Mas, e onde entra Demétrio Magnoli? Pelo cano, eu diria. É que uma semana depois do artigo de Muniz, Magnoli publica um outro, também no Observatório da Imprensa, chamado “Matem os escravistas”, em 03/11/2009. O texto em questão, cuja leitura também recomendo (apenas para se entender melhor a confusão que se passa na cabeça de nossos opositores, é claro), além de conter pinceladas de uma ironia agressiva e até mesmo infantil – com expressões destacadas em parágrafos únicos como “É mesmo?” e “Ah, sim? Então?”, e ainda afirma que “Sodré empastelaria jornais, se pudesse” – diz que o problema de Muniz e do povo reunido na ABI não era com as notícias em si, e sim com “a opinião expressa nos editoriais” dos grandes jornais. A essa derradeira conclusão Magnoli chega com a seguinte exposição:
… talvez Sodré queira dizer coisa diversa daquela que escreveu. Não haveria, por exemplo, um desequilíbrio no material opinativo dos “jornalões” sobre a introdução de leis raciais no país? Imagino que Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S.Paulo, os maiores jornais do país, sejam os “jornalões” de Sodré. Entre os três jornais, há apenas quatro colunistas fixos que abordam com alguma frequência o tema das políticas raciais: os próprios Gaspari, Leitão, Gois, além de Ali Kamel e eu mesmo. A seção da Folha de S.Paulo dedicada a artigos externos de opinião mantém o critério de dividir meio a meio seu espaço entre defensores e críticos do racialismo. O Globo e O Estado de S.Paulo não têm seções similares, mas adotam critério idêntico para artigos opinativos sobre o assunto que acompanham eventualmente o noticiário. Desafio Sodré a provar objetivamente que há desequilíbrio.
Ele não provará, pois não pode, mas isso em nada alterará a sua posição – nem a da Seppir e das demais “entidades” da sopa de letrinhas congregada para acusar a “mídia” de parcialidade. É que o problema deles com os principais jornais é outro: a opinião expressa nos editoriais. Os três “jornalões” posicionaram-se editorialmente contra a introdução de leis raciais – opinião, aliás, compartilhada pela maioria esmagadora dos brasileiros de todas as cores, como indica pesquisa encomendada por uma entidade favorável à introdução dessas leis. A opinião editorial é livre, numa sociedade democrática. Então, qual é o sentido do ataque de Sodré (que, sempre é bom lembrar, emana de um evento com participação estatal)?
Em primeiro lugar, acreditar que há uma total separação entre “a opinião expressa nos editoriais” e as notícias veiculadas só pode ser brincadeira. Todo e qualquer veículo de comunicação tem, por trás de si, uma linha editorial que comporta determinada(s) ideologia(s), mais ou menos presente(s) a depender do veículo em questão, e crer que elas não estejam em algum nível de consonância com o teor geral das notícias é, sem dúvida, um ato de desonestidade intelectual.
Dizer que a imprensa é livre e que os jornais têm o direito de se exprimirem como quiserem em seus editoriais é uma afirmação correta, verdadeira, e pode até ser muito bonita, a depender do contexto. Mas, ao mesmo tempo, é novamente desonesto não problematizar isso como um desequilíbrio se percebemos que não há editorias favoráveis em jornais de grande peso. É como dizer que a maravilha do sistema capitalista é que somos todos livres, muito livres, e que todos têm direito de comprar um Audi A4, por exemplo. Sim, eu tenho o direito. Daí a ter os meios, para gente como Magnoli, parece ser apenas um detalhe. Não problematizar isso é má fé. Pura má fé.
Mas, para Magnoli, é tudo muito simples, como no caso do Audi, e resume-se a Muniz e os jornalistas negros quererem impor suas opiniões em um seminário realizado com apoio de uma entidade do governo, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), donde, segundo ele, “sente-se de longe o antigo desejo stalinista de calar a opinião divergente”.
O problema do pobre Magnoli, entretanto, é que pegou o bonde andando. Se soubesse do que falavam os reunidos no seminário da ABI, provavelmente não teria desafiado Muniz a “provar objetivamente que há desequilíbrio”. Desafio dado, desafio aceito. Porque desafiar aqueles que são inventores e herdeiros da tradição do partido-alto e da embolada, se você não é de uma cultura que compartilha disso, definitivamente não é uma boa ideia. Quem não pode com mandinga não carrega patuá, como diz minha avó. E assim Magnoli deixou para as jornalistas Milena Almeida e Angélica Basthi lhe devolverem os versos em artigo redigido pelas duas e assinado por uma penca de gente boa, intitulado “Sim, é necessária uma nova Abolição”, também publicado no Observatório da Imprensa, em 15/12/2009.
Chovem números, coisa de que eu nem gosto muito, mas que é importante nessas horas, e até mesmo para atender aos pedidos de Magnoli. Citam, então, pesquisas realizadas pelo Instituto Universtiário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), ligado à Universidade Candido Mendes; pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT); e pelo Instituto de Artes e e Comunicação Social (IACS), da Universidade Federal Fluminense (UFF), que mostram o que eu havia visto desenhadinho no dia do encontro, numa apresentação com gráficos e tudo o mais.
Entre outros números disponíveis no artigo das jornalistas – que vocês deveriam ler por inteiro – destaco os de Veja e de O Globo. Em relação à primeira, por exemplo, diz o artigo que
Foram analisados 66 textos e artigos sobre o tema de janeiro de 2001 a junho de 2009, sendo 39% colunas assinadas e 38% reportagens.
Deste total, 77% continham avaliações negativas sobre as ações afirmativas raciais e apenas 14% favoráveis. Se tivesse feito essa consulto, o Sr. Demétrio descobriria, por exemplo, que deste universo, 19 reportagens são contrárias às ações afirmativas e apenas três são favoráveis. Em relação às colunas na revista Veja no período, 20 foram contrárias e apenas quatro favoráveis.
[João] Feres e [Veronica] Daflon [pesquisadores do trabalho em questão] identificaram que a partir de 2005, quando as políticas de cotas estão consolidadas no ensino superior público do país, as raras manifestações favoráveis às ações afirmativas simplesmente desapareceram da revista Veja.
Feres e Daflon analisaram ainda os títulos e suas mensagens explícitas na revista neste período. Um dos exemplos são os títulos “O grande salto para trás” e “Cotas para quê?”, ambos publicados em 2005. Ou ainda a reportagem em 2007 sobre o caso de um professor da Universidade de Brasília acusado de racismo, cujo título era “A primeira vítima”.
Em seguida, sobre O Globo, está lá:
De acordo com o levantamento [período de março de 2002 a julho de 2004], no total foram publicados 55% de textos negativos e 15% de textos positivos sobre as cotas. Neste contexto estão 34% de matérias negativas contra 6% positivas, e 66% de editoriais e artigos negativos contra 34% positivos. Outra vez questionamos: trata-se ou não de um desequilíbrio?
A verdade é que não é a primeira vez que esse indivíduo entra pelo cano. Não se pode levar a sério um cara que declarou, numa entrevista à Globo News (partes 1, 2 e 3), que acha bom o racismo brasileiro ser velado, porque demonstra um constrangimento das pessoas com o racismo, sem considerar o fato de que essa é justamente uma das questões que mantém as coisas em seu lugar, ou melhor, as pessoas nos seus lugares (mesmo que ele não concorde com isso, é sempre necessário falar disso, sim, e propor uma visão oposta). Em outra entrevista, dessa vez no Jô (partes 1 e 2), Magnoli diz que a consciência brasileira tem, “felizmente”, uma dificuldade de se definir racialmente, e que por isso o censo do IBGE localizou classificações como “marronzinho”, “queimadinho”, “moreninho” (nas palavras dele próprio na entrevista). Mas será realmente possível que Magnoli não consegue enxergar que nenhuma dessas classificações dão conta de pessoas brancas? Que são todas pessoas não-brancas que se classificam de mil modos, e que portanto há, sim, uma diferença entre ser branco e não ser branco? Que ser branco configura, portanto, um padrão intocável? Que, no país que recebeu o maior número de africanos na diáspora, a quase totalidade desse não-brancos são, em maior ou menor grau fenotípico, pessoas afrodescendentes? E que, nesse mesmo país, apesar de ele dizer que a raça não é definidora de lugares, essas pessoas não-brancas estão, desde sempre, em termos gerais, na base da pirâmide social?
Demétrio Magnoli é a bola da vez. Já tivemos a dupla dinâmica Yvonne Maggie & Peter Fry; César Benjamin; Ali Kamel. Essa é a estratégia da elite anti-cotas: vai elegendo personagens para alimentar a questão com a visão deles. E eles têm grande vantagem: estão em número esmagadoramente maior de pessoas que dominam o discurso da imprensa e o discurso acadêmico. Eles ainda têm muita bala no cartucho, e nós temos que exaurir nossos poucos. Mas somos fortes, muito fortes, porque desde cedo estamos nesta luta que é, sem exagero nenhum, diária. Energia não falta, e cérebro também não. Como diz o pai de um amigo meu, pressão a gente só aceita no chopp, e ainda assim só dois dedos, porque senão estão enrolando a gente.
Idelber Avelar, acadêmico, blogueiro e articulista de mão cheia demonstrou, em um recente escrito à Revista Forum, que Magnoli faz parte daqueles acadêmicos que são legitimados pela mídia como especialistas sobre um determinado assunto sem ter qualquer estrada na seara que escolhem para se tornar porta-vozes. Diz ele, ao início e ao fim de seu artigo belamente intitulado “Acadêmicos Amestrados”, no melhor de seu estilo:
Se um marciano aterrissasse hoje no Brasil e se informasse pela Rede Globo e pelos três jornalões, seria difícil que nosso extra-terrestre escapasse da conclusão de que o maior filósofo brasileiro se chama Roberto Romano; que nosso grande cientista político é Bolívar Lamounier; que Marco Antonio Villa é o cume da historiografia nacional; que nossa maior antropóloga é Yvonne Maggie, e que o maior especialista em relações raciais é Demétrio Magnoli. Trata-se de outro monólogo que a mídia nos impõe com graus inauditos de desfaçatez: a mitologia do especialista convocado para validar as posições da própria mídia. Curiosamente, são sempre os mesmos.
(…)
Poucos países possuem um acervo acadêmico tão qualificado sobre relações raciais como o Brasil. Na mídia, os “especialistas” sobre isso – agora sim, com aspas – são Yvonne Maggie, antropóloga que depois de um único livro decidiu fazer uma carreira baseada exclusivamente no combate às cotas, e Demétrio Magnoli, o inacreditável geógrafo que, a partir da inexistência biológica das raças, conclui que o racismo deve ser algum tipo de miragem que só existe na cabeça dos negros e dos petistas.
Magnoli já havia escrito artigos na parte de opinião do Estadão contra as políticas de ação afirmativa para negros, e por mais de uma vez atacou diretamente outro grande pesquisador, Kabengele Munanga, africano da República Democrática do Congo radicado no Brasil há mais de trinta anos e antigo professor da USP. Demonstrou enorme agressividade e falta de respeito para com alguém que trabalha a questão racial há muito mais tempo que ele, que decidiu aproveitar o momento para jogar holofotes sobre si. Em um dos artigos publicados no Estadão, “Monstros tristonhos”, chamou Munanga, acreditem, de charlatão, e nunca Munanga teve espaço, no mesmo jornal, para responder a Magnoli (é verdade que a resposta dele era um texto enorme, mas que poderia ser editada e publicada). A resposta de Munanga ficou rodando pela internet, e, por mais alcance que tenha, não possui uma estrutra e o nome de um jornal por trás.
Munanga e Muniz têm quilos de livros sobre questão racial, negritude e temas correlatos publicados. Munanga escreveu Negritude – usos e sentidos e Rediscutindo a mestiçagem no Brasil, referências para qualquer pessoa que trabalhe com a questão racial, seja qual for a posição adotada. A obra de Muniz, que conheço melhor, tem pelo menos dois livros capitais para se compreender a presença, os espaços e as interações possíveis para a população negra no Brasil: A verdade seduzida e O terreiro e a cidade. Tem pelo menos um livro importante sobre o tema do racismo: Claros e escuros. Escreveu dois outros livros que elucidam questões mais fortemente ligadas à questão da cultura negra (sem dissociar das implicações políticas que sempre as acompanham): Samba, o dono do corpo e Mestre Bimba: corpo de mandinga. Contribuiu também literariamente à herança que se deixa das possibilidades de expressão cognitiva ligadas ao universo negro, afrocentrado, com: O bicho que chegou a Feira, Santugri e A lei do santo. Muniz e Munanga são, ambos, pesquisadores históricos na área. São, ambos, pessoas que desde sempre pensam a questão racial, porque assim é quando somos atingidos por ela, e dela tomamos consciência. Ambos têm, além de tudo, vivência no assunto. Magnoli declara, na mesma entrevista para o Jô, que já tinha uma ideia antiga, mas que só começou a pensar em escrever sobre isso em 2005, por conta de uma ficha da escola da filha dele que pedia uma definição racial da menina. Percebem a diferença de peso e de compromisso com a questão?
Os dois autores acima citados, e também Gislene dos Santos, Nei Lopes, Joel Rufino, Neusa Souza Santos (in memorian), além de outros muitos que possuem obras fundamentais e/ou extensas sobre diversos aspectos que envolvem a questão racial, até onde sei, não tiveram oportunidades de serem entrevistados por Jô Soares ou pela Globo News. Nei Lopes só foi à Globo News no programa do deslumbrado Chico Pinheiro para mostrar seus sambas. À sua faceta de escritor que vem produzindo algo em torno de dois livros por ano, não lhe deram chance.
Para Magnoli, bastou publicar o seu Uma gota de sangue – e se tornou o especialista no assunto. Magnoli não percebe, porque é muito confortável não perceber, mas não há como negar que ele próprio personifica, ele próprio é o desequilíbrio a que Muniz se refere.