Archive for the 'ruminar é preciso' Category

Minicurso em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa

BOAVENTURA CARDOSO: A ANGOLANIDADE EM PROCESSO

Ementa: Assim como outros autores de sua geração, Boaventura Cardoso tem seus textos marcados por um constante esforço de construção de formas possíveis da identidade angolana. Este processo não se encontra apenas na literatura de Angola: é um caminho comum por que passam as literaturas de países recentemente libertos do regime colonialista, mas que ainda precisam se libertar das relações subjetivas da colonialidade, nas quais a presença de valores euro-centrados ainda é muito forte. Através da leitura de Dizanga dia muenhu (contos, 1977); A morte do velho Kipacaça (contos, 1987); e Maio, mês de Maria (romance, 1997), três obras pontuais do escritor angolano Boaventura Cardoso, pretende-se demonstrar como o autor constrói seus enredos a partir de uma constante negociação de sentidos entre duas faces distintas da realidade e suas tradições – o animismo bantu e a racionalidade ocidental –, pelas quais tenta representar sua identidade angolana, com isso propondo um exercício de “desobediência epistêmica”.

Ministrante: Rafael Cesar (mestrando em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa / UFF)
Datas: 13, 18, 20, 25 e 27 de outubro de 2010, das 14h às 17h
Local: Faculdade de Letras da UFF (Campus Gragoatá) – bloco C, sala 403
Carga horária: 15 horas

Inscrições: kipacaca@gmail.com
Leitura prévia: Dizanga dia muenhu (disponível na pasta do minicurso na copiadora do bloco B)

Imagem: Mayembe (João Mabuaka); s/ título, escultura em madeira, 80x35x80 cm.

Dica de utilidade pública

Car@ leit@r,

Se um dia você decidir fazer um mestrado, tenha o cuidado de certificar-se, primeiramente, que o segundo ano do programa, justamente aquele em que você tem que sentar para escrever, não seja um ano de Copa do Mundo.

É como se você tivesse dois baldes na sua frente, e, nesse clima de futebol, não tem jeito: um dos dois você vai ter que chutar no ângulo.

Adivinha qual dos dois baldes está voando nesse momento…

A história negra do tango: uma metonímia

Queria eu, me@ car@ leit@r, te contar a história negra do tango. São mils as histórias de que as culturas e pessoas negras participaram, protagonizaram, e foram escondidas. Eu estou tentando desvendar um pouco disso na literatura e, embora eu tenha com a música uma curiosidade permanente e muito viva, não creio que um dia eu consiga ter uma compreensão maior sobre o assunto. Por ora, então, não te contarei a história negra do tango. Mas, veja, se isso é mau para suncê, não é para mim: das coisas que não sabemos, temos com elas um prazer mais inocente, que costuma ser também mais intenso. Este deve ser um dos motivos pelos quais, apesar de ter passado minha adolescência ouvindo música nos últimos volumes e me arrepiando todos os dias com o que de melhor eu descobria, eu jamais aprendi a tocar qualquer instrumento (tentei, é verdade, mas vamos pular essa parte) e, aos dezessete anos, decidi que queria fazer faculdade de Letras. Àquela época, creio que eu não lia nem dez romances por ano. Continuo com esse prazer autêntico quando ouço música, embora eu deva confessar que fui descobrindo outros prazeres com a literatura (mas bem diferentes).

Não, não é sobre nada disso que quero falar. Mas é que, um dia, estava eu numa mesa de bar com amigos, quando começou uma das nossas inúmeras discussões sobre música. Não lembro bem o que era, mas o tango entrou na jogada. Devíamos está naqueles papos de jovens que se acham eruditos, provavelmente falando de Piazzolla. No meio do engodo, eu soltei:

… e vocês sabem, o tango é uma música de origem negra…

Às vezes me pego com minha inocência. Só porque eu estava cercado de amigos “cultos”, sensíveis com as coisas do mundo, imaginei que isso fosse ser recebido com atenção pelos que desconheciam a informação. Qual nada!

Aaaaaaah, não fode, né, Cesar!!

Risadas daquelas bem agressivas e de deboche. Levantei a voz, argumentei que, como boa parte dos ritmos das Américas e Caribe, a etimologia do próprio nome tango é bantu, caso semelhante a samba, jongo, candombe, milonga, batuque, e assim por diante.

Ahahahaha, sei, sei…

Fiquei puto e calei. Tem certas coisas com as quais é mesmo difícil lidar. Há muitos conceitos relacionados ao campo semântico da negritude que estão absolutamente cristalizados. Muitos podem ser verdadeiros, mas certamente a maioria é mentirosa. E, independente de ser verdade ou mentira, o caso é que cristalizar é uma forma de silenciar, de tirar a dinâmica, as possibilidades de reconstrução, de releitura, em suma, de eliminar aquilo enquanto tema vivo, de valor e do qual as mentes se devem ocupar. A meu ver, é essa também uma das explicações para as reações agressivas que recebemos quando trazemos uma informação desse tipo. É chocante demais, e, no fundo, dá muito medo atribuir tanto valor à cultura negra, porque é essa inversão de valores que, então, vai fazer com que as culturas negras folclorizadas atravessem a rígida fronteira dos arcos da Lapa e Santa Teresa, e passem a mais cantos da cidade e do país como culturas que não dependem de espaços típicos, e junto com isso venha o dinheiro e o poder para a mão d@s que, com sua memória cultural, sustentam a continuação de tais manifestações – mas que raramente ganham algo com isso.

Putz, o Rafael tá pirando de novo, devem estar pensando os mesmos amigos que tanto riram.

Não sou menos amigo das pessoas que riram de mim. Eu também certamente já fiz isso com alguém, por razões outras e diversas. Não adianta ficar procurando pessoas culpadas por essa difícil situação. Acredito, sim, que é preciso ser duro, incisivo, que devemos falar, nos posicionar, brigar quando preciso. Mas não ficar acreditando que o outro tem culpa, que é o responsável. Esse tipo de coisa, para mim, transcende as pessoas. Colocar racistas na cadeia é muito importante, mas nunca vai resolver o problema do racismo, que é algo maior. O indivíduo não vai mais me chamar de macaco, mas vai continuar me preterindo para o emprego que vou disputar na empresa dele; da mesma forma que vai continuar gargalhando quando eu disser que o tango, essa música tão nobre, tem origem naqueles seres dignos de não mais do que uma senzala ou, modernamente, de um quartinho de empregada.

Mas, realmente, é muito irritante ver certas coisas que são tão óbvias para quem sofre o racismo serem relegadas ao nível do deboche por pessoas que sequer pensam sobre isso – e que, ainda assim, tornam-se a voz legitimada para falar de racismo ou cultura negra quando querem, caso dos tantos professores doutores das universidades e midiáticos que nunca tiveram produção sobre o tema, nenhum tipo de reflexão mais aprofundada, mas que, ao imprimirem livros com seus nomes e darem entrevistas na televisão com base em seus compadrios, têm suas opiniões automaticamente alçadas ao nível da verdade. Aquela mesa de bar, de certa forma, foi um micro-universo disso.

Dou um exemplo sobre o qual eu acabei não escrevendo mais extensamente, embora merecesse, e muito. Lembram do Andrade, ex-jogador e ex-técnico do Mengão? O cara era o eterno tapa-buracos de técnicos do time. Sempre quebrava os galhos quando ficava naquela entressafra de técnicos, e nunca davam chance pra ele. Vinham as piores tralhas para treinar o time, pelos salários mais altos, e nunca que davam uma chance pro Andrade. O Cuca (puta que o pariu, o CUCA) não arrumava nada com a gente (só Estadual, mas Estadual não conta, porque o Mengão ganha até sem técnico) e voltava pra lá, com seus olhos azulzíssimos, signo de sabedoria e conhecimento, pra não arrumar nada de novo. (Ele chegou a colocar o Andrade pra formar barreira num dia de treinamento, sabia disso? Você acha que ele faria isso com o Zico? Você acha que isso é coisa que se faça com um jogador que está no panteão do clube, que levou três títulos brasileiros, uma Libertadores e um Mundial? Se o ex-jogador for negro, pelo visto, pode fazer.) A gente que está ligado nessa parada toda, porque pensa a questão sempre – diferente, repito, dos professores doutores e midiáticos que não têm qualquer estrada no assunto, e começaram a falar sobre ele porque virou tema da ordem do dia -, já tinha relacionado essa dificuldade de firmar o Andrade como técnico com o fato de que o Brasil não tem técnicos negros, apesar de quase todos os técnicos serem ex-jogadores de futebol, dos quais pelo menos a metade devem ser negros; e relacionamos também com a nossa percepção de que o samba é tido como bagunça e que a sinfonia é séria. Não entendeu essa última parte? Lembra da metonímia? Negro é ação, é trabalho, é músculo, é folclore. E branco é ordem, é razão, é pensamento, é seriedade. Por isso não se pode colocar negros no comando de times (em comando de nada, na verdade), e por isso o Andrade não podia ser técnico do Mengão.

Isso era algo muito claro para mim e para tantos que estão atentos à questão. E, confesso, eu nunca tinha falado isso fora do circuito de pessoas em que eu confiava demais, e que confiavam na minha percepção (independente de serem negras, entenda-se). E por que eu nunca tinha dito? Por causa da experiência do dia em que falei do tango (como metonímina, uma vez mais, para tantas outras experiências do tipo). Se eu falasse, já conhecia a reação típica.

Porra, que preto mala! Essa crioulada tem uma mania de perseguição sem fim!!

Mas o problema maior é que, passada essa história toda, ainda assim a postura não muda. O Rogério Lourenço, atual técnico do Flamengo, foi efetivado depois da primeira experiência como interino (em menos de vinte dias), sem ter nem de longe a estrada que o Andrade tinha (tanto dentro como fora do Flamengo). O cara foi efetivado, aliás, no meio de uma LIBERTADORES. Vou repetir: o Andrade foi demitido e o cara foi colocado no lugar dele no meio de uma LI-BER-TA-DO-RES, o campeonato mais importante que um clube brasileiro pode disputar. Se eu disser que uma situação dessas muito dificilmente seria confiada ao Rogério Lourenço se ele fosse um homem negro, sabe o que vão dizer?

(ctrl c+ ctrl v) –> Porra, que preto mala! Essa crioulada tem uma mania de perseguição sem fim!!

Assim é. E da mesma forma que somos rotulados de paranoicos, também somos ironizados quando trazemos informações que fazem desconfiar do senso comum de que o Ocidente fez toda a história das Américas e do mundo, restando aos negros não mais do que um punhado de folclores com os quais todos nos divertimos nos momentos de descontração.

Tá bom, seu preto mala! Mas o que isso tem a ver com a história negra do tango?

Nada tão específico. Era só uma metonímia para a questão toda. É tudo metonímia, você ainda não entendeu isso?

Ah, e é claro, assim como eu queria muito ter esfregado na cara de tanta gente quando saiu na imprensa integrantes do Flamengo dizendo que o Andrade nunca tinha sido colocado como técnico porque era negro, e que isso já tinha sido dito explicitamente dentro do clube – o que é óbvio para quem passa pela questão e pensa sobre ela -, eu também queria esfregar esta notícia na cara dos meus amiguinhos. Não por vingança, mas para que eles aprendam a ouvir um pouquinho.

Ah, confessa, Rafael!

Tá, confesso: um pouco por vingança, também. Eu sou humano, pô!

E será que, assim como no caso Andrade, meus amiguinhos (“meus amiguinhos” como metonímia, gente, entendam bem!) também vão manter aquela postura?

Pedro Figari

Pedro Figari pinta uma cena de candombe, ritmo afro-uruguaio: não é tango, mas serve como metonímia.

Chimamanda Adichie e os perigos de uma história única

parte 1

parte 2

Chimamanda Ngozi Adichie é uma premiada escritora nigeriana.

(A fala está disponível em texto na negroteca, na barra à direita.)

E nos 122 anos da Abolição…

Querid@s leitor@s,

Há tempos não dou as caras por aqui. A coisa anda complicada com o mestrado e, ainda por cima, eu tenho um grande defeito chamado preguiça, que às vezes atravanca não apenas o blog, mas a minha vida como um todo. Tenho pilhas de posts rascunhados, pensados e não sei mais o quê, mas escritos, como vocês podem ver (ou melhor, não podem ver) – nada. Vou tentar retomar essa carroça já nos próximos dias, agora que as coisas estão um pouco mais calmas do lado de cá.

E vamos voltando com calma, no sapatinho, que nem atleta depois de muito tempo sem jogar. Tem que ganhar a forma física de novo, e principalmente ritmo de jogo, que é o que está me faltando. Não vou escrever nada hoje, mas é um dia que eu não poderia deixar passar em branco. 13 de maio, dia da Abolição (122 anos, e ela ainda é bem capenga, convenhamos; há os que defendam que ela é inconlusa, do que não posso discordar) e dia d@s pret@s-velh@s.

Ofereço, então, um roteiro da Abolição através de sambas-enredo que cantaram o tema desde a escravidão, chegando ao 13 de maio de 1888, e também aos tempos seguintes. Não tenho muita coisa aqui, e selecionei os que considero mais bonitos. Quem quiser contribuir, me diga a música que depois coloco aqui pra tocar também.

Kuatiça o ngoma, minha gente!!! Ngoma yotééééé!!!!

Nei Lopes – A epopeia de Zumbi

Martinho da Vila – Chico Rei

Mestre Marçal – Sublime pergaminho

Mestre Marçal – Heróis da liberdade

Nei Lopes e Wilson Moreira – Noventa anos de Abolição

Três observações, pra terminar:

Primeiro, acho muitíssimo interessante o fato de se ter estabelecido, dentro da tradição popular, o dia da Abolição como o dia d@s pret@s-velh@s. Alguém tem a genealogia disso, sabe de onde vem? Não creio que seja coincidência, nem que fosse algo anterior à Abolição. Existem estudos ou histórias da nossa oralidade dentro dos terreiros sobre isso? Queria entender isso melhor porque, para mim, é indicativo de que a sabedoria desses mais-velhos deve ter tido papel fundamental dentro das comunidades de escravos para a luta pela Abolição (embora, ao contrário, @s velh@s sejam representados comumente como mansos, de certa forma submissos, como aparece na figura de Pai João). Ou estou falando bobagem?

Segundo, não coloquei os autores dos sambas-enredo, e sim seus intérpretes, porque não sabia de todos, enfim, achei melhor não colocar de nenhum. O que não faz muito sentido, mas eu sou assim mesmo.

Terceiro, quem souber interpretar a letra de “Heróis da liberdade”, cuja melodia é uma das mais bonitas que conheço de sambas-enredo, por favor, escreva aí. Eu acho um mistério. Vai ser tema do meu pós-doutorado, um dia, porque realmente é um mistério para mim. Essa, aliás, acho que é do Silas de Oliveira com mais alguém (Dona Ivone Lara?).

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E não se fala mais nisso.

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Eu tive um sonho

Não, meus fiéis leitores, não. Esse título não remete ao famoso discurso proferido pelo reverendo Martin Luther King, Jr. em 28 de agosto de 1963, nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C. Sei que muitos pensaram “meu Deus, o Rafael pirou de vez nesse lance de questão racial, e definitivamente está a cada dia mais chato: agora até discurso está querendo fazer!” Não, meus amigos. É que há algumas noites eu tive, de fato, um sonho, que não posso me furtar a compartilhar com vocês.

*

O sonho começa numa garagem de um prédio. Eu estou num carro, no banco de trás, com uma jovem mulher ao meu lado. À direção do veiculo, uma mulher já madura, digamos assim, e que tenho a impressão de ser a mãe da jovem ao meu lado. (Na verdade, é pior: tenho a impressão de que a mulher era a tia Norma, mãe da Rapha – nhom! –, embora não fosse a Rapha ao meu lado.) O clima, todo meio tenso, e a fotografia do sonho é meio acinzentada.

Tia Norma manobra o carro e nos encaminhamos para a saída do prédio. Quando chegamos ao portão, surge um porteiro branco, barrigudo e com cara de mau. Ele vestia calça preta e camisa creme – igualzinho ao uniforme dos porteiros do antigo prédio dos meus avós – e um chapéu que lhe conferia um ar ainda mais autoritário, mas que não vou saber explicar aqui – e que os porteiros do antigo prédio dos meus avós nunca usaram.

O porteiro barra a nossa passagem e se aproxima do nosso carro. Eis que, ao ver seu rosto, percebo que era ninguém-mais-ninguém-menos do que o Muricy Ramalho! Trava-se o seguinte diálogo (que obviamente não foi exatamente como o descrevo, mas algo parecido):

Boa noite, madame.

(Tia Norma, já amedrontada) Boa noite.

Estamos tendo alguns problemas de não-sei-o-quê aqui no prédio, então vou precisar revistar o carro da senhora antes de a senhora sair. Algum problema?

Muricy Ramalho começa então a revistar a mala do carro, que tinha algumas bolsas, uma mochila, algo assim. Estamos apreensivos dentro do carro, sem entender mutia coisa, e então me dá um estalo genial: Porra, o Muricy Ramalho deve ganhar algo em torno de meio milhão de reais entre salário, patrocínio, publicidade etc. O que ele está fazendo como porteiro nesse prédio? Há algo de muito estranho.

(Estranhas são essas elucubrações de sonhos, vamos combinar. Mas o mais legal é que, durante o sonho, elas não são nem um pouco estranhas. Fluem com uma naturalidade espantosa, a naturalidade, sim.)

Me levanto do banco e chego perto do porteiro tetra-campeão Muricy Ramalho com uma pose, uma coragem, um peito estufado que, realmente, só em sonho. Mas estava eu lá. E começo a fazer uma série de perguntas a ele, tentando sondar o que aquela criatura odiosa quer. De repente, percebo que ele está mexendo em um sapato branco que eu quis comprar pro ano novo numa loja do Plaza Shopping de Niterói, mas que calhou de eu não ter dinheiro na ocasião. Muricy mexeu em um, jogou de volta na mala, e pegou a outra peça do par. Quando ia começar a vasculhar a sola, percebo que a mão que se dirige ao sapato está malocando alguma coisa, e num ato de reflexo seguro seu pulso com muita força, e entro numa briga para abrir a mão dele.

Tem o quê aí na mão, Muricy? Hein, porra?

Me solta, véi!

Eis que cai no chão um cachimbinho de maconha em formato de figa. Não me pergunte por onde se fumava, mas no sonho estava claro que era um cachimbo. E corta a cena. Estamos agora no meio de alguma rua movimentada, e eu começo a gritar pedindo por ajuda.

Alguém, socorro! Esse cara está tentando colocar um flagrante no nosso carro!

Rebuliço. Uma multidão se aproxima. Pegam Muricy e o levam pra longe, preso. Um homem cujo rosto não consigo me lembrar, mas que no sonho é meu amigo, pega o cachimbo e tira a maconha de dentro. O veredicto:

É só mato, essa porra.

Corta de novo. Estou conversando com um homem branco, bem barbeado, de terno, já é noite, e ele conversa comigo para saber o que houve. Eu conto a história, muito nervoso com a possibilidade de ter sido vítima de um golpe, e conto pro cara o que houve, até aumentando a história nos meus atos de bravura. O meu amigo fala pro cara que a erva que estava no cachimbo, afinal, não era maconha. Mas, no sonho, ainda assim isso constituía um crime grave: ter tentado depositar um cachimbo em formato de figa cheio de grama dentro, sem eu sequer poder provar nada, dava cadeia pro cara. No meio dessas explicações todas, de um lado e de outro, me surge a informação de que o cara é juiz, mora na minha rua e conhece minha família há anos.

Tu é neto da dona Olinda? Mermão, tenho muito respeito pela coroa. Agora esse Muricy tá fudido, parceiro.

Vou pra casa. A fotografia, agora, já é totalmente noir. Está escuro e faz frio. Eu me sento em uma cadeira, em frente a uma mesa, e começo a pensar sobre tudo o que está acontecendo. Eu teria uma audiência num tribunal, no dia seguinte, para formalizar as acusações contra Muricy Ramalho. Eu tiro um cochilo sobre a mesa e acordo apavorado, instantes depois. De repente ficava claro pra mim que tudo aquilo havia sido um sonho que eu tivera na noite anterior (sim, dentro do meu próprio sonho, que eu não sabia que era um sonho, parecia realíssimo). Meu coração vem à boca.

(Pausa para explicar o que está acontecendo comigo no mundo real. Eu fico muito tenso e começo a ter a impressão de que tudo é um sonho, não só o sonho que tive dentro do sonho, mas que isso tudo é, provavelmente, um sonho. Mas não consigo ter certeza de nada. É uma sensação deveras esquisita. O nível 1 do sonho – ou seja, o sonho mesmo, e não o sonho dentro do sonho – me puxa novamente, e esqueço minhas desconfianças, tomado novamente pelo medo.)

E agora? Que faço? Como vou fazer uma acusação contra o cara se, na verdade, isso tudo foi um sonho? O juiz já tinha me dito que no dia seguinte haveria imprensa escrita, falada e televisionada. Uma merda. Penso em fugir, mas a essa altura a cidade já sabe quem sou, o caso está famoso. Todos pedem a condenação de Muricy Ramalho. Começo a bolar uma estratégia argumentativa em que eu não precise mentir, em que eu possa dizer que foi um sonho, mas que ainda assim aquele agindo era o Muricy. Mas não dá pra comprovar nada disso. Nada disso tem qualquer base seja jurídica, moral, ética. É tudo uma maluquice, e eu começo a chorar.

Puta que o pariu, amanhã vão me botar na cadeia!

Volta a desconfiança. É sonho? Não é sonho? Estou dormindo? Estou acordado? Ouço passos subindo uma escada e alguém bate na porta. São eles, chegaram.

Enche a pança de sopa de feijão e vai dormir logo em seguida, dá nisso.


oquê, caboco!

quando chegar a um milhão, eu fecho o blog.

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