Arlindo chuta o ‘sambinha’ pra lá e deixa a macumba no lugar

Recomendo, com muita alegria, o DVD Arlindo Cruz ao vivo MTV, apesar de já haver alguns meses desde o lançamento. Deixo aqui algumas razões, jogo rápido, do porquê. São elas, claro, que interessam, porque eu não ganho nada anunciando o DVD dele, e ele também não ganharia nada se anunciasse aqui. Mas se você chegar ao fim desse texto, ouve de brinde duas músicas do show gravado em São Paulo.

O Arlindo é um músico que parece fazer tudo direitinho para os seus orixás e ancestrais, porque a carreira dele dá certo-certo, a cada dia mais, e que conseguiu fazer isso de um jeito bastante raro: sem abrir mão das suas convicções do que é o bom samba. Vá lá, é claro, ele faz umas músicas meio chiclete de vez em quando, que agridem o humor dos mais sensíveis, pra vender mais CDs e shows, mas jamais desce ao nível daquilo que deixa de ser samba pra virar aqueles amorfismos sem muita referência, a que chamam por aí de música romântica. Não passa nem perto desse tipo de coisa.

Arlindo Cruz MTV

O cara tem cacife para isso, é certo. Construiu uma história a partir do Fundo de Quintal; fez dupla com o Sombrinha; e depois se lançou em carreira solo, garantindo pra si uma fatia que o mercado prefere reservar para alguns ícones aqui e ali, em vez de expandi-la. São poucos os que conseguem conquistar esse espaço, e os que conseguem é porque têm muito talento. Não é nada fácil gravar um DVD em que fala de macumba, mostra as guias e os santos, toca pontos de umbanda e sambas lá meio traçados num Brasil tão fortemente marcado pelo cristianismo, do neo-pentecostal-carismático-caçador-de-níqueis-intolerante ao católico-não-praticante. Porque o empresariado, conservador do jeito que é, não lança nas rádios grupos de pagode que queiram buscar, como faz Arlindo, as profundas raízes africanas de sua música. Pelo contrário, há sempre um afastamento, uma suavizada na batida, uma perda na ginga, arranjos bem pop (tecladinho, guitarra, tchururu…), e o total veto a temas afins, da religião à culinária. Porque essas coisas de preto não costumam pegar muito bem.

Acho que, hoje, da galera que realmente vende disco pra cacete, só quem consegue botar a banca de não se distanciar tanto, ou mesmo se aproximar das africanidades, são Arlindo, Zeca e Revelação (talvez o Exaltasamba, mas só por causa do Péricles, que às vezes puxa pro lado negro da força).

Essa “desafricanização” a que me refiro não é algo exclusivo dos músicos cujo público maior são pessoas que não frequentaram as universidades ou os melhores bancos escolares, porque o racismo é algo estrutural em nossa sociedade, e se manifesta de diferentes formas, a depender do contexto. E é assim que a nossa classe média ilustrada torce os ouvidos quando toca aquele baticum bolado de roda de samba pegada – e aí prefere o “sambinha”, aquela coisa pouca tipo Casuarina, que tem medo de bater firme no tambor e fazer curva com o som. Ou, então, o choro. Não vou teorizar muito porque conheço quase nada de choro. Mas, todas as vezes em que fui a rodas de choro – cujos músicos, normalmente, mesmo tocando música popular, têm aquele quê erudito que lhes mune de grande técnica e vasto preconceito – me incomodavam aquele pandeiro sem ginga e aqueles cavacos que se recusavam a imprimir ritmo à música, por exemplo. E justamente a uma música que nasceu junto às rodas de samba. Não é que eles sejam obrigados a fazer isso. Mas é só que eu nunca vi, não mesmo. Você já ouviu um choro tocado assim, por exemplo?

Arlindo Cruz, Sombrinha, Almir Guineto, Zeca Pagodinho – Trecho de “Estrela da paz (ao vivo)”

Com essa pegada, é raro, viu?

Só para baixar o nível de revolta que se instaurou nessa casa, gostaria de dizer que não acho ruim o samba assumir outras faces, dialogar com outras tradições. Não é ruim o fato de existirem grupos como Arranco de Varsóvia, que faz um samba com vocalises etc., ou as tantas canções da bossa nova, muito rica enquanto uma variação de samba, com tanta história e bons compositores. O que é duro de aturar é o maior valor artístico atribuído a esses formatos “desafricanizados” de choro ou samba, ou o maior valor mercadológico que se conferem aos sambas “desafricanizados” dos grupos de pagode romântico.

Não discuto aqui se os estilos mencionados são piores ou melhores entre si, ou em comparação aos sambas dos bambas. Mas afirmo sem medo que a postura de agregar valor às suas músicas – dentre outras estratégias estéticas, muitas das quais positivas, certamente – através desse distanciamento de África só faz flagrar que a consciência racista está presente das favelas mais pobres ao eixo Morumbi-Leblon. E, desse ponto de vista, os pagodes com teclado do povão e os sambinhas sem repique de Ipanema, pra mim, vão pro mesmo saco.

(Se você quer saber mais sobre esse assunto, das raízes à sua perda, recomendo o artigo “A presença africana na música popular brasileira”, do Nei Lopes, que trata de tudo com aprofundamento histórico, conhecimento técnico e de causa.)

Por fim – agora vai, quebra tudo, Arlindo!–, vamos ouvir o que acontece quando, numa combinação rara, dificílima no Brasil, um homem negro, sambista, ganha muito dinheiro fazendo o samba como acredita que ele deve ser, e se propõe a colocar em seu samba um bom saxofone soprano, aquele signo de jazz, de choro, do clássico, do mais puro refinamento dos ouvidos delicados.

Arlindo Cruz ao vivo MTV – Ainda é tempo pra ser feliz (sax soprano: Dirceu Leite)

E, por último, o que esse mesmo homem negro, sambista, rico, faz ao usar da grana que tem para mergulhar mais e mais nas suas raízes, produzindo um conjunto completo de samba, com os melhores instrumentos e as melhores referências em termos de tradições do samba – pra tocar samba.

Arlindo Cruz ao vivo MTV – Dora/Samba de Arerê

Porque aqui no meujazz é só sambão, camarada!

Atualização

O termo “eixo Morumbi-Leblon” foi cunhado (ou, ao menos, divulgado) por Idelber Avelar, do saudosíssimo O Biscoito Fino e a Massa.

5 Responses to “Arlindo chuta o ‘sambinha’ pra lá e deixa a macumba no lugar”


  1. 1 Rafael Abreu 20/08/2009 às 10:05

    Conheço bastante gente que torce o nariz até quando toca samba-enredo (daqueles dos bãos) em roda de samba. Aliás, preciso tirar onda porque a oportunidade é rara: que lindo meu Salgueiro! O samba era maomenos, com um enredo inusitado (tambor) mas depois da marmelada de dois anos atrás, tá valendo. (procure o samba de 2007, sobre a África, que perdeu pra Beija-Flor, com um enredo também sobre a África).

    Hum, só achei que foi um pouco injusto com o choro. Não falo com conhecimento de causa, mas acho que deve ser pensada a influência da polca (que era popular a beça) no choro. Mesmo assim, acredito que há choros com pegada, não?

    Metáfora d’ O Biscoito escondida no texto? Idelber deixou seus filhotes por aí.

    Abração

  2. 2 Rafael Cesar 20/08/2009 às 12:27

    Rafa, posso mesmo ter sido injusto com o choro. Eu até fiquei com um pé atrás e escrevi que não sabia quase nada do assunto. O choro, além da influência da polca, tinha mesmo, em sua origem, uma coisa de se diferenciar do samba, de ser mais refinado. Isso, pelo que eu já li, desde Pixinguinha. Tinha até aquela coisa de que o choro era tocado na sala, e o samba/batuque, na cozinha. O próprio mestre era acusado, pelos sambistas, de se americanizar, de querer tocar jazz e tal. E criou peças musicais que estão entre as mais belas do mundo.

    Só o que eu quero dizer é que acho que o choro, ainda hoje, tem esse nariz torcido. É como se essa tradição tivesse ficado, em pleno século 21 (não a da influência da polca, isso é ótimo, mas a do diferenciar-se, e de ser semrpe assim, em todo lugar que ouço). É um apenas uma impressão, mas é que meu ouvido está bem atento a essas coisas.

    Talvez haja choros com pegadas de samba, mas eu não conheço nada por aí.

    Quanto à metáfora do Biscoito, você deve estar falando do “eixo Morumbi-Leblon”, né? Pois é, rapaz, eu andei vendo isso em outros blogs por aí, inclusive com variações, e decidi que isso já estava na boca do povo. Me senti, assim, super à vontade de usar. Ehehehehe. Mas, pra ser filhote de um dos melhores blogs em língua portguesa, puta que o pariu, vou ter que ralar demais. Sem chance. Por enquanto, foi só uma influência insconsciente (embora descarada).

    Ah, sim, e eu lembro desse samba do Salgueiro em 2007. Era mó macumbão!

    Abraço!

  3. 3 Rafael Abreu 20/08/2009 às 13:19

    Não tenho certeza, mas talvez tenha sido o Rafael Galvão que inventou esse termo, adotado pelo Idelber.
    Abs


  1. 1 Lembrando o post do arlindo « Meu jazz Trackback em 04/10/2009 às 11:56
  2. 2 Por que Jesus pode entrar na escola e Exu não pode? « meu jazz Trackback em 24/01/2010 às 12:33

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