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O caso da aluna da Unibam na visão da prostituta Gabriela Leite

Sobre aquele circo armado por causa da aluna de minissaia da Unibam, Gabriela Leite escreveu um dos mais interessantes artigos. Eu sei que sou suspeito, mas reproduzo aqui o texto porque vale a pena. Está publicado originalmente no Blog Mulher 7 X 7, da revista Época Online, e está também no Beijo da Rua, jornal da ong Davida, presidida por Gabriela.

“Todas nós podemos ir aonde quisermos”

Da Europa, ativista do movimento de prostitutas acompanha o caso “estarrecida” e incentiva Geisy a falar

Gabriela Leite, em 9/11/2009

Aqui em Amsterdã, onde estou para uma reunião do movimento internacional de prostitutas, acompanho estarrecida as notícias sobre a moça do vestido rosa-choque. À distância, fica ainda mais difícil entender o que se passa nas cabeças da direção da Uniban e de seus alunos de moral irrepreensível.

O país da Uniban e seus alunos não é, em definitivo, o meu país, como também não é a cidade em que nasci e onde passei grande parte de minha vida.

Fui aluna da USP nos já longínquos anos setenta. Eram tempos efervescentes: todos nós queríamos uma sociedade mais aberta e menos hipócrita em relação à sexualidade. A pílula anticoncepcional deu maior liberdade sexual para a mulher. Nós, meninas cheias de sonhos e cansadas da educação diferenciada, fomos à luta e aderimos à chamada revolução sexual. Marcuse, Foucault, Deleuze – nossos ídolos e gurus do pensamento libertário. Quantas discussões no bar da Consolação sobre a sexualidade livre, mais sincera e menos hipócrita.

A vida real um dia nos chamou, e seguimos cada uma o seu caminho. Fui para a prostituição com um imenso desejo de conhecer um outro mundo, outros códigos. A Boca do Lixo me chamava insistentemente. Acreditava que a sociedade estava mudada e me deparei com a realidade nua e crua do estigma da prostituta: dupla moral para poder viver na sociedade e clientes colocando para fora suas fantasias sexuais. Os mesmos homens que, em suas vidas, posavam e posam de guardiães da moral e dos bons costumes. Homens que, como nós, prostitutas, viviam também uma dupla moral. Como uma tradução dessa realidade subjetiva, sobrava para nós, prostitutas, a realidade nua e crua: violência policial com porradas, prisões e desaparecimentos de colegas dos porões da Terceira Delegacia da cidade de São Paulo.

Resolvi não ficar parada olhando e desde então venho falando, agindo e acreditando que uma sociedade menos hipócrita em seus valores morais é possível de ser alcançada. Esse é meu sonho, essa é minha vida. É difícil! As verdades absolutas (que ninguém vive) estão entranhadas em nossa cultura.

O caso da moça do minivestido rosa-choque me faz lembrar da história de uma amiga prostituta. Trabalhando na praça da Alfândega, em Porto Alegre, decidiu fazer faculdade. Quis seguir meu exemplo e entrar no curso de sociologia. Seu sonho: poder usar as ferramentas metodológicas da sociologia para estudar a fundo o mundo da prostituição. Um belo dia, um colega de classe a viu impávida, encostada em um poste na praça da Alfândega. O rapaz chegou à faculdade e contou para todos os outros colegas de classe a “verdadeira” história de minha amiga. Quando ela chegou para a aula, nenhum aluno a cumprimentou e todos passaram a ignorá-la. Passados alguns dias, minha amiga perdeu a paciência e resolveu enfrentar a situação. Perguntou a todos o porquê de tudo aquilo, o porquê de tanto desprezo. O rapaz que a viu na praça disse então que era inadmissível conviver no mesmo espaço que ela. Sua namorada (moça direita da sociedade gaúcha) não merecia tanta afronta. Finalizou dizendo que as mulheres vagabundas deveriam saber qual o seu lugar e não afrontar a vida das boas mulheres da sociedade.

Ok, disse minha amiga. Não fico à toa encostada no poste da praça. Não sou nenhuma boba de enfrentar o preconceito e aguentar o frio ou calor por puro diletantismo. Fico lá porque sei que existe demanda para os meus serviços. Eu não existiria se não fosse você – ou homens como você que me procuram para satisfazer suas fantasias. Eu sou o espelho de seus preconceitos morais.

Claro como a água! Aluna brilhante, hoje minha amiga está fazendo mestrado em Direitos Humanos e Gênero na mesma universidade e continua no mesmo poste e na mesma praça de sempre ajudando os homens a enfrentar suas fantasias sexuais.

Enquanto uma estudante é expulsa da faculdade em São Paulo sem sequer ser avisada, e simplesmente sob a incrível alegação de ser “provocativa” e “usar roupas não condizentes com o ambiente” – um mero minivestido rosa –, estou na Europa tratando de assuntos políticos relativos à prostituição.

Na semana que passou, participei de uma reunião na ONU em Genebra de um grupo de trabalho que está elaborando um documento sobre como trabalhar prostituição e Aids no mundo. Agora estou em Amsterdã para outra reunião com as colegas europeias. Faremos um apanhado geral de como anda o movimento no mundo e planejaremos os passos para os próximos cinco anos.

Na semana que passou, participei de uma reunião na ONU em Genebra de um grupo de trabalho que está elaborando um documento sobre como trabalhar prostituição e Aids no mundo. Agora estou em Amsterdã para outra reunião com as colegas europeias. Faremos um apanhado geral de como anda o movimento no mundo e planejaremos os passos para os próximos cinco anos.

Parecem dois mundos! Bebel (foto ao lado), a grande personagem prostituta de Camila Pitanga em recente novela da Globo, estava um dia linda e maravilhosa no calçadão da Av Atlântica com um minivestido rosa-choque, cheio de brilhos. O namorado rico passou por lá e a tratou como lixo e ela olhou para ele e, de dentro de seu coração, disse: “Sou gente!”

Ontem à noite, bebericando um vinho com minhas colegas europeias, contei a história de Geisy Arruda, xingada, humilhada e agora expulsa de uma universidade no estado mais desenvolvido do país. Lícia, amiga de anos, me disse: “Precisamos mais e mais falar e mostrar a compreensão que temos de nós mesmas, mulheres. Fazendo isso estamos nos ajudando e ajudando a sociedade a ter um equilíbrio maior na sua civilidade”.

É isso! Pela nossa civilidade espero que a moça não se cale. Não importa o que ela faz em sua vida particular. O que realmente importa é ela enfrentar a situação e falar, falar muito. É falando e saindo do escuro que todas nós poderemos sair da divisão entre “boas mulheres que vão para o céu” e “más mulheres que vão para todos os lugares”. Ora, todas nós podemos ir aonde quisermos!

Manifesto Porta na Cara

Sim, eu sei que os seguranças de portas giratórias de bancos não travam as portas somente para negros. Já vi pessoas brancas, inclusive algumas mulheres, gastando um tempão pra provar que não tinham nenhuma arma na bolsa ou na cintura.

A questão é que sabemos que aquele detector de metais é muito mais uma desculpa para os seguranças fazerem o controle da forma como julgam apropriada do que qualquer outra coisa. O que trava, mesmo, é aquele controlezinho que eles carregam. Comigo é rotineiro, sem qualquer exagero, passar por aquela porra sem metal nenhum na mochila (já deixei até estojo naquela caixinha ao lado por causa de lapiseira) e me travarem. Ou seja: o que volta e meia detectam em mim é um meliante em potencial, porque por várias vezes não havia qualquer metal a ser detectado. Se eu não tinha metal, por que ‘a porta’ travou? E, se eu tenho metal, por que logo em seguida ‘a porta’ destrava?

E nessa de o crivo da segurança passar pelos olhos dos seguranças, é claro que o indivíduo negro leva a pior. Assim como leva a pior com a polícia, com emprego etc.

Eu nunca cheguei a ter de tirar a camisa, possivelmente porque sou um negro de pele mais clara, mas já ouvi/li várias histórias de pessoas que tiveram de chegar a esse ponto constrangedor, inadmissível.

Ora, Rafael! Quer dizer então que você acha que tem que tirar as portas giratórias de segurança e deixar qualquer um entrar, como se não houvesse risco de assaltos, sequestros, assassinatos?

Não, de forma alguma. Minha questão aqui é só mostrar mais uma das muitas formas e espaços em que a discriminação torna-se uma ação concreta e prejudica as pessoas negras. E, por isso mesmo, não assinei também o manifesto, que me parece vazio, vago. É claro que eu quero segurança nos bancos.

Mas, se você quiser assinar o manifesto, vá lá!


oquê, caboco!

quando chegar a um milhão, eu fecho o blog.

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