Arquivo para outubro \21\UTC 2009

‘White flight’ no mundo digital

O primeiro link eu peguei no NPTO (que, aliás, voltou de férias finalmente, e ao qual recomendo visitação diária, pois é muito bom). E, depois do primeiro link, emburaquei sozinho pros outros.

Basicamente é o seguinte: nos EUA, a juventude branca-bem-educada está deixando o Myspace e migrando para o Facebook, enquanto os pretos e suburbanos continuam no Myspace.

Foi uma americana chamada Danah Boyd quem andou pesquisando sobre o perfil dos usuários das redes sociais (Orkut, Facebook, Myspace etc.) e descobriu que – especialmente entre adolescentes – os padrões de segregação do mundo real se repetem no virtual. O universo de que ela trata é o americano, mas muito do que ela fala já andei (andamos?) percebendo no Brasil. A descoberta em si não é grande novidade para quem está mais ou menos atento, mas sobretudo as análises que ela faz são muito interessantes.

Para quem não estiver com muita paciência para ler o artigo completo, pode ler a entrevista que ela deu sobre o assunto para o The root (atente que são duas partes; no final tem um link pra página seguinte). E pra quem quiser ler tudo, o que eu recomendo enfaticamente, está na página pessoal dela.

(Tanto a entrevista quanto o artigo, infelizmente, só estão disponíveis em inglês.)

Os questionamentos que ela levanta são muito pertinentes e vão fundo na questão. A primeira colocação é a de que podemos ver no mundo digital o fenômeno do mundo real chamado ‘white flight’ (algo como ‘fuga dos brancos’), uma migração dos setores mais ricos das cidades grandes para cidades menores ou bairros mais afastados que começou nos EUA nos anos 60 e 70 por causa do aumento da violência, do crescimento dos guetos, aumento de carros e – uma coisa que ela não explicita, mas que fica claro pela leitura do texto e por coisas que já andei lendo vida afora – pelo aumento da diversidade racial (não apenas negros, mas árabes, latinos, asiáticos) nos espaços anteriormente frequentados apenas pela elite majoritariamente wasp (white-anglo-saxons-protestants ou brancos-anglo-saxões-protestantes).

Mas, se no caso do ‘white flight’ real havia motivos que, em tese, poderiam ser justificados concretamente (medo de sofrer uma violência, por exemplo), no caso virtual a coisa se mostra diferente. Sobretudo, como destaca Danah e com a qual eu concordo plenamente, o fenômeno ‘myspace-to-facebook’ que vemos evidencia que o grande medo é muito maior na esfera simbólica. Não é apenas o medo do contato físico, mas sobretudo o da troca (qualquer tipo de troca) com aquele que não se conhece. O medo de ser poluído por valores dos quais se tem aversão, normalmente por desconhecimento. O horror ao outro. Nessa, o fenômeno da internet é fundamental por estar ajudando muito a entender como se operam essas complicadas relações também na vida real.

Danah ainda arremata (na boa, o artigo é muito bom; se você lê inglês, pare de ler o meu post e vá à fonte) mostrando que a coisa é muito marcadamente segregacionista porque, diferente de um provedor de e-mails, em que alguém do Hotmail pode enviar mensagem para alguém do IG (ela não exemplifica com o IG, evidentemente), no caso das redes sociais isso é impossível: quem é do Facebook só conversa cmo quem é do Facebook. Assim, mesmo com o crescente acesso à internet por pessoas dos mais variados perfis socioeconômicos, culturais e raciais (acho que a maior parte das favelas cariocas, por exemplo, têm lan house e gato-net com boa conexão), e estando os problemas da infraestrutura nas grandes cidades sendo superados como a primeira barreira que separava, estamos criando uma nova e igualmente concreta muralha. Justamente no espaço que se vangloria de ser uma revolução por poder manter em contato o mundo todo. Paradoxal, não?

E esses padrões, como eu falei, se repetem no Brasil. O ‘white flight’ do mundo real também está acontecendo por aqui, embora em menor grau por causa de especificidades nossas. Os subúrbios do Rio, por exemplo, são praticamente todos considerados muito menos seguros do que os bairros nobres da zona sul, e então o pessoal que não consegue mais aturar as favelas ao redor de seus prédios está fugindo, sobretudo, para as cidades serranas mais próximas, como Petrópolis, Itaipava, Teresópolis, em busca do isolamento (acho que esse é o termo chave). E acho que essa migração só não acontece em maior escala porque nosso sistema de transporte é muito capenga, diferente do que imagino ser (veja bem: imagino) nas cidades americanas.

Mas as semelhanças não param por aí. No mundo digital daqui também temos observado um fenômeno semelhante. Cada vez mais a moçada descoladinha está deixando o Orkut para ir pro Facebook. Muita gente está apagando o seu Orkut e ficando exclusivamente no Facebook. E isso vem acontecendo, no meu superficial porém atento ver, por três razões: um) o Facebook é uma novidade, e acaba inspirando, naturalmente, uma movimentação; dois) o Orkut já deixou, há muito tempo, de ser frequentado pelo povo refinado, e tem cada vez mais pobres, favelados, não-brancos e pessoas em geral que nem conhecem Radiohead ou Belle & Sebastian; três) o Facebook é moda entre europeus e americanos, o que surte um efeito danado numa ex-colônia como a nossa. Aqui, não se fala tão claramente como lá que a mudança se deu porque o Orkut é coisa de gente pobre. Virou démodé, só isso.

Mas, mesmo sendo brancos, bem-educados, viajados e com dinheiro, ainda somos latino-americanos, eternamente no entre-lugar do mundo. E é assim que, ao mesmo tempo que nossas elites fazem o ‘white flight’ para não se associarem à chusma que lhes serve diariamente, elas próprias muitas vezes sabem, mas fingem ignorar, que são razão do ‘white flight’ dos seus colonizadores para paragens distantes de nós. Quem não se lembra do espanto e desgosto do povo do hemisfério norte ao descobrir que só tinha brasileiro no Orkut, o que os fez mudar para o Myspace? (Lembram também que tinha até um papo, acho que lenda, de que o Orkut tornava mais lento e com mais problemas o acesso dos perfis marcados como brasileiros?)

Quando a nossa elite brasileira lotar o Facebook, desesperada por ser aceita pela elite do hemisfério norte, eles lá já terão criado um novo site pra se abrigar – e aí, não duvido, qualquer hora dessas com um sistema de reconhecimento, talvez, de IP (já que o cutâneo ou genético não seria politicamente correto, digamos assim).

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Grife de maquiagens ‘Rio 2016’ anuncia seu primeiro produto

Eis que estou almoçando na santa paz da minha cozinha, no recônidto de meu lar, me deliciando com o feijão e o pé de porco, quando ouço, da sala, o apresentador do telejornal vespertino:

O prefeito Eduardo Paes anunciou, hoje de manhã, a implantação de barreiras acústicas ao longo da Linha Vermelha e da Linha Amarela.

Lembrando-me da figura do prefeito carioca com aquele cabelinho sem um fio fora do lugar e sorrisos prontos até sob tortura, pensei logo que boa coisa não podia ser. Corri para a sala, e continuei ouvindo:

As Linhas Amarela e Vermelha vão receber barreiras acústicas a partir de novembro. As placas, de 38 metros de comprimento e cerca de três metros de altura, serão instaladas em quase toda a extensão da via. Somente os locais não habitados ficarão sem a proteção. As barreiras acústicas serão construídas em aço, concreto e policarbonato.

De acordo com o prefeito Eduardo Paes, a questão da segurança não foi o principal motivo para que as placas acústicas fossem instaladas. Ele afirmou, ainda, que o principal ponto é isolar as pessoas do barulho criado pelo tráfego de veículos em áreas residenciais. Paes, no entanto, confirma que as barreiras trazem mais segurança, mas não têm intenção de esconder as comunidades do entorno.

As placas acústicas das Linhas Amarela e Vermelha vão exibir a silhueta de montanhas que são ícones da beleza da cidade, como o Corcovado, Pão de Açúcar, Dois Irmãos e Pedra da Gávea. As pinturas vão mostrar também a cultura das comunidades locais. Para isso, será feito um concurso, em que mais de 400 artistas poderão colaborar. Autores famosos serão convidados a expor seus desenhos ao longo das duas vias.

Pois bem: a notícia não é nova, mas é, de certa forma, da ordem do dia – ou melhor, dos próximos sete anos. Essa é, ao que parece, a primeira das muitas medidas que devem vir por aí em função das Olimpíadas de 2016, que serão sediadas na cidade do Rio de Janeiro. E começamos mal, como se vê.

Quando começou a ficar evidente que o Rio tinha chances concretas de ser escolhido como cidade-sede das Olimpíadas de 2016, minha primeira reação foi de total repúdio. Tendo acompanhado as várias suspeitas de irregularidades no Pan, e não tendo percebido nenhuma melhora estrutural para a cidade, como prometido e apregoado (é verdade que não circulo pela zona oeste, pode ser que por lá tenha havido alguma evolução; mas sei também que o lixão da Cidade de Deus continua igualzinho, ao lado daqueles prédios da Vila do Pan), falei horrores contra a dimensão que a farra do dinheiro público ia tomar se fizéssemos algo do tamanho de uma olimpíada.

Não sei se se lembram, também, à época do Pan estava havendo uma tentativa de tomada da Vila Cruzeiro pelo Bope como forma de vingança da morte de um de seus membros, se não me engano. Os caras ficaram cerca de duas ou três semana tentando entrar no morro de mil maneiras (os traficantes construíam muros, jogavam óleo na ladeira), trocando muitos tiros todos os dias – foi uma crise pra imagem do Bope, na época, e terror para os moradores durante um tempo grande. E isso saía nas mídias impressa e televisionada todos os dias. Não posso me esquecer: no dia em que começou o Pan, essas cenas, que ficaram em primeira página durante um tempão, desapareceram. E no dia seguinte ao encerramento do Pan, a manchete d’O Globo era algo como “E tudo continua igual na Vila Cruzeiro”. Aquilo me chamou muito a atenção. Parecia que os jornais estavam dizendo pro poder público: “Olha só, estamos cansados de tanta violência. Vamos apoiar vocês tirando essas matérias de nossas páginas, até para não prejudicar a imagem da cidade internacionalmente (e porque teremos bons lucros a ganhar com os jogos sendo bem realizados), mas vamos mostrar nossa indignação novamente quando passar essa festa – e vocês vão sair mal na fita.”

Lembrando e considerando tantas coisas da época do Pan, e conhecendo o nosso Brasil-sil-sil e governantes, eu não poderia ser a favor das Olimpíadas. Aliás, eu não poderia não ser frontalmente contrário a elas. E vi muita gente escrevendo essas coisas que eu pensava.

Mas, chegando o dia da decisão, balancei. Me bateu a mesma dificuldade, creio, que sentiram os jovens revolucionários do tempo da ditadura, orientados pela patrulha a torcer contra a seleção na Copa de 1970, pois a nossa vitória no México seria mais uma forma de alienar o povo e perpetuar no poder o governo militar. A verdade é que esses homens e mulheres não se aguentaram e torceram loucamente, mesmo que em silêncio, para que o Brasil trouxesse a Jules Rimet. Ora, não tinha como! E eu também. Fiquei meio encabulado na véspera, mas quando anunciaram a vitória, fui alegria pura. E só não corri pra praia de Copacabana pra ver Revelação e Bateria do Salgueiro porque tinha de trabalhar no fim do dia. Ossos do ofício.

E passei a ser a favor das Olimpíadas (quem me conhece, sabe que sou capaz de abraçar ideias radicalmente opostas em questão de segundos se sou convencido delas; amanhã este blog pode estar desdizendo tudo o que diz, riscando posts e xingando o próprio autor dos piores nomes) porque ela é um passo importante para essa maturidade que tanto falta ao nosso país. País que foi colônia, tirando os EUA, não tem jeito: sofre de baixa autoestima. Em 1958, com a conquista da Copa na Suécia, começamos a desfazer aos poucos a ideia de inferioridade perante os europeus altos, louros e técnicos, que se perderam na nossa sábia ginga, essa nossa sabedoria outra. Foi-se a síndrome do patinho feio, como descreveu Nelson Rodrigues. Cinquenta anos depois, agora estamos mostrando no âmbito “diretivo”, e não apenas “expressivo” (da capoeira, samba, futebol), que somos adultos dentro da ordem mundial estabelecida. O impacto disso sobre a população é algo incomensurável. Nenhum país cresce se a sua população não acredita na própria competência – porque, aí, perde-se iniciativa e força de trabalho em massa, o que tem efeitos, evidentemente, maciçamente negativos. Dá pra entender mais ou menos essa minha lógica? Certamente não é a única coisa importante para o crescimento de um país, mas acho mesmo que é uma das fundamentais, e muito corriqueiramente subestimada. Não adianta um grande líder se a sua população não trabalha junto, digamos assim.

O caso é que essa dose de otimismo me fez crer, inocentemente, que nossos governantes passariam a se sentir como que obrigados a tomar atitudes mais responsáveis em relação ao abandono do Rio, porque para as olimpíadas teremos o mundo inteiro fiscalizando, e um povo que se dá maior importância e passa, aos poucos, a cobrar mais porque não quer fazer feio, também.

Mas aí me vem uma notícia dessas. “Barreiras acústicas”, diz o noticiário, sem problematizar minimamente esse fato que se mostra de uma cara-de-pau para a qual não haverá verniz suficiente no mundo. Os caras têm sete anos para, pelo menos, oferecer um pouco de dignidade aos moradores das favelas do entorno das Linhas Amarela e Vermelha; podiam pintar, fazer algum tipo de reforma, limpar a sujeira dos lixos acumulados. É um pensamento escroto, mas era o que nos restava. Eu, que não vivo em favelas, estava pensando: “Esses caras não põem uma nova estação de metrô nessa cidade com trânsito que se complica a cada dia, mas prometem até uma nova linha se rolarem as olimpíadas. Isso é um completo absurdo, mas se é a única forma de termos mais estações de metrô e um trânsito organizado, então ok, vamos torcer pelas olimpíadas”. O mesmo fico pensando para uma possível melhora nas condições de habitação dos favelados à beira das vias expressas. Não podiam iniciar uma reforma? Não. Vão botar tapumes. Esconder essa gente toda.

E, nessa, a chance de levantar a autoestima da galera se torna uma forma de botar ainda mais pra baixo quem já acha que vale tão pouco. “Vamos esconder vocês para que os atletas e comissões esportivas do mundo civilizado-branco-louro-perfeito não os vejam, seus pobres-pretos-fedorentos-ignorantes.” Ao fim, com o perdão da comparação, o que estão fazendo é varrer a sujeira pra debaixo do tapete. Porque é isso: para os almofadinhas que governam, as pessoas que moram nas favelas têm a cor e o aspecto da sujeira. Quando falo de cor e aspecto, não me refiro apenas à população negra. É força de expressão. Mas pode crer que está tudo relacionado, e que as matizes não-brancas têm papel importante nisso.

(Fora que esse lance de a barreira ser acústica só pode ser pra impedir que se ouçam tiros, já que evidentemente a preocupação não é com o sono dos moradores das favelas. E eu fico pensando no calor que não vai ser com essas barreiras, que nem uma brisazinha vão deixar passar.)

Ainda penso numa última coisa. Não sei como foi, mas se a imprensa abafou o caso da Vila Cruzeiro na época do Pan, certamente abafou muitos outros casos em que a polícia agiu. Se houvesse uma chacina na Vila Cruzeiro nauqel época, como pode ter havido, certamente não ficaríamos sabendo. Com as mil desocupações e choques de ordem que a prefeitura vai ter de fazer pra realizar as Olimpíadas de 2016, podem anotar o que aqui escrevo (ou melhor, ctrl + c e ctrl + v, que estamos na era digital): vai morrer muita gente. Muita gente mesmo. E só gente pobre e/ou preta, evidentemente. Tenho um amigo que trabalha num núcelo temático de terras e habitação da Defensoria do Rio, e que lida com direitos humanos das populações marginalizadas. Esse setor foi criado justamente na época do Pan, por conta da desocupação de áreas em que moravam muitas pessoas, o que gerou grande demanda de serviços jurídicos para resolver indenizações e fiscalizar como estava sendo feito o processo. Agora, com o anúncio das olimpíadas no Rio, estão todos desesperados e tentando aumentar a equipe para tentar suprir o que de pior vem aí. E o problema é que muitas mortes certamente não serão evitadas, especialmente durante os jogos.

Como disse um outro amigo, sob brilhante inspiração: “Bota na conta do COI.”

Sherice Yvette

Sherice

Sete ventos, com Débora Almeida

A equipe do meujazz assitiu e aplaudiu!

Sete ventos, com Débora Almeida

Sete ventos conta a história de Bárbara, uma escritora negra que relembra as suas histórias e as histórias de outras mulheres negras que fizeram parte de sua vida e a influenciaram.

Neste cruzamento de vozes e relatos, a atriz Débora Almeida, integrante da Cia. dos Comuns e autora desta produção solo, poetiza e corporifica as diferentes situações, impressões e vivências de mulheres negras de diferentes faixas etárias. As relações entre a ancestralidade e a contemporaneidade, ponto central em que se estrutura o texto, mostram as influências das histórias vividas por nossos antepassados em nossas vidas e a força que adquirimos quando conhecemos essas histórias.

Alternando entre humor e força poética – e provocando, em certos momentos, uma interessante participação do público, que fica sentado em cadeiras em cima do palco -, as personagens constroem um diálogo entre si ao longo do espetáculo, e evidenciam, com grande sensibilidade, as subjetividades relativas a gênero e raça que perpassam as vidas das mulheres retratadas. A atriz reveza-se entre as várias personagens apresentadas, cada qual representando uma qualidade de Iansã.

Recomendadíssimo!

Serviço:
Sextas-feiras, às 21h, de 02 de outubro a 06 de novembro (exceto dia 23 de outubro).
Praça Cardeal Arcoverde, s/n, Copacabana, Rio de Janeiro (ao lado da estação Cardeal Arcoverde do metrô)
Tel: 2332-7904
Ingressos: R$10,00
Classificação: 16 anos

Só restam mais 3 apresentações: nos dias 16/10, 30/10 e 06/11.

O texto acima é uma colagem entre minhas impressões do espetáculo e informações retiradas do blog da peça e do blog da atriz. Entre nos sítios para saber mais. Mas pra saber, mesmo, só indo assistir à peça!

Seminário na ABI discute o papel da mídia no debate sobre igualdade racial

Que causa poderia unir o arquiteto Oscar Niemeyer, o cineasta Nelson Pereira dos Santos, os antropólogos Roberto da Matta e Otávio Velho, o jurista Fábio Konder Comparato, os ministros do STF Marco Aurélio Mello, Joaquim Barbosa Gomes, Celso Mello e Carlos Ayres Britto, os jornalistas Miriam Leitão, Elio Gaspari e Ancelmo Góis, os atores Lázaro Ramos, Wagner Moura e Taís Araújo, os compositores e cantores Gilberto Gil e Martinho da Vila? Resposta: as políticas de ação afirmativa, que incluem as polêmicas cotas para negros nas universidades. Por que, então, essas figuras tão relevantes de nossa sociedade não costumam ser entrevistadas sobre esse tema? Seria isso produto de uma ação deliberada de grande parte da mídia brasileira, possivelmente interessada em fabricar uma opinião pública contrária a essas políticas?

Esse é o tema central do seminário Comunicação e Ação Afirmativa: O Papel da Mídia no Debate sobre Igualdade Racial, que será realizado nos dias 14 e 15 de outubro no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (Rua Araújo Porto Alegre, 71 – Centro), no horário de 13h30min a 17h30min. Com a presença de grandes nomes da mídia brasileira, ao lado de especialistas acadêmicos e ativistas do movimento social, o seminário – fruto da parceria entre a ABI, o Conselho Municipal dos Direitos do Negro (Comdedine) e a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), com apoio da Coordenadoria Especial de Promoção da Igualdade Racial do Município do Rio de Janeiro (CEPIR) – pretende suscitar um debate que vai além dos limites de seu tema, pois envolve o papel da mídia numa sociedade democrática, suas responsabilidades e limites.

SEMINÁRIO COMUNICAÇÃO E AÇÃO AFIRMATIVA:

O PAPEL DA MÍDIA NO DEBATE SOBRE IGUALDADE RACIAL.

Realização: ABI, COMDEDINE, COJIRA, SEPPIR, CEPIR

Local: Associação Brasileira de Imprensa – Rua Araújo Porto Alegre, 71 – CENTRO – Rio de Janeiro – RJ

PROGRAMAÇÃO

Dia 14 de outubro

14h – Mesa de Abertura com representantes das entidades organizadoras, Sindicato dos Jornalistas

15h30min – Cobertura da Ação Afirmativa no Brasil

Ancelmo Gois (O Globo)

Kássio Motta (autor de pesquisa acadêmica sobre a cobertura do tema pelo Globo)

João Feres (IUPERJ)

Dia 15 de outubro

13h30min – A Responsabilidade Social da Mídia e o Debate sobre Raça

Muniz Sodré

Maurício Pestana (revista Raça)

Márcia Neder (revista Cláudia)

15h30min – Da Opinião Publicada à Opinião Pública: A Fabricação de um Consenso Anticotas no Brasil

Miriam Leitão (O Globo)

Rosângela Malachias (CEERT)

Carlos Alberto Medeiros (CEPIR)

(Texto: divulgação do evento)

Glória Bomfim tem seus santos e orixás e não precisa da ex-patroa

Glória Bomfim é uma das descobertas musicais mais interessantes que tive o prazer de ouvir nos últimos tempos. Foi-me apresentada por uma amiga há um ou dois anos atrás, e já andei ouvindo suas músicas em recentes idas a rodas de samba, o que me dá muita alegria.

Até agora o único CD de Glória, Santo e orixá tem todo o seu repertório composto por músicas inéditas de Paulo Cesar Pinheiro, que dispensa apresentações. As letras que versam neste disco são relacionadas ao universo litúrgico afro-brasileiro, e que não poderiam ter uma intérprete melhor do que Glória, já que ela, além de grande cantora, é mãe-de-santo.

O mais curioso da história toda, entretanto, é que Glória foi empregada doméstica de Paulo César Pinheiro. Um dia, não podendo mais ignorar o grande talento de Glória a cantarolar pela sua casa todos os dias, Paulo Cesar Pinheiro e sua mulher, a cavaquinista Luciana Rabello, decidiram produzir um disco dela.

Ouça abaixo a faixa “Gameleira branca” e vá correndo comprar o disco. Mas, antes de ir à sua loja favorita, termine de ler este post, que começa feliz, mas não pode se furtar a denunciar um texto que a senhora Luciana Rabello escreveu sobre sua ex-empregada.

Vejam só que gracinha. Estou colocando apenas os trechos que me chamaram a atenção. O texto completo está no myspace da Glória, assinado pela ex-patroa, pra quem tiver estômago:

(E eu me pergunto, desde já, como pode Paulo César Pinheiro, conhecedor e divulgador do mais fino corte das nossas tradições, se omitir ante essa obra-prima de sua esposa?)

A Yalorixá Glória Bomfim é uma das mais expressivas e autênticas vozes que conheço. Seu canto primitivo, forte, verdadeiro, despretensioso e absolutamente intuitivo é um diamante bruto que representa, de forma emocionada, a cultura dos terreiros de candomblé, trazida pelos negros africanos e mantida aqui pelos mestiços brasileiros. Resolvi registrar o que ouvi, cumprindo tanto quanto possível o papel de repórter, interferindo minimamente e apenas quando necessário.

Começamos bem. Canto “primitivo, forte, verdadeiro, despretensioso e absolutamente intuitivo“, eu gostaria de crer que fosse uma piada de mau gosto. Mas não: essa senhora realmente coloca todo lindo trabalho de Glória na conta de uma coisa mística e dentro de uma mentalidade pré-lógica, que não pensa, só sente, como é comum entre os negros. O seu “papel de repórter” só me faz lembrar um antropólogo inglês, pena à mão, anotando cada movimento de selvagens africanos em seu habitat – e, para não haver distorções, “interferindo minimamente e apenas quando necessário“.

Luciana então fala do processo de gravação do disco, em que fez questão de chamar profissionais que conheciam e respeitavam a linguagem do candomblé, querendo enfatizar todo o seu respeito por essa manifestação folclórica de que Glória é guardiã, já que esta “tinha cultura, ancestralidade”. (Não se engane: essa “cultura”, definitivamente, não é “conhecimento”, mas sim aquela ideia de “ser da raiz”.) Diz também que os tais músicos “já admiravam a Glória das rodas na minha casa”. Aqui entra algo bastante sutil, mas não menos cruel. Não sei como era a relação das duas em casa, mas consigo visualizar, claramente, a cena dos músicos populares da alta classe média carioca sendo servidos por Glória Bomfim (que também terá preparado os quitutes oferecidos por Luciana Rabello) e, a cada meia hora, chamando-a da cozinha para cantar junto.

Sabe qual é a questão? Vai saber se a Glória Bomfim estava mesmo a fim e à vontade de cantar com aquelas pessoas. Pode ser que estivesse? Sim. Mas pode ser também que, por várias vezes, ficasse cansada de ser o mico de circo que anima a plateia, como qualquer artista. E com uma diferença: qual a margem que ela teria de dizer “Dona Luciana, hoje não quero, não estou a fim. Vou ficar no meu quartinho de dois metros quadrados, assistindo à minha televisão de cinco polegadas. Quando a senhora precisar de alguma coisa, grita”? Quase nenhuma, evidentemente. Até porque Luciana não entenderia como Glória não iria querer estar com ela, sendo uma patroa tão boa.

E já que Luciana fala da ancestralidade de Glória nesse texto, deixa eu falar um pouco da ancestralidade da própria Luciana. Talvez ela não saiba, mas está repetindo o velho hábito que seus antepassados senhores de terra tinham de ir à senzala com seus convidados e mandar os negros cantarem os folguedos, jongos, sambas para diverti-los. Isso era comuníssimo, e ai do escravo que não quisesse participar do pocket show. Wilson Moreira e Nei Lopes já cantaram em “Candongueiro”, mas Luciana, mesmo atenta e sensível ao mundo do samba, não percebeu: “Meu candongueiro / bate jongo dia e noite / só não bate quando o açoite / quer mandar ele bater / também não bate / quando o seu dinheiro manda / isso aqui não é quitanda / pra pagar e receber”.

(Quando falo dos antepassados de Luciana Rabello, não afirmo que estes tenham sido senhores de escravos, mas remeto a um espaço simbólico do qual ela é herdeira socialmente falando, já que desfruta dos privilégios de ser branca por conta do passado da escravidão e do racismo que é presente – além de repetir os costumes que são tradicionalmente passados adiante nesse contexto.)

Mas isso ainda não é nada. A autora da pérola do colar de pérolas passa então à história de Glória desde seus tempos de menina em Areal, interior da Bahia, quando já cantava nas festas de sua cidade, acompanhada de violeiros e sempre em cima de um caixote, já que tinha apenas 8 anos e era pequenina. A música principal de seu repertório, curiosamente, já era uma valsa de Paulo César Pinheiro. Mas aí – prestem atenção -, assim Luciana arremata esta passagem da vida de Glória Bomfim:

A partir daqueles dias, a menininha começa a sonhar em ser cantora de verdade. Mas a valsa e tudo aquilo ficaria pra trás quando, acreditando em falsas promessas de estudo e de um futuro melhor, Domingas entrega a filha aos cuidados de uma senhora. No lugar de cartilha, a menina recebeu uma colher-de-pau e o trabalho doméstico não remunerado. Voltou a subir em tamboretes, agora não mais pra cantar, mas pra alcançar o fogão e a pia. Acabou se tornando uma cozinheira de mão cheia!

Que coisa maravilhosa, gente! Quem diria que, apesar de tanto sacrifício e injustiças que sofreu, Glória teria a dádiva de se tornar uma cozinheira de mão cheia e poder cozinhar para a dona Luciana Rabello? Você pode imaginar alegria maior na vida de uma mulher?

Glória trabalhava sempre cantando. Desde a primeira vez que a ouvi, já senti o que estava ali. Voz rascante e afinada, com volume impressionante, precisão rítmica admirável. […] O repertório era irretocável. Comecei a reparar também que Paulo César Pinheiro, o dono da casa, era o compositor mais constante […] Um dia daqueles, ainda sem conhecer sua história, passei pela cozinha enquanto ela cantava Viagem, e brincando, insinuei que ela estaria puxando o saco do patrão. Ela se assustou, me pegou pelo braço e me fez sentar pra explicar. Eu falei que aquela música era do Paulinho, ora! Com os olhos cheios dágua, ela me disse não acreditar que alguém inventasse música e, menos ainda, que estivesse trabalhando na casa do criador daquela, que a acompanhava desde criança. Eram dois fenômenos: Glória achava que músicas não eram feitas, mas que apenas existiam como as cantigas de santo do candomblé. E não imaginava, absolutamente, que estava há quatro anos convivendo com o autor da sua maior lembrança! Claro que esse trabalho que apresento era inevitável. E vocês vão concordar!

Pois é, senhoras e senhores. A Glória Bomfim, como uma boa negra selvagem que não entende como o mundo moderno ocidental funciona, porque está presa à sua ancestralidade tradicional africana e sem qualquer capacidade de diálogo e observação do mundo à sua volta, simplesmente não sabia que pessoas compunham músicas!! Que coisa incrível, não é mesmo?

Agora, falando sério: mesmo que esse absurdo fosse verdade, tem necessidade de expor a Glória Bomfim como se fosse um índio numa jaula na Paris do século 19 16, falando de seus costumes bárbaros e capacidade intelectual inferior (restando-lhe a pujança emocional, e grande vigor físico e dotes culinários)?

E veja que é Luciana Rabello quem “apresenta” o trabalho de Glória Bomfim, sem dar qualquer crédito à cantora, estrela maior disso tudo. Mas justifica-se: Luciana, percebendo o “diamante bruto” que tinha em mãos, como citado no primeiro trecho, com toda a sua intelectualidade soube guiar aquele potencial desprovido de razão para o caminho das luzes, de modo a transformá-lo em algo factível e de verdadeiro valor artístico. É uma ourives de mão cheia esta senhora chamada Luciana Rabello! Ainda bem que Glória Bomfim teve a felicidade de encontrar uma patroa tão compreensiva, paciente e, sobretudo, com o mesmo bom coração dos senhores que decidiram, da noite para o dia, libertar os seus escravos num arroubo do mais puro sentimento cristão de misericórdia.

Não sei se hoje eu acordei de mau humor, mas isso pra mim é caso de polícia.

glória e luciana

White people por aí

Olha, vou te indicar um blog. Mas você tem que tomar cuidado, porque pode passar os próximos dias inteiros lendo ele e perder seu emprego, perder suas retinas – mas certamente não terá perdido seu tempo. É simplesmente sensacional. O blog se chama Stuff white people like. Sentiu o clima?

O interessante é que, apesar de tratar dos brancos americanos, por várias vezes você também vai identificar ali os brancos brasileiros (e de tudo quanto é canto do planeta). O blog sacaneia Moleskine, computador da Apple, suéter (suéter é genial!), produtos orgânicos, sushi, festivais de filmes (festivais de filmes, puta que o pariu!!!), yoga, enfim, um monte de coisas que eu mesmo gosto – porque uma bela fatia de minha alma é branca, sem medo de ser feliz -, e outras que eu sacaneio há tempos e, agora, acabo de descobrir que também acontecem na gringolândia.

Mas o melhor post sobre stuff white people like, pra mim, é esse. É exatamente assim que acontece por aqui. Depois que ler o texto, troque jazz e blues por samba, british bands por rapazes da bossa nova, hip hop por funk carioca – e, voilà, é Brasil, igualzinho, os mesmos processos, tudo. Eu já me vi bem nessa, e já há algum tempo, também, tenho tentado mudar isso. E até que venho conseguindo algum resultado (é, assim, um ou outro resultado…)

Infelizmente, só em inglês. Quem não souber inglês, lança o tradutor do Google nos textos que deve ser o suficiente, apesar dos errinhos que sempre aparecem.

E, tenho que dizer, cheguei a ele por um blog brasileiro, tão engraçado quanto, com uma proposta bem parecida: o Classe média way of life!

Acho que seria legal dividir as experiências de leitura dos dois blogs. Cada pessoa, de acordo com sua história, sua vivência, vai ter uma impressão diferente. No Classe média way of life, me reconheci algumas vezes (nessa coisa de ficar falando que não tenho dinheiro, por exemplo). No Stuff white people like, igualmente, mas com um número muito maior de coisas que eu ja sacaneava. E ri bem mais, confesso.

Ambos já estão na na lista de blogs favoritos, ao lado. Divirtam-se!


oquê, caboco!

quando chegar a um milhão, eu fecho o blog.

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