Jornal O Globo censura anúncio pago da campanha AFIRME-SE!

A campanha AFIRME-SE!, como divulguei aqui, estava tentando reunir uma grana, através de doações, para colocar anúncios pagos em quatro grandes jornais (entre eles, O Globo) defendendo a constitucionalidade das ações afirmativas, dias antes de um debate que ocorreu no STF sobre o mesmo assunto. A militância gritou muito, vi um monte de gente divulgando em Orkut, falando aos quatro ventos, mas abrir a carteira pra nos fortalecer, que é bom, nada. Não estou criticando pessoalmente quem não doou, mas sim o conjunto. Alguém que acredite nessa campanha pode não doar seu dinheiro por vários motivos, que vão desde a real falta de grana até a mais singela sequela. Acontece, é assim mesmo. A questão é que, se quase ninguém doou, certamente temos um problema. Não faz sentido?

Enfim, pelo que entendi, a campanha conseguiu uma grana com doadores institucionais, principalmente estrangeiros, e colocou os anúncios na Folha, Estado e A Tarde. Mas o detalhe é que o valor total ainda não foi pago, e eles têm 30 dias, pelo acordo que fizeram. Como AFIRME-SE ainda não tem todo o dinheiro necessário, mas ainda alguns dias, você ainda pode fazer a sua doação. Vai lá no blog deles e vê.

Mas, voltando, hoje abri meu e-mail, e dois amigos meus – o Pedrantonio, que vocês já conhecem; e o Rael, que maldou a situação toda e cantou a pedra – me enviaram a íntegra de uma Representação feita no Ministério Público contra o jornal O Globo, por conta do seguinte, olha isso, gente:

O Globo cobra, para anúncios, comunicados etc. um valor de pouco mais de cinquenta mil reais. Maravilha, tudo dentro dos padrões. Então, os organizadores da AFIRME-SE enviaram o anúncio para que a comissão editorial do periódico fizesse a análise do conteúdo da propaganda (o que é um direito legítimo deles). Mas aí, este dito jornal, que frequentemente – assim como outros veículos de imprensa das Organizações Globo – se autodenomina defensor e bastião da democracia, liberdade de expressão (chego a ouvir a voz de William Bonner, naquela entonação de canastrão profissional, falando aquelas palavras clichês, lançando conceitos que se tornam vagos e maleáveis quando estão nas mãos deles…), decidiu que aquele anúncio era “expressão de opinião”, e que, por isso, o valor mudaria para a bagatela de R$ 712.608,00.

VAMOS LÁ, GALERA, PAUSA PRA GENTE GARGALHAR:

AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
gargalhando
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

ai ai ai…

Nunca uma justificativa foi tão furada, e nunca uma “expressão de opinião” custou tão caro. Eu devo mesmo viver em outro mundo.

É claro que o anúncio não pôde ser publicado, e os organizadores da campanha AFIRME-SE! fizeram a tal Representação, mantendo a mesma postura que vem ditando o processo: tudo dentro das normas, indo à justiça, coisa de sociedade madura e realmente democrática. Quem não está sendo nada democrático é esse nosso jornal carioca metido a bossa-nova.

(Eu devo ser um profundo idiota. Sempre defendi que O Globo era um jornal tranquilo, relativamente ético, muito mais suave que, por exemplo, Folha ou Estado. De fato, ainda acho que seja, mas me surpreende eles fazerem isso, e Folha e Estado terem se comportado com o mínimo de compostura. Podem fazer uma pausa para gargalharem de mim, se quiserem. Eu mereço.)

Mas fiquei realmente impressionado com o que aconteceu. Não tanto por achar que o jornal não recusaria dinheiro (certamente O Globo não publicaria, por dinheiro nenhum no mundo, um manifesto afirmando que lugar de mulher é na cozinha, que lugar de preto é no tronco, ou que lugar de judeu é na câmara de gás). O anúncio da campanha AFIRME-SE tinha a força de ser uma ação dentro de parâmetros absolutamente normatizados, do mais alto nível de diálogo democrático, apelando ao nosso Supremo Tribunal Federal e tudo o mais. Não há qualquer justificativa para não ser aceito. Sem violência, gritaria (que, em determinadas situações, acabam sendo nossa única arma, e justificáveis, a meu ver), tudo no mais adequado espírito cidadão. Mas O Globo não aceitou. Isso é realmente bizarro. Dá pra entender o meu choque com isso tudo? Será possível que até em instâncias tão formais os caras apelam para esse tipo de atitude? Convenhamos, é cruel, é cerceador, é imoral.

Abaixo, então, o e-mail que recebi, seguido da íntegra da Representação. Vejam que tal:

————————–//————————–

O POVO CONTRA O GLOBO: Representação no Ministério Público diante da censura do jornal ao Manifesto

Numa articulação com ativistas sociais e intelectuais do Rio de Janeiro, a campanha Afirme-se! decidiu entrar com uma representação contra o jornal O Globo, do Rio de Janeiro. A ação, protocolada na tarde de segunda-feira, 8/3, no Ministério Público daquele Estado, foi preparada a partir de minuta do advogado Joao Fontoura Filho, que assiste na Bahia a coordenação nacional da campanha, que resolveu acionar a Justiça alegando que O Globo privou os seus leitores de ter acesso ao Manifesto publicado em outros jornais nacionais no dia 3 de março, no qual se afirma a constitucionalidade das políticas de ação afirmativa e das cotas. Ressalta a ação a contradição de um jornal que diz defender a liberdade de expressão e que critica qualquer iniciativa de a sociedade criticá-lo vir agora censurar a sociedade civil, ao impor um valor absurdo para que esta emitisse o seu ponto de vista sobre um debate que está na pauta jornalística este ano.
A direção de O Globo, após apresentar uma tabela negociada de publicação ao valor de R$ 54.163,20 (dentro dos padrões de mercado obtidos pela agência Propeg), depois de ter acesso ao conteúdo do Manifesto decidiu que somente publicaria pelo valor irracional de R$ 712.608,00 !
A coordenação da campanha buscou solucionar o impasse nas 48 horas que antecederam a abertura das audiências no STF, enviando ao setor comercial de O Globo no Rio e a um dos seus diretores uma série de mensagens, não respondidas.
A representação é assinada pelos professores Alexandre do Nascimento, Rodrigo Guerón e pelo advogado André Magalhães Barros e quer o pronunciamento da Justiça. Já está sendo articulado um abaixo-assinado para ser anexado à ação nos próximos dias.

EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR SUBPROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DE DIREITOS HUMANOS E FISCALIZAÇÃO

ALEXANDRE DO NASCIMENTO, brasileiro, solteiro, professor, IFP/RJ – 07726028-9 de 05/03/1991, residente na Rua Julio Berkowitz, S/N, lote 99A, Cabuis, Nilópolis-RJ, ANDRÉ MAGALHÃES BARROS, brasileiro, solteiro, advogado, OAB/RJ – 129773, com escritório na rua Senador Dantas n. 117, sala 610, Centro, Rio de Janeiro/RJ, e RODRIGO GUÉRON, brasileiro, solteiro, professor universitário, IFP/RJ 07157512-0, residente na Rua Marquês de São Vicente, 96, Bl `B`, apto 404, Gávea, Rio de Janeiro/RJ, vêm submeter à apreciação de Vossa Excelência a seguinte REPRESENTAÇÃO contra o JORNAL O GLOBO, pelos fatos e fundamentos seguintes:

Organizações não-governamentais e cidadãos em várias partes do país buscaram publicar, mediante compra de espaço de uma página inteira em jornais de grande circulação, um `Manifesto`, cujo objetivo central é divulgar a constitucionalidade das políticas de ação afirmativa, das quais as cotas são um importante mecanismo.

Para alcançar os seus objetivos, desde o início de janeiro de 2010, articularam uma campanha nacional – denominada `Afirme-se!` – visando sensibilizar os brasileiros e arrecadar fundos para o pagamento dos custos da publicação do referido `Manifesto` nos jornais.

Dessa campanha resultou, inclusive, a adesão de uma agência profissional de publicidade, a `Propeg`, com sede em Salvador, cuja equipe assumiu a criação das peças de campanha, bem como as negociações com as empresas jornalísticas visando a veiculação do material.

Foi assim que a `Propeg` passou a negociar preços e prazos de pagamento com os veículos, durante a última semana do mês de fevereiro. A pretensão foi veicular o `Manifesto` nos jornais `Folha de S. Paulo`, `O Estado de S. Paulo`, `Correio Braziliense` e `O Globo`. Justifica-se a escolha desses jornais por seu forte poder de mercado e a pretensão de atingir os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal e suas equipes, vez que pautaram o debate sobre as cotas naquela corte, para se iniciar a partir do dia 3 de março de 2010.

Em sua negociação com o setor comercial dos referidos jornais, no dia 23 de fevereiro, a `Propeg` recebeu e apresentou ao cliente a planilha de custos dos preços de inserção do `Manifesto`, negociados em nome de uma Organização Não-Governamental, o `Omi-Dùdú`, para a qual seria faturado o débito. Conforme pode ser visto em troca de correspondência entre as partes (Anexo I), o setor comercial de `O Globo` enviou proposta de mídia naquele dia 23 de fevereiro, na qual se estabelece o custo de uma página (colorida) naquele jornal um valor negociado de até R$ 67.704,00, valor este ainda sem o abatimento da comissão de agência. Conforme pode ser visto no plano de mídia inicial (Anexo III), tal valor caiu para R$ 54.163,20, depois de abatido o percentual da agência de publicidade.

Entretanto, no dia 26 de fevereiro, depois que a `Propeg` enviou o anúncio criado “para análise da equipe editorial do jornal”, obedecendo a uma exigência do veículo, aquele valor saltou para absurdos R$ 712.608,00. A alegação de `O Globo` para tal alteração foi expressa nos seguintes termos: “o anúncio foi analisado pela diretoria e ficou definido que será `Expressão de Opinião`, pois, o seu conteúdo levou a esta decisão.”

Informe-se que o valor inicialmente cobrado pelo `O Globo` está dentro da tabela média cobrada no mercado de publicidade em jornais. Seria, portanto, realista e competitivo, sem resultar em nenhuma concessão ou abatimento excepcional. Isto pode ser demonstrado pelos valores cobrados para veiculação do mesmo anúncio pelos jornais `Folha de S. Paulo` (R$ 38.160,00), `O Estado de S. Paulo` (R$ 37.607,23) e outro, que decidimos incluir, `A Tarde` (R$ 36.048,48). (Anexo II).

Deve ser dito que, dos jornais mencionados, a `Folha de S. Paulo`, `O Estado de S. Paulo` e `O Globo` competem, no mercado editorial, em distribuição, circulação e influência nacionais. Em termos de linha editorial, esses três veículos são, nitidamente, contrários às cotas e às políticas de ação afirmativa. No entanto, diferentemente de `O Globo`, todos os demais aceitaram publicar o `Manifesto`, custeado pela sociedade civil por um preço comercialmente realista.

O `Manifesto` tem o objetivo de informar a sociedade a respeito da constitucionalidade das cotas – tão atacadas nos editoriais, artigos e comentários difundidos, entre outros, pelo jornal `O Globo`. No intuito de publicá-lo, um dos responsáveis pela campanha `Afirme-se!` tentou, fazendo uso dos canais oferecidos na página eletrônica do jornal, negociar com o setor comercial de `O Globo`, durante os dias 1 e 2 de março, sem obter qualquer resposta.

Se o `Manifesto` não for publicado no jornal `O Globo`, grande parte dos leitores do Rio de Janeiro e outras cidades do Brasil será prejudicada no acesso a essa informação. De forma alguma, a publicação do manifesto visa provocar quem quer que seja.

Conforme pode ser conferido no respectivo site institucional do Supremo Tribunal Federal, o ministro Ricardo Lewandowski designou para de 3 a 5 de março de 2010 a realização de audiência pública, a fim de ouvir interessados nas duas argüições judiciais sobre políticas de ação afirmativa adotadas por universidades brasileiras que lá tramitam, das quais Lewandowski é o relator: “O debate em questão consubstancia-se na constitucionalidade do sistema de reserva de vagas, baseado em critérios raciais, como forma de ação afirmativa de inclusão no ensino superior”, informa o Edital de Convocação da Audiência assinado pelo ministro. No referido debate, estarão em discussão:

1. uma Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF/186), de autoria do Partido Democratas (DEM), contra a Universidade de Brasilia (UnB) e seus responsáveis, por essa universidade adotar o sistema de cotas em seu vestibular.

2. um Recurso Extraordinário (RE/597285), de autoria de Giovane Pasqualito Fialho, contra a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que também adota o sistema de cotas em seu vestibular. O autor questiona o fato de ter obtido nota que o habilitaria a uma vaga naquela universidade, mas que, por conta das cotas, teria sido ocupada por outro candidato aprovado.

A audiência pública convocada por Lewandowski configura-se como um dos momentos cruciais para o futuro das políticas de ação afirmativa. Dela, deverão participar trinta e uma pessoas selecionadas pelo STF, para se manifestarem pró ou contra a constitucionalidade das ações afirmativas. Este projeto visa minorar o desequilíbrio existente, ao oferecer maior suporte midiático aos que são a favor das cotas, considerando que, na mídia, há uma diferença gritante no espaço que vem sendo dado aos que são contra essa política de ação afirmativa.

No Brasil, a tardia adoção de tais políticas, que vêm sendo implementadas, timidamente, há menos de uma década, por algumas instituições públicas, e mesmo privadas, em especial no campo da educação superior, tem sofrido ataques poderosos de setores da grande mídia.

Há uma verdadeira campanha que objetiva duas coisas: 1) extinguir, vetar, destruir as poucas iniciativas institucionais de ação afirmativa já existentes; 2) impedir, bloquear, derrotar qualquer possibilidade de implantação ou criação de novos instrumentos legais e institucionais de ação afirmativa.

Na hipótese de a maioria dos ministros do STF acatar, integralmente, o que a ação do DEM contra a UnB e o RE contra a UFRGS demandam, as políticas de ação afirmativa, executadas hoje por cerca de 80 instituições de ensino superior, deixarão de existir, impedindo que milhares de estudantes indígenas e afrodescendentes realizem suas expectativas de ingresso e conclusão do ensino superior.

Estão sob ameaça de se tornarem inconstitucionais o `Estatuto da Igualdade Racial`, que por 15 anos tramita entre a Câmara dos Deputados e o Senado, e demais projetos de lei, como o 73/99 incorporado ao projeto de lei 3.627/2004, do governo federal. Poderá ser declarado ilegal tudo o que estabelece políticas públicas compensatórias para setores da sociedade historicamente discriminados e excluídos

A campanha `Afirme-se` foi publicamente lançada entre a última semana de fevereiro e a primeira semana de março de 2010. E seguirá, num segundo momento, assim que for definida a data de discussão e votação do tema em plenário do Supremo Tribunal Federal.

A ação midiática proposta busca sensibilizar a maioria dos 11 ministros do STF para a justeza e para a constitucionalidade das políticas de ação afirmativa já existentes, a favor de indígenas e afrodescendentes. Exemplos dessas políticas são: as cotas em universidades, a regularização de terras dos remanescentes dos quilombos, os programas especiais dos ministérios das Relações Exteriores e da Reforma Agrária, dentre outros.

No episódio em tela, além dos indícios de afronta ao Estado Democrático de Direito e aos fundamentos da República, diversos dispositivos constitucionais foram contrariados. Sendo comprovadas tais práticas e a finalidade de violar a Carta Política nos artigos abaixo elencados, os representantes esperam que medidas legais sejam tomadas pelo fiscal da lei:

“Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

…….

II – a cidadania;

III – a dignidade da pessoa humana;

IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;

V – o pluralismo político.

………

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

……

IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

……

IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

…..

XIV – é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional;

…..

CAPÍTULO V
DA COMUNICAÇÃO SOCIAL

Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

§ 1º – Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV.

§ 2º – É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

………

§ 5º – Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.

§ 6º – A publicação de veículo impresso de comunicação independe de licença de autoridade.

………“

No âmbito doutrinário, destacamos a concepção de Daniel Sarmento, em “A Vinculação dos Particulares aos Direitos Fundamentais no Direito Comparado e no Brasil”, segundo a qual, a Constituição indica, como primeiro objetivo fundamental da nossa República, “construir uma sociedade livre, justa e solidária” (art. 3º, I, CF), indicando que o modelo constitucional brasileiro se afastou da visão liberal de que o Estado é o único violador dos direitos fundamentais. A Constituição Federal de 1988 irradia, portanto, os seus princípios para todo o sistema jurídico, inclusive para as relações entre particulares, que devem estar vinculados aos Direitos Fundamentais garantidos constitucionalmente. Trata-se da denominada EFICÁCIA HORIZONTAL DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS, que recebeu acolhida no Supremo Tribunal Federal, na seguinte decisão:

STF, RE 201819 / RJ, Relator Min. ELLEN GRACIE, Relator p/ Acórdão Min. GILMAR MENDES, Julgamento: 11/10/2005, DJ 27-10-2006, Órgão Julgador: Segunda Turma

“As violações a direitos fundamentais não ocorrem somente no âmbito das relações entre o cidadão e o Estado, mas igualmente nas relações travadas entre pessoas físicas e jurídicas de direito privado. Assim, os direitos fundamentais assegurados pela Constituição vinculam diretamente não apenas os poderes públicos, estando direcionados também à proteção dos particulares em face dos poderes privados.

(…)

A autonomia privada, que encontra claras limitações de ordem jurídica, não pode ser exercida em detrimento ou com desrespeito aos direitos e garantias de terceiros, especialmente aqueles positivados em sede constitucional, pois a autonomia da vontade não confere aos particulares, no domínio de sua incidência e atuação, o poder de transgredir ou de ignorar as restrições postas e definidas pela própria Constituição, cuja eficácia e força normativa também se impõem, aos particulares, no âmbito de suas relações privadas, em tema de liberdades fundamentais.“

Pelo exposto, sendo apurados e comprovados, pelo Parquet, os fatos e os fortes indícios de práticas infrativas à liberdade de expressão e ao direito à informação, os representantes vêm requerer a Vossa Excelência que sejam tomadas as medidas legais.

Rio de Janeiro, 8 de março de 2010

ALEXANDRE NASCIMENTO
IFP/RJ – 07726028-9

ANDRÉ MAGALHÃES BARROS
OAB/RJ – 129773

RODRIGO GUÉRON
IFP/RJ 07157512-0

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4 Responses to “Jornal O Globo censura anúncio pago da campanha AFIRME-SE!”


  1. 1 Rafael Abreu 10/03/2010 às 11:57

    Cesar,

    Você tem que ventilar isso! Coloca lá no NPTO e aproveita que o debate tá pegando fogo!

    Estão discutindo lá a fala do DEMóstenes e o artigo peripatético do DEMétrio Magnoli na Folha (a brincadeirinha com o nome foi de um comentarista de lá). Impressionante como estão criando uma cortina de fumaça sobre a discussão.

    Como te falava há tempos, perdeu-se a possibilidade de se debater a sério a eficácia das cotas. Pessoas, a priori, sérias, que aceitam a obviedade de que há racismo no Brasil mas não acreditam que as cotas possam ser a solução adequada, se perdem no meio dos que negam o racismo ou afirmam que, se negros escravizavam negros na África, não se pode falar em reparação (cara, o argumento é tão torto, tão ilógico, que dá uma preguiça macunaímica).

    Com o estado da arte do debate, cada vez mais fui me convencendo da importância das cotas (entre outros, por você), nem que fosse estritamente por uma questão pedagógica, de escancarar os preconceitos. Aliás, o próprio debate já vem produzindo esse efeito. Ficar ao lado de Magnoli, Kamel e Reinaldinho é que não dava.

    Como não sou do movimento negro posso dar uma sugestão impopular: esqueçamos a escravidão, a questão é o racismo que existe HOJE. Sei da ligação entre racismo e escravidão e não quero ser mal interpretado, mas é sobre essa questão que estão erigindo a cortina de fumaça. Cotas seriam necessárias mesmo que vivêssemos na mais perfeita harmonia e, a partir da aparição de um ET do planeta Branus Suprematus, os negros passasem a sofrer preconceito de uma hora para a outra.

    Eu sempre tive a impressão que o Estadão é o mais conservador, e que a Folha é melhor que o Globo. Acho perigoso comprar a tese da imprensa golpista, porque há alguns jornalistas com orientações distintas da direção dos jornalões. O próprio NPTO elogia uma matéria da Folha que critica o Demóstenes e depois foi atacada pelo Magnoli. Mas vou te dizer, O Globo, que acompanho, entrou de sola numa cobertura anti-Dilma.

    Acho que estamos passando por um momento perigoso, uma reação para a qual alguns absurdos como “preconceito contra os brancos” e “heterofobia” começam a ser aceitos como argumentos razoáveis. Que canalhas levantem essa bandeira era esperado, mas deve-se lutar contra a “normalização” da aceitação dessas opiniões.

    Cara, me estendi aqui mas é que, porra, a gente não se fala tem tempo.
    Abração.

  2. 2 Lê do Mucungê 10/03/2010 às 22:54

    As organizações globo, como sempre, mostrando sua real face .. Em manipulação de informações eles são o supra-sumo da imprensa brasileira ..

    Roberto Marinho, vai pro inferno !!!
    pô, de 60 mil pra 800 mil ???
    que palhaçada !!!

  3. 3 André HP 31/03/2010 às 16:04

    imprensa corporativa de merda.

  4. 4 Priscilla Acioly 12/05/2010 às 14:25

    Quando eu tiver tempo, vou ler essa postagem.
    Ah, eu respondi você no post que fala sobre por que Exu não pode entrar nas escolas…


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