Archive for the 'literatura' Category

Minicurso em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa

BOAVENTURA CARDOSO: A ANGOLANIDADE EM PROCESSO

Ementa: Assim como outros autores de sua geração, Boaventura Cardoso tem seus textos marcados por um constante esforço de construção de formas possíveis da identidade angolana. Este processo não se encontra apenas na literatura de Angola: é um caminho comum por que passam as literaturas de países recentemente libertos do regime colonialista, mas que ainda precisam se libertar das relações subjetivas da colonialidade, nas quais a presença de valores euro-centrados ainda é muito forte. Através da leitura de Dizanga dia muenhu (contos, 1977); A morte do velho Kipacaça (contos, 1987); e Maio, mês de Maria (romance, 1997), três obras pontuais do escritor angolano Boaventura Cardoso, pretende-se demonstrar como o autor constrói seus enredos a partir de uma constante negociação de sentidos entre duas faces distintas da realidade e suas tradições – o animismo bantu e a racionalidade ocidental –, pelas quais tenta representar sua identidade angolana, com isso propondo um exercício de “desobediência epistêmica”.

Ministrante: Rafael Cesar (mestrando em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa / UFF)
Datas: 13, 18, 20, 25 e 27 de outubro de 2010, das 14h às 17h
Local: Faculdade de Letras da UFF (Campus Gragoatá) – bloco C, sala 403
Carga horária: 15 horas

Inscrições: kipacaca@gmail.com
Leitura prévia: Dizanga dia muenhu (disponível na pasta do minicurso na copiadora do bloco B)

Imagem: Mayembe (João Mabuaka); s/ título, escultura em madeira, 80x35x80 cm.

Chimamanda Adichie e os perigos de uma história única

parte 1

parte 2

Chimamanda Ngozi Adichie é uma premiada escritora nigeriana.

(A fala está disponível em texto na negroteca, na barra à direita.)

Oquê, caboco!

Hoje é teu dia!

"O caçador Oxô é popular"

Oxóssi mata o pássaro das feiticeiras

“Todos os anos, para comemorar a colheita dos inhames,
o rei de Ifé oferecia aos súditos uma grande festa.
Naquele ano, a cerimônia transcorria normalmente,
quando um pássaro de grandes asas pousou no telhado do palácio.
O pássaro era monstruoso e aterrador.
O povo, assustado, perguntava sobre sua origem.
A ave fora enviada pelas feiticeiras,
as Iá Mi Oxorongá, nossas mães feiticeiras,
ofendidas por não terem sido convidadas.
O pássaro ameaçava o desenrolar das comemorações,
o povo corria atemorizado.
E o rei chamou os melhores caçadores do reino para abater a grande ave.
De Idô, veio Oxotogum com suas vinte flechas.
De Morê, veio Oxotogi com suas quarenta flechas.
De Ilarê, veio Oxotadotá com suas cinquenta flechas.
Prometeram ao rei acabar com o perverso bicho,
ou perderiam suas próprias vidas.
Nada conseguiram, entretanto, os três odés.
Gastaram suas flechas e fracassaram.
Foram presos por ordem do rei.

Finalmente, de Irém, veio Oxotocanxoxô,
o caçador de uma só flecha.
Se fracassasse, seria executado
junto com os que o antecederam.

Temendo pela vida do filho,
a mãe do caçador foi ao babalaô
e ele recomendou à mãe desesperada
fazer um ebó que agradasse às feiticeiras.
A mãe de Oxotocanxoxô sacrificou então uma galinha.
Nesse momento, Oxotocanxoxô tomou o seu ofá, seu arco,
apontou atentamente e disparou sua única flecha.
E matou a terrível ave perniciosa.
O sacrifício havia sido aceito.
As Iá Mi Oxorongá estavam apaziguadas.
O caçador recebeu honrarias e metade das riquezas do reino.
Os caçadores presos foram libertados
e todos festejaram.
Todos cantaram em louvor a Oxotocanxoxô.
O caçador Oxô ficou muito popular.
Cantavam em sua honra, chamando-o de Oxóssi,
que na língua do lugar que dizer ‘O caçador Oxô é popular’.
Desde então Oxóssi é seu nome.”

(extraído de Mitologia dos orixás, de Reginaldo Prandi)

(Redandá – Zum Zum Zum)

Lançamento do primeiro romance de Nei Lopes!

Vai perder essa? Eu estarei lá!

Mandingas

O pedaço estrategicamente omitido de “Ngola Kiluanje” (conheça-o agora!)

Eu escrevi aqui um post, há pouco tempo, falando que considerava um absurdo essa atitude de jogar sobre os grupos que sofrem os mais diversos tipos de discriminação o ônus de eliminar as discriminações sofridas por outros grupos (no caso, usei o exemplo das pessoas que falavam mal das ações afirmativas pró-negros que não incluem os índios, depositando a culpa da exclusão dos índios no Brasil sobre os movimentos negros). Essa responsabilidade moral que inventam é algo impensável na minha cabeça, pois já estamos bem grandinhos para saber que não há santos querendo fazer um mundo perfeito, mas sim pessoas que estão lutando por suas visões políticas e seus espaços de poder. Não poderia ser mais legítimo.

É claro que, quando você assume um discurso anti-discriminação, pode reforçar politicamente a sua postura apoiando outros grupos discriminados. É legitimador, é bacana, faz muito sentido. É até um caminho natural, porque, ao pensar e expor as suas questões, você acaba se sensibilizando em relação à discriminação sofrida por outro. Mas daí a ter de se tornar um ser humano perfeito, e sem falhas éticas, defensor dos frascos e comprimidos 24 horas por dia, ou ter quaisquer obrigações nesse sentido, há um abismo.

O mais terrível é que quando impõem aos grupos discriminados essa responsabilidade de levantar todas as bandeiras do mundo (“se você é militante da questão racial, então tem que ser vegetariano e respeitar os animais”; coisas do tipo), automaticamente tiram do grupo beneficiário da discrminação a sua parcela de responsabilidade sobre a discriminação (os brancos não são necessariamente racistas, mas são necessariamente beneficiados pela discriminação contra negros).

Então, surgem frases do tipo:

No Brasil, os mais racistas são os negros.

Isso é um mito que inventaram e, ao que parece, pegou mesmo. Eu ouço isso a torto e a direito por aí quando surgem discussões sobre racismo. Essa assertiva canalha costuma surgir quando estamos discutindo a existência do racismo no Brasil. Não raro surge alguém dotado de muita má fé (mesmo que a pessoa não perceba, é má fé, sim) que lança essa frase como forma de se liberar da responsabilidade do racismo.

O caso é que, sem dúvida, existem muitos negros racistas. Até porque o problema não são as pessoas racistas, mas os racismos que atravessam a nossa cultura, e que portanto podem fazer algozes tanto brancos como negros. Mas, meu Deus do céu, o fato de haver negros racistas – ou, melhor dizendo, negros que reproduzem racismo – não pode, de maneira nenhuma, avalizar um branco a ser racista. Era só o que me faltava. Então eu, que sou homem, posso dar porrada em mulher porque há muitas mulheres por aí que acreditam que os homens têm direitos de violência sobre as mulheres. É isso?

Pelo contrário: acho sempre que se percebemos que as vítimas começam a reproduzir o ideário que as prejudica, é porque estamos num ponto bastante complicado da questão. Assim, quando vejo uma pessoa negra reproduzir estereótipos racistas que colocaram na sua cabeça, meu alarme dispara, porque sei que o racismo já foi longe demais. E que, portanto, é mais do que hora de todo mundo entrar nessa luta e perceber que não pode mais, de forma alguma, continuar com isso, sejam brancos ou sejam negros. Isso é sinal de que a luta tem que se intensificar, todos têm que entrar nela com mais força, e não pular fora convenientemente. Até porque, um dia, essa bomba explode – e vai sobrar pra todo mundo.

Remeto agora a outro post, em que citei um trecho do conto “Ngola Kiluanje”, do angolano João Melo. Caso não se lembrem, é aquele em que as relações raciais de Angola são discutidas a partir do envolvimento de um homem angolano branco com uma mulher negra militante carioca (a narração é do homem):

Mas quando lhe revelei, dias depois, a conversa que tinha tido com o meu pai, ela contou-me que, tempos atrás, conhecera um escritor angolano branco que tinha vindo ao Rio participar num simpósio sobre literatura africana em língua portuguesa e que, quando questionado por um militante do Movimento Negro sobre o facto de Angola ter enviado um branco para essa reunião, teve uma resposta de que ela jamais se esqueceu:

– Meus senhores, se pensam que vou pedir desculpas por ser branco, estão muito enganados!… (Filhos da pátria, p. 114.)

Lembrou? Muito bem. À altura daquele post, acabei usando esse trecho apenas como introdução para levantar alguns pontos que eu considerava esquisitos sobre as relações raciais por detrás da produção literária nos países africanos lusófonos. E tive que deixar de fora, para uma oportunidade breve (que chegou!), a continuação desse mesmo trecho – que, para mim, é revelador da mentalidade que estou denunciando e criticando agora. Veja só:

Sentindo-se instigada por essa resposta, a Jussara aproimou-se do referido escritor e teve com ele longos papos, sobre Angola, o Brasil, as contradições raciais existentes em ambos os países e no mundo em geral, os preconceitos, os estereótipos e, principalmente, sobre esse profundo e terrível paradoxo, próprio do ser humano, que faz com que antigos humilhados seja, assim que o podem, irremediavelmente tentados a humilhar todos aqueles que identificam, acertadamente ou não, como os seus velhos opressores. “Todas as generalizações são fascistas”, dizia ele. Sonhava esse escritor que os oprimidos (todos eles, os negros, os pobres, as mulheres…) seriam capazes, um dia, de criar realmente um novo projecto civilizacional, de plena igualdade e liberdade, e não apenas de mudar a cor ou o sinal da opressão. Teorizava ele: — “A verdade é que, agora, os oprimidos apenas têm macaqueado os opressores! Por exemplo, nós, africanos, estamos muito revoltados e inquietos por causa das tendências xenófobas que se registam agora na Europa, mas o que acontece é que repetimos essas mesmas tendências nos nossos próprios países, pois somos incapazes de propor ao mundo uma nova civilização, mais huamana…”

A Jussara já não precisava de me dizer mais nada. Eu entendi tudo, até mesmo o que estava expresso no chamado infratexto. (Filhos da pátria, p. 115)

Vamos combinar que a África já tem problemas suficientes para resolver internamente, e os africanos não os criaram sozinhos (embora paguem sozinhos por ele). Mas, ainda por cima, agora têm que propor um novo modelo de mundo? Sinceramente, acho um pouco demais.

A escolha das palavras também se mostra de uma fragilidade ética enorme, a meu ver. Quando o narrador diz que os africanos são incapazes de propor um novo mundo, está colocando nas entrelinhas, também, que “já que a África não propõe um mundo lindo e perfeito, então tudo bem detonar os africanos; eles fariam o mesmo conosco se nos tivessem colonizado, então é mais que merecido”. Exatamento o que faz o indivíduo que explora a ideia estapafúrdia de que o negro é o mais racista. O ideário é o mesmo, e se manifesta em várias escalas e situações possíveis.

(Por último, eu preferiria acreditar que esse “infratexto” de que ele fala ao fim seria a crítica nas entrelinhas, justamente essa que estou fazendo. Confesso que não entendi o que é o infratexto nessa passagem, mas não acredito que seja a crítica, porque não me passa nada de irônico – a única coisa que poderia me levar à ideia de que ele faz uma crítica, e não vejo isso.)

Sem desenhos desta vez. Você entendeu o que eu escrevi, estou certo disso, e não vai mais repetir essa frase feia.

E vou dormir, que está tarde, e amanhã tenho mais racismos para combater – os meus, os seus, os nossos.

O debate racial nas literaturas africanas de língua portuguesa (parte 2)

O tema a que ora chamo atenção não é visto a partir dos enredos e representações nas literaturas em questão, mas sim pela parte de trás dos panos: seus autores, “condições de produção” etc. Em algum momento, espero, vou tratar a questão mais literariamente – só que, aí, se eu fizer uma coisa legal, o texto deve ir para alguma revista acadêmica, e não pro blog. Esperemos, até porque, por agora, imagino que o assunto já esteja saturando os meus três leitores.

Na verdade, é até difícil debater a questão racial nessas literaturas porque ocorre bem menos do que, me parece, deveria. Ela aparece, é verdade, como já falei, e não é raro – só é menos frequente do que, creio, seria se houvesse mais autores pretos levantando suas questões. E é justamente a ausência do debate que está me motivando a levantar o tema. O vazio também é indicador de algo.

É preciso considerar também, sempre (coisa que não fiz na primeira parte), as especificidades de cada país. É completamente diferente falar de racismo em Angola, onde quase todo mundo é preto, e Cabo Verde, onde a população é bem mulata. Certamente há questões raciais em Cabo Verde, mas os paradigmas devem ser diferentes. O mesmo posso dizer de Moçambique, em que a presença árabe e indiana é muito forte (e, pelo menos a árabe, bem anterior à europeia), o que também muda bastante coisa. Até por isso tudo, acabei falando um pouco mais de Angola, embora o título dos posts remeta à literaturas africanas de língua portuguesa como um todo. E nem mencionei São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, cujos contextos são quase totalmente desconhecidos por mim (e cujas literaturas conheço bem pouco, também).

Mas, então, vamos completar o raciocínio iniciado na parte 1 dessa gororoba.

Já indiquei aqueles autores angolanos que considero serem os mais conhecidos e importantes (não necessariamente os melhores, é preciso que fique clara essa diferença; sem bem que já está clara demais, tem é que escurecer) e, como vimos, dos 9, apenas 2 são pretos. Sabemos, evidentemente, que a prerrogativa da literatura é sempre de uma elite cultural e que, portanto, não se pode achar que é representativa do pensamento do “povo”, ou, no caso africano, da tal “África profunda”, essas coisas. Não tenho essa preocupação, posto que seria infantil iniciar essa discussão aqui. Pópilas, mas é que parece-me especialmente contraditório que os caminhos da literatura de um país africano sejam ditados majoritariamente por autores brancos e mulatos (e nenhuma mulher, como já indiquei, também). Num contexto de busca e afirmação de identidades, tão necessário e quase inevitável a países que, como tantos, lutam pela libertação simbólica do processo de colonização, é algo que gera uma situação complicada, a meu ver.

A contexto todo torna-se ainda mais complexo ao se estender para além do público leitor africano. As universidades mundo afora – e, aqui, falo a partir de Brasil, obviamente, que tem os melhores programas de literaturas africanas lusófonas, provavelmente -, ao não verem isto como um problema, acabam alimentando e legitimando – talvez o problema maior esteja aí – o fato dado como algo natural. Fiz recentemente um curso muito bom que, de saída, já tinha algo especial que era trabalhar o amor, erotismo e outros sentimentos nas literaturas de Angola e Moçambique, abordagem bem incomum para literaturas africanas (normalmente fica naquela tecla, que eu mesmo toquei aqui, de identidade, guerra, afirmação, o que às vezes limita a humanidade dos africanos e suas literaturas). Dos autores que estudamos, entretanto, não havia UM preto. A crítica era toda branca-europeia, branca-norte-americana e branca-sul-americana, e os escritores eram Pepetela, Mia Couto, Ondjaki, João Paulo Borges Coelho, Agualusa. No meio do curso surgiram outros, mas manteve-se em zero o número de autores pretos.

Não estou fazendo uma crítica à escolha dos autores em si, já que estes contemplavam a bela ementa proposta pela professora. Mas, vou repetir pela última vez (era só para dar um exemplo do ambiente aadêmico), estamos falando de África sem ler africanos, grosso modo. É claro que todos esses autores são, sim, africanos – mas nenhum carrega consigo, como um africano preto carrega, a experiência de ser enquadrado, indubitavelmente, como africano, e conhecer todas as consequências positivas e negativas deste fato. Digamos que estes são homens do mundo que falam a partir de África?

O Mia Couto, por exemplo, já disse numa entrevista que sofre discriminação por, costumeiramente, não ser considerado africano dentro do país em que nasceu, pelo qual luta e o qual ama. Isso é ruim, evidentemente, mas é preciso sempre contextualizar o motivo de tal discriminação. Será que haveria essa resistência a um escritor tão incrível como ele se houvesse um número maior de autores pretos? Creio que não ocorreria da mesma forma, porque não seria necessária uma posição agressiva por parte dos pretos em busca de sua afirmação. Mas, se o maior autor moçambicano é branco, isto evidentemente vai trazer conflitos num país em que quase não há brancos em comparação ao número de pretos.

No meu ponto de contato com o tema, que é a literatura, acho que este deveria ser um assunto central nas discussões em âmbito acadêmico, jornalístico, especialmente se consideramos que tais autores estão projetando a imagem e a identidade de seus países num contexto de reconstrução e inserção no mundo globalizado. Que imagem estarão estes autores passando? Ou, mais importante que isso: não estará essa construção por demais restrita? A minha sensação, quando sinto resistência ao tema, é a mesma que senti tantas vezes, em meio ao processo de reconhecimento de minha identidade racial (politicamente falando, não geneticamente, é óbvio) e das discriminações que eu testemunhava: será que eu estou ficando louco?

Quem já passou por isso sabe como é angustiante. Porque as pessoas negam, dizem que você está colocando chifre em cabeça de cavalo, que você está vendo coisa onde não tem (e você está vendo por todos os lados).

Pra você, colega que me lê e já passou por isso, eu tenho a resposta: não, você não está louco(a). Mas tome muito cuidado, porque podem acabar te deixando assim. É mais comum do que você imagina.

Mia Couto sofreu discrminação, como declarou. Uma professora minha já testemunhou também contra João Paulo Borges Coelho, e me disse: “os negros estão reproduzindo, em sentido inverso, o mesmo que já sofreram”. Ela, como sempre magistral, levantou também a partir disso a ideia de que devemos começar a pensar, inversamente a Fanon, em “peles brancas e máscaras negras”, dado o fenômeno de tantos autores não-pretos. Mas vamos então, a partir desses fatos, concluir essa reflexão fundamental (a reflexão, não, o post; porque a reflexão continua, ou começa, assim espero).

a) Realmente, qualquer tipo de discrminação é absurda. É absurdo pensar que tais autores, apenas por serem brancos ou mulatos, sejam discrminados;

b) Para a própria África, discrminá-los é algo ruim. Cria a ideia de que África só pode ser negra, e exclui a possibilidade de uma característica importante para qualquer país desejoso de inserir-se no mundo moderno: a cosmopolitização de suas cidades, suas culturas, pessoas. Excluir autores brancos é perder em diversidade e, consequentemente, em qualidade;

c) Pensando na produção literária em si, acreditar que brancos não podem fazer texto africanos é o mesmo que considerar africanos somente os textos herdeiros de missossos e outras formas de oratura tradicional, provérbios, jogos e demais signos culturais localizadamente africanos. Isso é um reducionismo, uma prisão. Sem liberdade, jamais podem os textos tornarem-se universais, por mais que saibamos que o conceito de “universalidade”, no caso de arte, é normalmente o de diálogo direto com as tradições ocidentais, o que significa uma por vezes violenta adequação ao seu sistema semiológico.

Pelos itens acima, eu poderia considerar puramente um absurdo essa resistência aos autore brancos e mulatos. Entretanto, por todas as contradições do fato que já expus nesses dois longos posts, não posso me satisfazer parando em c), e, por isso,

d) Se os discriminados autores brancos e mulatos são tão avessos à discriminação, e vêem nela tanto prejuízo, por que não desconfiam também do prejuízo que têm a literatura quando percebem que quase não há autores pretos no mainstream literário de seus países?;

e) Será que, reconhecendo um processo de discriminação silenciada contra os pretos em seu campo de atuação, são eles capazes de levantar a bandeira dos autores pretos africanos em suas falas nos encontros, nos artigos de jornal, ou mesmo em seus livros?;

f) Será que os países europeus, tão cosmopolitas, são capazes de chamar de literatura nacional, com vigor e socos no peito, os textos de autores europeus cuja fenotipia não coincide com o caucasiano? Há essa relação de igualdade?

Não temos aí, portanto, um grave desequilíbrio?

Ou serei eu apenas um brasileirinho metido, que nada conhece de África, querendo gerar ódio racial onde nem discriminação há?

A parte 3, deixo com vocês.

Antes da parte 2…

Uma atualização referente à parte 1 de “O debate racial nas literaturas africanas de língua portuguesa”:

Apesar de eu ter dito que não precisava falar mais nada depois de mencionar a escravidão, na verdade tem, sim. As literaturas africanas no mundo lusófono começam a aparecer, normalmente, lá pela segunda metade do século 19. Neste tempo, a escravidão, se já não tinha acabado, estava bem próxima ao fim. E, além disso, nem todos os pretos angolanos foram escravizados, como se sabe. Mas, ainda assim, deixo a referência lá à escravidão porque ela foi a maior realização de todo o ideário que “privilegiava” os brancos e mulatos em detrimento dos pretos. É por isso que, mesmo quando falamos de um literatura que surge com a escravidão já com os dias contados, o estigma que ficou na população preta foi enorme – prova disso é, por exemplo, a dificuldade de inserção dos mesmos no sistema educacional, de permiti-los se expressar, de dar voz aos mesmos etc. (o trauma, esse lado psicossocial da colonização/escravidão é uma das dificuldades; não a única, claro).

Entendeu? Ou quer que o Debret desenhe?

debret


oquê, caboco!

quando chegar a um milhão, eu fecho o blog.

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