Arquivo para janeiro \24\UTC 2010

Por que Jesus pode entrar na escola e Exu não pode?

Um ponto fundamental para se entender os mecanismos e possibilidades do racismo é saber que ele não se restringe à cor da pele, mas busca punir todo um campo semântico, uma gama de signos e símbolos ligados ao universo negro. Já comentei sobre isso falando do samba, em dois posts antigos (aqui e aqui), e também em outro, mais recente, em que eu propunha a convivência com o universo simbólico negro, além da sua valorização, como um mecanismo para combater o racismo. Poderíamos falar sobre aspectos linguísticos, sobre identidade corporal, vestuário, culinária, praticamente tudo. Recebi por e-mail, recentemente, um artigo que mostra esse fenômeno relacionado às religiões afro, com enfoque na educação. Inquices, orixás, voduns e entidades afins sofrem perseguição desde que começaram a se manifestar frente à fé cristã, em África ou nas Américas. Já foi o governo, oficialmente; já foi a igreja católica; e hoje muitos evangélicos militam contra toda religião afro-originada. E não são poucos os espíritas (da tal linha branca, de mesa) que torcem o nariz para entidades como pretos-velhos e caboclos. O texto que divulgo abaixo mostra muito bem que essa perseguição tem, de fato, a ver com o racismo.

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Por que Jesus pode entrar na escola e Exu não pode?

Stela Guedes Caputo

No dia 27 de outubro de 2009, um jornal carioca destacou o caso da professora Maria Cristina Marques proibida de dar aulas em uma escola municipal, no Rio, porque utilizava o livro “Lendas de Exu”. A professora é umbandista e a diretora dessa escola é evangélica. Maria Cristina relatou diversas humilhações, desde ser acusada por mães de alunos de fazer “apologia ao Diabo” à colocação de um provérbio bíblico na sala dos professores chamando-a de mentirosa. Ao lerem a notícia deste caso, certamente muitos sentiram na pele as humilhações sofridas por Maria Cristina. Isso porque é muito comum que professores e professoras, alunos e alunas praticantes de candomblé ou umbanda sejam discriminados nas escolas.

A questão é complexa e podemos fazer muitas perguntas a respeito, mas farei aqui apenas uma: por que Jesus pode entrar na escola e Exu não pode? Por que um Jesus louro, coberto por uma túnica branca, pode estar em um dos livros da coleção para o Ensino Religioso católico, destinada à rede pública e lançada em 2007 pela Cúria Diocesana? A resposta que tenho não agrada. Exu não entra na escola porque este país é racista e, por isso, o racismo está presente na escola. Também acredito que atravessamos uma fase de avanço significativo dos setores conservadores na educação pública. A manutenção da oferta do ensino religioso na Constituição de 88, a aprovação deste como confessional no Rio, o lançamento dos livros didáticos católicos em 2007, a Concordata Brasil-Vaticano aprovada pelo Senado em outubro deste ano. Tudo parece fragmentado, mas não é. Trata-se de vitórias lentas e sigilosas que ampliam, reforçam e legitimam as circunstâncias necessárias para que a discriminação sofrida por Maria Cristina continue sendo uma prática bastante comum em nossas escolas públicas.

A Mãe-de-santo e escritora Beata de Yemanjá, acredita que a discriminação de sua religião acontece porque “pensam que o Brasil é uma coisa só. Por isso nos discriminam e a nossas religiões. Isso é racismo”, diz ela. O pesquisador Antônio Sérgio Guimarães concorda e defende em diversos livros que qualquer estudo sobre racismo em nosso país deve começar por notar que, aqui, o racismo foi, até recentemente, um tabu e que os brasileiros se imaginam numa democracia racial, fonte de orgulho nacional que serve como prova de nosso status de povo civilizado. Para este autor, essa pretensão a um anti-racismo institucional e as regras de pertença nacional suprimiram referências a sentimentos étnicos, raciais e comunitários, contribuindo para a nação brasileira imaginada numa conformidade cultural em termos de religião, raça, etnicidade e língua. É por isso que este autor, entre outros, acha que o racismo brasileiro é do tipo heterofóbico, ou seja, um racismo que é a negação absoluta das diferenças, que pressupõe uma avaliação negativa de toda diferença, implicando um ideal (explícito ou não) de homogeneidade (ou uma coisa só, como diz Beata).

Quando a diretora de uma escola proíbe um livro de lendas africanas ela quer apagar a diversidade presente na sociedade e na escola, quer silenciar culturas não hegemônicas, como as afro-descendentes. Mas como, se a professora discriminada é branca? A professora é branca, mas Exu é negro. Um poderoso e imenso orixá negro. É o orixá mais próximo dos seres humanos porque representa a vontade, o desejo, a sexualidade, a dúvida. Por que esses sentimentos não são bem-vindos na escola? Por que a igreja católica tratou de associá-lo ao mal e ao Diabo (ao seu Diabo) e muitas escolas incorporam essa lógica conservadora, moralista, hipócrita e racista. Exu, no livro proibido, afirma que este país tem negros com diferentes culturas que se entendidas como modos de vida, podem incluir diferentes modos de ver, crer, sentir, entender e explicar a vida. Isso não pode, porque na escola só entra o Jesus lourinho dos livros didáticos católicos (esses são bem-vindos). Positivo foi que muitos professores e professoras se manifestaram contra o ocorrido. Além disso, a Secretaria Municipal de Macaé publicou nota criticando a discriminação e apoiando a professora, o que evidencia, da mesma forma, que a escola não é “uma coisa só”. Por isso, é nas suas tensões cotidianas que devemos fazer, também cotidianamente, a luta contra o racismo de todo tipo, inclusive este, disfarçado de intolerância religiosa.

Para encerrar podemos fazer novas perguntas: a professora silenciada lecionava literatura. Digamos que ensinasse História da África, como ensinar essa disciplina tornada obrigatória? Amputando suas culturas, entre elas, o candomblé e seu riquíssimo panteão de orixás? Alguém questiona quando a disciplina de História fala do catolicismo? Da reforma protestante? Esses conteúdos fazem parte do ensino regular de História (por isso, entre outras coisas, o Ensino Religioso não é necessário). As culturas com suas religiões também fazem parte do ensino de História da África. Como é que vai ser? Pais e professores arrancarão as páginas desses livros? Ou eles já serão confeccionados mutilados pelo racismo? Respondo com a saudação ao orixá excluído da escola (só podia ser ele a armar tudo isso): Laro oyê Exu! Para que ele traga mais confusão e com ela, o movimento, a comunicação e a transformação onde reina.

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Presente que recebi: um post pronto saído da boca de um colega

Agora, vejam vocês. E antes já digo que meu amigo Pedro Antonio, que aparece de vez em quando por aqui, é testemunha ocular e auricular, se é que essa última modalidade existe.

Alguns dias atrás, estávamos eu e Antonio no pagode do Dão, ao lado da minha casa, batendo um papo e algumas palmas, quando chegou perto um dos amigos da rua. Apresentou a namorada, nos cumprimentou, e aí cumpádi, tranquilo?, aquelas coisas. Juntou-se, muito bem-vindo como sempre, ao papo que estávamos tendo. Vai e vem, entra a história de racismo na conversa. E então o rapagão, do alto de seus 28 ou 29 anos de idade e com o curso de Direito quase completo pela Universo, fala:

Essa parada de racismo é ridícula, né bróder? No Brasil, todo mundo tem algum antepassado negro, mesmo sendo branco como eu. Ser racista no nosso país é ter preconceito contra você mesmo!

Eu, que já conhecia a peça, não achava aquele discurso nem um pouco condizente com algumas falas e ações do enunciante. Mas deixei o candango falar, porque sabia que em breve uma pérola ia vir. E veio a primeira, quando então o papo misturou racismo e mulher.

Bróder, tipo assim, eu não sou racista, tá ligado? Tanto que tô aqui conversando contigo, né, velho? Normal, tudo bem. Eu até já peguei umas meminas assim, pô. [nota do blogueiro: o cara era incapaz de falar “preta”, “negra”, “mulata”, nem mesmo a eufemística “morena”; ele se repetia, e não conseguia.] Mas tipo assim, bróder, eu tenho certeza que eu jamais me casaria com uma mulher negra, e nem nunca teria um filho mulato, tá ligado? Mas eu não sou racista, velho!

E eu:

A-lá, a-lá, Antonio, viu??? Ahahahahaha! Viu, viu??

Meu amigo Pedro Antonio, a essa altura, já fumava uns três cigarros ao mesmo tempo, enquanto afiava as unhas para abrir um buraco na terra e só parar quando chegasse ao Japão. E eu, apesar do incômodo, ria, porque tinha certeza que ia sair uma dessas.

Percebendo o ridículo da situação, o enunciante resolve se justificar, já que afirmava não ser racista (não, imagina!). E nessas horas, é claro, se o cara insiste em consertar, normalmente só piora tudo. Não deu outra:

Velho, vou te dar um exemplo de que não sou racista. Quando eu era moleque, eu tinha uma empregada…

Eu já gargalhava, e cochichava para Antonio, que por sua vez já entendia o absurdo da cena e até começava a relaxar:

Casagrandeesenzalacasagrandeesenzalacasagrandeesenzala

Que que você falou aí, bróder?

Nada não, parceiro, continua aí pra eu entender o seu ponto de vista.

Então, bróder, essa empregada era negra, tá ligado? Aí, um dia, ela teve que ir embora. Velho, no dia que ela foi, bróder, eu chorei muito, mas muito mesmo. Ela era tudo pra mim, eu chorava sem parar, porque eu gostava muito dela. E ela era negra, tá ligado? Eu não sou racista!

Num espaço de tempo de menos de um minuto, talvez, o meu colega da rua conseguiu lançar os melhores clichês que confirmam as áreas moles e as áreas duras das relações raciais no nosso país, e mostrando também como elas servem para a escamoteação e manutenção do racismo. Nas área moles identificadas por Marcelo Paixão no artigo “O justo combate: reflexões sobre relações raciais e desenvolvimento”, tudo rolava bem: primeiro, no bar (espaço que eu havia mencionado no post como uma área mole clássica para os homens), em que ele me usou até como exemplo de interação interracial; e depois com a empregada dele (que ocorre em casa, mas numa relação de subserviência, e que é a mais profunda expressão das saudades da escravidão a que Muniz Sodré se referiu, e cujo ponto de vista defendi ao analisar o embate dele com Demétrio Magnoli). Nas áreas duras, igualmente identificadas por Marcelo Paixão, no entanto, o tal contato não era possível: “eu tenho certeza que eu jamais me casaria com uma mulher negra, e nem nunca teria um filho mulato”, disse ele, na minha cara.

Por último, há duas coisas que me deixam pasmo nessa história toda. Ora, eu ouço esse tipo de coisa com muita frequência, muita mesmo. Já ouvi isso de alunos meus muitas vezes (dando aulas há apenas 2 anos); já ouvi isso de conhecidos mais velhos e da minha geração algumas vezes; leio isso com muita facilidade em discussões nos fóruns de blogs ou jornais, quando há qualquer texto relativo a casos de racismo, cotas etc. E é muito claro para mim que, mesmo muitas pessoas que não falam essas coisas – porque, em função dos espaços em que vivem, às vezes têm uma noção muito maior do politicamente correto, e portanto não enunciam esse tipo de coisa, muito menos na frente de um negro -, pensam dessa forma, o que fica claro pelas escolhas que fazem, pelos olhares que lançam, e por frases que tangenciam valores como o exposto pelo meu colega. Mas, voltando, duas coisas que me espantam:

Primeiro, o nível de esquizofrenia a que chega a nossa cultura. Porque, curiosamente, todas as pessoas que compartilham sentimentos do gênero, logo em seguida se apressam a dizer que não são racistas, e até mesmo que no Brasil não tem racismo, ou que é só uma coisa aqui e outra ali. Isso pra mim é tão doente como o cara que diz

Mermão, não tenho nada contra viado, só não quero eles perto de mim.

Em segundo lugar: acho que muitos desses acadêmicos, intelecutais e gente que escreve (ou melhor: que tem o poder de publicar), como os já e sempre citados Magnoli, Kamel, Fry, Maggie estão precisando seriamente fazer pesquisa de campo. Porque, meu Deus, como é possível eu já ter ouvido tanto isso por aí e eles nunca terem ouvido? Das duas uma:

a) ou nunca ouviram isso porque não saem, mas não saem mesmo, dos espaços acadêmicos e das turminhas intelectualizadas (na universidade, especialmente as de prestígio e de cursos de humanas, ninguém vai falar uma merda dessas, por mais que Cristo em pessoa lhe permita, ou que lhe nasça uma úlcera pela repressão de tal sentimento), o que é um indicativo de profunda falha metodológica nas análises que fazem sobre a questão; ou então

b) esse povo ouve (duvido que essa galera, ainda mais que é de outra geração, nunca tenha ouvido seus pais e parentes falarem absurdos do gênero em suas próprias casa, duvido), sabe qual é a da parada, mas entra numa de desonestidade intelectual, e também de desonestidade consigo próprio, pra fazer política baixa e dizer que isso não é uma questão e ponto.

O que leva alguém a fazer isso? Eu tenho meus preconceitos enrustidos. Tenho amigos gays, mas volta e meia falo mal de gay, especialmente naquele esquema de grosseria, com intenção de ofender – porra, fulano é mó bichona! Mas não é por ter preconceito e querer fingir que não tenho (ou, pior, que as pessoas à minha volta não têm) que vou entrar numa cruzada política/intelectual apenas para me sentir confortável com meu próprio sentimento, ou tentar apagar a questão do mapa. Será mesmo possível que essa galera acredita no que defende? Acho tão estranho.

Oquê, caboco!

Hoje é teu dia!

"O caçador Oxô é popular"

Oxóssi mata o pássaro das feiticeiras

“Todos os anos, para comemorar a colheita dos inhames,
o rei de Ifé oferecia aos súditos uma grande festa.
Naquele ano, a cerimônia transcorria normalmente,
quando um pássaro de grandes asas pousou no telhado do palácio.
O pássaro era monstruoso e aterrador.
O povo, assustado, perguntava sobre sua origem.
A ave fora enviada pelas feiticeiras,
as Iá Mi Oxorongá, nossas mães feiticeiras,
ofendidas por não terem sido convidadas.
O pássaro ameaçava o desenrolar das comemorações,
o povo corria atemorizado.
E o rei chamou os melhores caçadores do reino para abater a grande ave.
De Idô, veio Oxotogum com suas vinte flechas.
De Morê, veio Oxotogi com suas quarenta flechas.
De Ilarê, veio Oxotadotá com suas cinquenta flechas.
Prometeram ao rei acabar com o perverso bicho,
ou perderiam suas próprias vidas.
Nada conseguiram, entretanto, os três odés.
Gastaram suas flechas e fracassaram.
Foram presos por ordem do rei.

Finalmente, de Irém, veio Oxotocanxoxô,
o caçador de uma só flecha.
Se fracassasse, seria executado
junto com os que o antecederam.

Temendo pela vida do filho,
a mãe do caçador foi ao babalaô
e ele recomendou à mãe desesperada
fazer um ebó que agradasse às feiticeiras.
A mãe de Oxotocanxoxô sacrificou então uma galinha.
Nesse momento, Oxotocanxoxô tomou o seu ofá, seu arco,
apontou atentamente e disparou sua única flecha.
E matou a terrível ave perniciosa.
O sacrifício havia sido aceito.
As Iá Mi Oxorongá estavam apaziguadas.
O caçador recebeu honrarias e metade das riquezas do reino.
Os caçadores presos foram libertados
e todos festejaram.
Todos cantaram em louvor a Oxotocanxoxô.
O caçador Oxô ficou muito popular.
Cantavam em sua honra, chamando-o de Oxóssi,
que na língua do lugar que dizer ‘O caçador Oxô é popular’.
Desde então Oxóssi é seu nome.”

(extraído de Mitologia dos orixás, de Reginaldo Prandi)

(Redandá – Zum Zum Zum)

Breve reflexão sobre o muro pichado com uma suástica na Uerj

Deu n’O Globo:

Teatro da Uerj amanhece pichado com inscrições racistas.

RIO – Os muros do Teatro Odylo Costa Filho, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), apareceram pichados com exortações racistas e símbolos nazistas na manhã desta segunda-feira. A Uerj foi a primeira universidade pública do país a adotar o sistema de cotas, em 2003. A universidade informou que está investigando para descobrir a autoria das pichações, que devem ser apagadas em, no máximo, dois dias.

Em dezembro de 2008, uma briga entre estudantes negros e brancos na saída de uma festa da universidade se transformou numa discussão sobre racismo, e acabou em denúncias de injúria racial e agressão. Um aluno branco do curso de Filosofia acusa integrantes do grupo Denegrir, que defende a política de cotas, de agredí-lo fisicamente e ofender dois amigos seus. Já os estudantes que fazem parte do Denegrir afirmam que os três rapazes brancos gritaram expressões racistas como “poder ariano”, “somos brancos e por isso somos superiores”.

Fora pretos

O racismo confortável se desconforta: eis os racistinhas colocando suas manguinhas de fora.

Então, vamos lá. Dias desses eu escrevi um post que defendia que a convivência entre negros e brancos era a melhor forma de combater o racismo, porque então a presença do negro seria vista como algo natural ao longo do tempo. Eis a primeira questão. Vendo a notícia acima, podemos pensar que a minha teoria está completamente equivocada, já que a convivência entre brancos e negros na Uerj está começando a dar sinais de tensão. Até dezembro do ano passado, me parece, ainda não tínhamos visto nenhum episódio de violência física. Mas aí aconteceu. Agora, pouco mais de um mês depois, tivemos um situação gravíssima: neguinho, ou melhor, branquinho pichou até suástica e pediu a saída dos estudantes negros da universidade, este que ainda é um espaço clássico de colonização, e que se configura como uma das áreas duras do contato racial (ou seja, onde o contato não é permitido), como eu já havia mencionado no tal post sobre a convivência a partir de um artigo do Marcelo Paixão.

Vou manter a minha defesa sobre a teoria de que a convivência seria positiva como forma de acabar com o racismo. Primeiro, pela citação que fiz do Muniz, em que está lá: convivência prolongada. Por quê? Ora, vivemos o momento do estranhamento. E isso vai durar muito tempo, porque a nossa memória social sobre as relações raciais é a da não-convivência em espaços como a universidade. Por isso, quando falo da conviência, e quando Muniz diz que ela deve ser prolongada, é claro que estamos contando com o momento do choque, do estranhamento, do conflito etc. E eu acredito, para completar caso não tenham lido o post anterior, que a convivência entre pessoas não seria o suficiente, mas que era necessária também uma convivência também com o universo simbólico relativo às culturas e populações negras como forma de combater o racismo e elevar a autoestima da população negra.

Isso tudo a que estou voltando não é para justificar eu ter dito que conviência é boa e, depois, surgir um conflito como esse (e muitos mais virão a partir de agora, provavelmente), que poderia me colocar em contradição. O que eu quero é puxar outro tema que merecia um post, que até hoje não fiz, mas sobre o qual o Alex Castro fez muito bem e está tudo lá, e que também gerou uma boa discussão entre mim e Lê do Mucungê nos comentários do post passado: o conflito racial é uma coisa positiva.

O Brasil mantém a sua fama de paraíso racial justamente porque o racismo não costuma gerar conflitos. Estes só acontecem em situações episódicas, normalmente por conta de injúria racial, tipo chamar de macaco, crioula imunda, essas coisas. Mas, como já sabemos e eu não gostaria de ter de repetir, o nosso racismo não gera conflitos porque não há, de fato, disputa de espaços e poderes entre pessoas de cores diferentes. Não há conflito porque tudo está em seu lugar, arrumadinho: brancos, e quase que somente brancos, no topo da pirâmide; praticamente todos os negros, e mais muitos brancos, na base. Não nos esqueçamos que pode haver mobilidade social nessa pirâmide, e que ela ocorre com muita frequência – mas somente para os brancos, o que só confirma que tudo continua no devido lugar. Um exemplo: os italianos chegaram ao Brasil com uma mão na frente e outra atrás (e um pedaço de terra, normalmente), eram todos muito pobres, e hoje encontram-se seus sobrenomes muito mais facilmente nas universidades, em capas de livros, na televisão, do que em carta chegando a barraco de bairro pobre ou favela. Os negros continuaram vivendo sobretudo na pobreza, mesmo em momentos de maior mobilidade social no Brasil, e nenhum dos mecanismos e possibilidades de ascensão social (quaisquer formas de proteção aos mais pobres, como o salário mínimo de Vargas, ou mesmo o ciclo desenvolvimentista do país, que tinha uma promessa explícita de elevar o status social da população negra pela geração de empregos) fez diferença para os negros. Continuamos na base. É por isso, muito simplesmente por isso, que não há sequer possibilidade de ter conflito. E o Alex Castro, no link que já indiquei, explicita com maestria a questão:

No Brasil, o negro sabe o seu lugar: os conflitos começam somente quando ele tenta sair desse lugar e ocupar outra posição socioeconômica. O negro brasileiro, imerso no mais profundo, avassalador, disseminado, estrutural racismo, ou introjetou sua própria inferioridade e acha que não merece um lugar melhor que o atual, ou então, por se saber cidadão de terceira categoria, sabe que a luta seria vã, que começar um conflito que não pode ganhar só pioraria as coisas, e educa seus filhos para serem humildes, calados, pra não chamarem atenção e não criarem problemas.

No Brasil, nunca houve leis racistas proibindo negros de ingressarem em restaurantes, hotéis, tribunais porque a própria estrutura socioeconômica perversa já era garantia mais do que suficiente de que negros somente entrariam nesses ambientes pra varrer o chão e servir café. O Brasil é tão arraigadamente racista que nunca nem precisou de leis racistas para manter seus negros em posição totalmente inferiorizada.

A falta de conflito racial no Brasil é a paz do mais forte que é tão mais forte que sua dominação nem mesmo é contestada e do mais fraco tão mais fraco que nem vale a pena começar a brigar. Assim é fácil não ter conflito racial.

Portanto, se estamos começando a ter esse tipo de conflito, isso é um indicativo de que está havendo uma reacomodação dessas massas historicamente preteridas, está havendo um distribuição desses poderes, ainda que a muito longo prazo e que estejamos muito no início. É por isso que estamos tendo conflitos na Uerj, explicitamente raciais. Conflitos que, repito, devem ficar cada vez mais frequentes, por ainda algumas gerações de estudantes. Porque, para a nossa memória, é inaceitável a presença de tantos negros na universidade, sejam ricos ou pobres (e é claro que a maioria é pobre); essa presença é muito mais conflitiva do que a presença de brancos pobres, que vêm frequentando a universidade e ascendendo socialmente por meio dela desde que temos universidades por aqui (os descendente de italianos pobres que citei, por exemplo, ou de japoneses, judeus, igualmente pobres, e que não são “brancos”, mas que não sofem racismo). Por observação minha em conversas e entreouvidos pela rua, além de leituras de comentários em fóruns de jornal, blogs etc., eu diria que muita gente, quiçá o senso comum, credita o fato de negros continuarem na base por preguiça, incompetência, além de termos mais feios, normalmente batendo no peito:

Meu bisavô veio da Cracóvia fugindo dos nazistas, e hoje meu pai é juiz porque ele ralou muito, trabalhou e não sei mais o quê.

Isso, claro, só vai ferrando ainda mais o problema todo.

Segue um exemplo dessa questão da memória, brevemente, que considero ser realmente importante: Muitos americanos vêm dizendo que os EUA agora vivem a era pós-racial, que o racismo já era, e que não há mais qualquer motivo para os negros reclamarem de racismo.

Vocês já têm até um presidente! virou a frase preferida dos americanos que acreditam que o problema do racismo foi superado da noite pro dia.

Está certo. Então, vamos pegar o exemplo do presidente e tentar tornar concreta essa percepção sobre a memória, pensando até numa possibilidade de mensurá-la. Apenas como exercício, vejamos a imagem abaixo (valeu, Rômulo!):

Os presidentes dos EUA: 43 brancos e 1 negro

Os presidentes dos EUA: 43 brancos e 1 negro

Frente a esta imagem, creio que fica mais clara a minha colocação de como ainda é muito frágil para a concepção do povo americano o entendimento de que eles têm um presidente negro, e de que isso é uma coisa natural. Para toda a carga de informações que recebem, seja sobre a história de seu país, ou esteja ela como pano de fundo em um filme, nas notas de dinheiro, nas conversas, no imaginário, na forma como entendem o mundo, seja falando sobre os seus presidentes ou não, sobre a história de seu país ou sobre culinária – os americanos estão profundamente sabidos de que têm por trás dele 43 presidentes brancos, e somente um presidente negro. Tentando tornar concreta a ideia da fragilidade: se esse quadro, que representa a memória dos americanos, cai no chão e se quebra (imagine que a queda represente algum conflito ou algo assim), certamente haverá mais chances de juntar pedaços em que haja figuras de presidentes brancos do que do único presidente negro. A ideia da presença de pessoas brancas no poder está muito mais fixada, e facilmente recuperável. Isso, creio, é a questão da memória.

E no caso brasileiro, podemos pensar o mesmo, desde a política (nós ainda não tivemos um presidente negro, ao que me consta, e são também pouquíssimos os políticos representativos da população negra), até espaços de prestígio (universidade), visibilidade (propaganda, televisão), ou de difusão de ideias e produção simbólica (livros, jornais, novamente televisão). Para a nossa memória, portanto, é estranha a presença de negros nas universidades.

Magnoli & comparsas já devem estar escrevendo artigos, que serão publicados amanhã mesmo nos jornalões brasileiros, dizendo, como ouço também de universitários e professores, e que li hoje nos comentários da notícia d’O Globo:

Viram só? Não tinha racismo no Brasil, e agora tem por causa das cotas. Está aí, claro e cristalino. Os jovens estão se tornando racistas e desenhando até suástica. Tudo culpa do movimento negro!

É assim que, normalmente, vão colocando em prática a precisa assertiva da carta dos jornalistas da Cojira, fazendo uma

perversa inversão semântica, transformando em “racistas” aqueles que lutam contra o racismo, apresentando como “anti-racistas” quem jamais moveu uma palha para combatê-lo

Caso se confirme minha suspeita sobre isso, amanhã teremos “especialistas” e especialistas defendendo os dois lados: a) que as cotas estão gerando o racismo e criando ódio racial, e b) que as cotas estão fazendo o racismo latente, oculto e confortado se levantar e agir. Eu, que não sou especialista, mas apenas atento à questão, defendo a segunda opção com a seguinte ideia: O estranhamento pela presença do negro no espaço universitário precisa significar que tal presença seja afrontosa?

Se eu acredito, como expus no post anterior, que o preconceito contra o negro vem pela falta de convivência concreta (na intimidade) e também simbólica (ausência de contato com o universo afro), por outro lado, não vejo sentido em manifestação de ódio racial, como parece ser o caso, se temos tão disseminado e naturalizado esse nível de convivência superficial (e muito antiga no caso brasileiro).

Para mim, é aí que fica tudo muito claro. A presença do negro é tolerada em determinados espaços e situações (nas áreas moles), mas predominantemente indesejada (e as áreas duras do contato racial comprovam isso). O que determina a aversão de alguns alunos à presença do negro na Uerj (e esses alguns ainda se revelarão vários…), portanto, é mais do que aquele simples estranhamento que pode causar o preconceito: é, de fato, o efeito dos séculos de segregação (mesmo que não oficial), que foi capaz de gerar um sentimento racista em si, cultivado em nossa cultura desde que os primeiros escravos chegaram ao Brasil. E que pode e deve ser combatido com a convivência.

(Faz sentido o que eu escrevi? Ou estou me contradizendo em relação ao post sober a convivência?)

Por isso tudo, acreditar que é justificável, ou mesmo compreensível (como querem Magnoli et caterva) o aumento de manifestações racistas por conta de cotas, e ainda por cima responsabilizar justamente os que estão são vítimas e herdeiros sociais de todo esse prejuízo – gente, isso é o cúmulo da mãozinha na cabeça, do afago no rostinho. Os pichadores da Uerj são os filhos mimados que esperneam histericamente por terem de dividir seus brinquedos com o filho da empregada, e os defensores que lhes justificam são os pais que, não sabendo o que fazer para contornar a situação, em vez de brigar com os filhos, descontam com gritos e ameaças na empregada negra que serve aos seus filhos todos os dias.

atualização

O leitor José Roitberg indica, nos comentários deste post, que o Brasil já teve um presidente negro, Nilo Peçanha. Eu não sabia tinha certeza disso, mas retruquei dizendo que, de toda forma, não temos essa memória. A quem interessar possa, veja a discussão lá.

Eu tive um sonho

Não, meus fiéis leitores, não. Esse título não remete ao famoso discurso proferido pelo reverendo Martin Luther King, Jr. em 28 de agosto de 1963, nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C. Sei que muitos pensaram “meu Deus, o Rafael pirou de vez nesse lance de questão racial, e definitivamente está a cada dia mais chato: agora até discurso está querendo fazer!” Não, meus amigos. É que há algumas noites eu tive, de fato, um sonho, que não posso me furtar a compartilhar com vocês.

*

O sonho começa numa garagem de um prédio. Eu estou num carro, no banco de trás, com uma jovem mulher ao meu lado. À direção do veiculo, uma mulher já madura, digamos assim, e que tenho a impressão de ser a mãe da jovem ao meu lado. (Na verdade, é pior: tenho a impressão de que a mulher era a tia Norma, mãe da Rapha – nhom! –, embora não fosse a Rapha ao meu lado.) O clima, todo meio tenso, e a fotografia do sonho é meio acinzentada.

Tia Norma manobra o carro e nos encaminhamos para a saída do prédio. Quando chegamos ao portão, surge um porteiro branco, barrigudo e com cara de mau. Ele vestia calça preta e camisa creme – igualzinho ao uniforme dos porteiros do antigo prédio dos meus avós – e um chapéu que lhe conferia um ar ainda mais autoritário, mas que não vou saber explicar aqui – e que os porteiros do antigo prédio dos meus avós nunca usaram.

O porteiro barra a nossa passagem e se aproxima do nosso carro. Eis que, ao ver seu rosto, percebo que era ninguém-mais-ninguém-menos do que o Muricy Ramalho! Trava-se o seguinte diálogo (que obviamente não foi exatamente como o descrevo, mas algo parecido):

Boa noite, madame.

(Tia Norma, já amedrontada) Boa noite.

Estamos tendo alguns problemas de não-sei-o-quê aqui no prédio, então vou precisar revistar o carro da senhora antes de a senhora sair. Algum problema?

Muricy Ramalho começa então a revistar a mala do carro, que tinha algumas bolsas, uma mochila, algo assim. Estamos apreensivos dentro do carro, sem entender mutia coisa, e então me dá um estalo genial: Porra, o Muricy Ramalho deve ganhar algo em torno de meio milhão de reais entre salário, patrocínio, publicidade etc. O que ele está fazendo como porteiro nesse prédio? Há algo de muito estranho.

(Estranhas são essas elucubrações de sonhos, vamos combinar. Mas o mais legal é que, durante o sonho, elas não são nem um pouco estranhas. Fluem com uma naturalidade espantosa, a naturalidade, sim.)

Me levanto do banco e chego perto do porteiro tetra-campeão Muricy Ramalho com uma pose, uma coragem, um peito estufado que, realmente, só em sonho. Mas estava eu lá. E começo a fazer uma série de perguntas a ele, tentando sondar o que aquela criatura odiosa quer. De repente, percebo que ele está mexendo em um sapato branco que eu quis comprar pro ano novo numa loja do Plaza Shopping de Niterói, mas que calhou de eu não ter dinheiro na ocasião. Muricy mexeu em um, jogou de volta na mala, e pegou a outra peça do par. Quando ia começar a vasculhar a sola, percebo que a mão que se dirige ao sapato está malocando alguma coisa, e num ato de reflexo seguro seu pulso com muita força, e entro numa briga para abrir a mão dele.

Tem o quê aí na mão, Muricy? Hein, porra?

Me solta, véi!

Eis que cai no chão um cachimbinho de maconha em formato de figa. Não me pergunte por onde se fumava, mas no sonho estava claro que era um cachimbo. E corta a cena. Estamos agora no meio de alguma rua movimentada, e eu começo a gritar pedindo por ajuda.

Alguém, socorro! Esse cara está tentando colocar um flagrante no nosso carro!

Rebuliço. Uma multidão se aproxima. Pegam Muricy e o levam pra longe, preso. Um homem cujo rosto não consigo me lembrar, mas que no sonho é meu amigo, pega o cachimbo e tira a maconha de dentro. O veredicto:

É só mato, essa porra.

Corta de novo. Estou conversando com um homem branco, bem barbeado, de terno, já é noite, e ele conversa comigo para saber o que houve. Eu conto a história, muito nervoso com a possibilidade de ter sido vítima de um golpe, e conto pro cara o que houve, até aumentando a história nos meus atos de bravura. O meu amigo fala pro cara que a erva que estava no cachimbo, afinal, não era maconha. Mas, no sonho, ainda assim isso constituía um crime grave: ter tentado depositar um cachimbo em formato de figa cheio de grama dentro, sem eu sequer poder provar nada, dava cadeia pro cara. No meio dessas explicações todas, de um lado e de outro, me surge a informação de que o cara é juiz, mora na minha rua e conhece minha família há anos.

Tu é neto da dona Olinda? Mermão, tenho muito respeito pela coroa. Agora esse Muricy tá fudido, parceiro.

Vou pra casa. A fotografia, agora, já é totalmente noir. Está escuro e faz frio. Eu me sento em uma cadeira, em frente a uma mesa, e começo a pensar sobre tudo o que está acontecendo. Eu teria uma audiência num tribunal, no dia seguinte, para formalizar as acusações contra Muricy Ramalho. Eu tiro um cochilo sobre a mesa e acordo apavorado, instantes depois. De repente ficava claro pra mim que tudo aquilo havia sido um sonho que eu tivera na noite anterior (sim, dentro do meu próprio sonho, que eu não sabia que era um sonho, parecia realíssimo). Meu coração vem à boca.

(Pausa para explicar o que está acontecendo comigo no mundo real. Eu fico muito tenso e começo a ter a impressão de que tudo é um sonho, não só o sonho que tive dentro do sonho, mas que isso tudo é, provavelmente, um sonho. Mas não consigo ter certeza de nada. É uma sensação deveras esquisita. O nível 1 do sonho – ou seja, o sonho mesmo, e não o sonho dentro do sonho – me puxa novamente, e esqueço minhas desconfianças, tomado novamente pelo medo.)

E agora? Que faço? Como vou fazer uma acusação contra o cara se, na verdade, isso tudo foi um sonho? O juiz já tinha me dito que no dia seguinte haveria imprensa escrita, falada e televisionada. Uma merda. Penso em fugir, mas a essa altura a cidade já sabe quem sou, o caso está famoso. Todos pedem a condenação de Muricy Ramalho. Começo a bolar uma estratégia argumentativa em que eu não precise mentir, em que eu possa dizer que foi um sonho, mas que ainda assim aquele agindo era o Muricy. Mas não dá pra comprovar nada disso. Nada disso tem qualquer base seja jurídica, moral, ética. É tudo uma maluquice, e eu começo a chorar.

Puta que o pariu, amanhã vão me botar na cadeia!

Volta a desconfiança. É sonho? Não é sonho? Estou dormindo? Estou acordado? Ouço passos subindo uma escada e alguém bate na porta. São eles, chegaram.

Enche a pança de sopa de feijão e vai dormir logo em seguida, dá nisso.

Da convivência como forma de combate ao racismo

Um dos argumentos de que mais gosto quando discuto sobre formas de combater o racismo é aquele que defende a noção da convivência. Li isso pela primeira vez no livro Claros e escuros, do Mestre dos Mestres, Muniz Sodré, mas eu já tinha ensaiado esse mesmo argumento quando discutia sobre cotas com um antigo professor meu, evidentemente sem a elaboração de Muniz. Àquela altura, o tal professor dizia que as cotas iriam segregar negros e brancos, que vivem juntos e muito bem. Eu disse-lhe que, ao contrário, as cotas fariam com que se encontrassem na universidade pela primeira vez. Ele então me disse: “Palavras, Rafael, isso são apenas palavras…” Eu fiquei quieto em respeito a ele, e pela insegurança dos meus 18 anos, mas fiquei pensando que não passavam de palavras o argumento dele, isso sim, já que a convivência que ele alardeava existir não existia na universidade, mas de jeito nenhum. Não se pode chamar de convivência aquela coisa do(a) único(a) aluno(a) negro(a), a unidade isolada pra afirmar que existe, o que é muito diferente de ter uma sala inteira meio a meio, alunos brancos e alunos não-brancos.

Mas vejamos como Sodré, então, defende a ideia da convivência no já citado livro, um dos melhores de sua obra:

Desde Spinoza e sua Ética, torna-se patente para os modernos que afeto não se reduz a um estado anímico, inteiramente controlável pelas representações da consciência subjetiva, já que é principalmente disposição interna articulada com forma de vida, modo de existir – ethos. Como forma, o afeto é, ao mesmo tempo, interior e exterior, pulsão e fenômeno, o que implica levar em conta tanto ânimo quanto corpo em seus modos particulares de instalação e deslocamento no espaço.

O afeto capaz de levar à abolição do racismo é o sentimento (visão e ação) que abole a distância ontológica (psíquica e territorial) entre o Mesmo e o Outro. Nasce, portanto, de uma comunidade, de uma parceria (trocas, interações, trabalho conjunto, convivência prolongada) entre singularidades, e não de uma cívica e piedosa tolerância democrática. Não se trata apenas de isonomia (igualdade perante o sistema jurídico e social), mas principalmente de isotopia – igualdade dos lugares.

Entretanto, por diversos contingentes históricos, e sobretudo pela concretude de nossa miscigenação biológica e cultural – que nos oferece uma falsa porém impactante impressão da ausência de racismo em nossas relações –, costumeiramente avaliamos de forma positiva a convivência entre brancos e negros, o que demonstra como ainda é rasa a nossa compreensão sobre este constante jogo de forças. Marcelo Paixão, em seu artigo “O Justo Combate: reflexões sobre relações raciais e desenvolvimento”, usa um conceito que me é muito caro para refinar a percepção sobre o contato racial: o das áreas moles e áreas duras da convivência entre indivíduos de cores diferentes na nossa sociedade.

As áreas moles são aquelas em que é facilmente permitida a tal convivência: na rua; no bar; no cabeleireiro; na fila do supermercado; no futebol. Até a amizade, às vezes, pode ser uma área mole.

As áreas duras, por outro lado, são aquelas em que tudo fica mais difícil: o namoro ou casamento; a família e situações de intimidade do lar; o trabalho, especialmente quando há diferentes níveis de poder ou disputa pelo mesmo etc.

O exemplo do bar e da rua, para os homens, é clássico. Eu tenho dois amigos na minha rua, brancos, irmãos, que me ligam para tomar cerveja, reclamam quando não apareço, e um deles até já ficou magoado (sinceramente magoado, não é ironia) porque eu me ausentei de um aniversário dele. Mas também já disseram na minha cara: “Falei pra minha irmã que se ela aparecer lá em casa de mãozinha dada com crioulo, vai entrar na porrada”. Perguntei-lhes se da minha cor, um preto clarinho como eu, assim, podia namorar com ela. Me disseram que não sabiam, mas que teriam de conversar.

(E as mulheres? Teriam algum exemplo típico para o seu gênero, ou acontece de forma semelhante ao unoverso masculino? Se por aqui leitoras houver, manifestem-se nos comentários, por favor!)

Pois bem, a questão da convivência é crucial porque somente através dela, me parece, o racismo pode ser combatido efetivamente. O racismo, bem sabemos, é um mal-estar que sempre vai existir. Ele é fruto do estranhamento, sentimento natural, legítimo e até mesmo instintivo por parte do ser humano. Tenho vizinhos nordestinos, por exemplo, que colocam forró em um volume muito alto ao lado do portão da casa do meu pai. Eu não gosto deles. Falam de um jeito que me é estranho, me parecem muito mal educados e têm hábitos que considero estranhos (talvez nem sejam, mas podem me parecer pelo preconceito). Eu não sei de que cidade ou estado são, pra mim não faz diferença. Sei que são nordestinos. Eis o preconceito. Isso não quer dizer que eu não goste de nordestinos em geral, mas com certeza me faz ter impressões ruins – que sei, claramente, serem fruto do preconceito. E é justamente isso: sei que muito do que penso é preconceito, e nem por isso o preconceito vai embora. Preconceito é preconceito: está internalizado, e para sair da gente, é preciso que a alma seja trabalhada.

Então, esses meus amigos só vão entender que negros são iguais a eles no dia em que a irmã loura e intocada forçá-los a conviver com um cunhado negro; e tiver filhos negros, que serão primos dos filhos brancos deles. E aí, quem sabe, por terem primos negros, e com primos negros conviverem desde sempre, estes filhos dos meus amigos poderão entender de uma outra maneira o indivíduo negro, poderão ver que são pessoas normais, e será mais fácil de esses filhos e filhas do meus amigos também terem namoradas e namorados negros, e assim estará criada uma condição que dificulta a apreensão de sentimentos racistas nas gerações seguintes: porque já terão internalizado que negro é a mesma coisa que branco, porque vêm experimentando isso desde a infância.

Não se enganem, entretanto, em achar que isso aqui é um elogio à mestiçagem (embora mestiçagem seja muito bom, sim; mas não nos moldes carnavalizados que não discutem as discrepâncias e preconceitos que podem haver por detrás dela). Até porque, como observamos no caso brasileiro, a mestiçagem muitas vezes ocorreu exatamente com descrito no parágrafo acima (além, é claro, das incontáveis – no duplo sentido – histórias de violência sexual contra mulheres negras) e ainda assim o país tem um grave problema relacionado ao racismo. Esses mesmos primos, brancos e negros, que convivem entre si, podem se tornar adultos racistas naquelas áreas duras já indicadas. Os primos brancos podem, mesmo tendo primos negros, não se sentirem à vontade em namorar pessoas negras, podem preterir funcionários negros ao longo de sua vida profissional, caso um dia lhes caiba uma função de chefia etc. E os primos negros podem ser daqueles que querem “clarear” a família, podem criar estereótipos sobre si mesmos que tenham como reflexo a baixa autoestima etc.

Tudo é possível, porque o ser humano é mesmo muito complexo. E não podemos negar que há ainda uma força muito poderosa – eu diria até predominante – que faz a nossa sociedade (e os tais primos, portanto) viver e ver o mundo a partir de uma ótica muito marcada pelo racismo. E justamente essa ótica tem impedido que a convivência entre brancos e negros ocorra de forma honesta, igualitária, o que significaria ocorrer em mesmo nível, quantidade e qualidade nas áreas moles e nas áreas duras – ou, melhor dizendo, sequer haveria áreas moles ou duras. Haveria tão somente a convivência. E aí é que mora o problema. Uma das grandes dificuldades para se resolver o poderoso racismo que nos assola é semelhante ao paradoxo do Tostines, que nos pergunta: “Tostines é fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque é fresquinho?”

No fim das contas, o caso é que Tostines está sempre fresquinho. E o racismo, também.

No fim das contas, o caso é que Tostines está sempre fresquinho. E o racismo, também.

No caso do racismo, se sabemos que a convivência permite que o estranhamento se vá – e assim o racismo efetivamente desapareça –, sabemos também que o estranhamento não permite a convivência. É exatamente o caso que relatei dos meus amigos em relação à irmã deles. Eles estranham o negro, e sempre vão estranhar, porque o estranhamento os impede de deixá-la namorar com um negro e que eles, assim, convivam com um negro em casa. O estranhamento impede que eles mesmos namorem com mulheres negras e entendam que elas não se reduzem a mulheres quentes, lascivas, com visgo na xoxota, embora possam ser tudo isso, como uma branca também pode, e que podem ser muito mais do que isso, como uma branca também pode – mas a branca eles já sabem que pode.

Mas voltemos à convivência. Sei que isto já está esticado, perdoem a verborragia, e na verdade eu só queria usar essa introdução para expor uma ideia relativamente simples, que de algum modo já falei nesse blog, e que tanta gente já falou e escreveu por aí – mas sem fazer a ponte com esse conceito (não sei se posso dar essa pompa toda) de convivência, que é o que quero defender aqui.

Ora, vivemos em um país profundamente miscigenado biologicamente e culturalmente, talvez sem igual no mundo. E, ainda assim, somos racistas (somos sim, Ali Kamel, não fode). Houve quem, muito recentemente, ostentando o título de “intelectual”, defendesse em jornais e artigos acadêmicos que a nossa miscigenação era a prova de que racismo não havia (incorrendo no erro básico de não perceber as áreas moles e duras), ou, pior, de que com a miscigenação o racismo estaria naturalmente desaparecendo. Este último argumento faz nivelar a discussão por baixo, além de ser especialmente incoerente, pois está afirmando que deixaremos de ser racistas quando formos todos mulatos e iguaizinhos – mas aí, se é todo mundo igual, nem faz sentido a discussão de racismo; só se pode falar em racismo ou superação do mesmo se, havendo diferenças, há harmonia e não há desigualdade). E ainda se esquece que não seremos todos iguaizinhos, jamais, enquanto houver racismo, porque haverá um limite para essa miscigenação (novamente pelo paradoxo do Tostines, embora, é claro, não se possa fazer uma previsão tão cartesiana da impossibilidade da mistura pelo já citado paradoxo quando se trata de sociedade, cultura, um monte de gente junta e tal; só estou ilustrando).

Acontece que nossa miscigenação se dá e continuar-se-á a dar porque é, de fato, uma característica da nossa cultura, que abriga um racismo que não é negrofóbico como o norte-americano, mas etnocentrista, ou seja, está mais para uma escala de valores que coloca o negro lá embaixo e o branco lá em cima, do que para a necessidade de eliminação física e explícita do negro. Grosso modo, isto torna possíveis as relações sexuais entre pessoas de cores diferentes e igualmente possíveis os seus filhinhos miscigenados.

O que me parece que falta, caros leitores, isto sim urgentemente, é a convivência com o universo simbólico relacionado ao negro; uma troca franca; o contato contínuo e incontrolável com esse patrimônio, que nos atinge em esferas mais profundas do que podem conseguir um aperto de mãos, dois beijinhos, um tapinha nas costas ou um ato sexual. Todos precisam viver esse contato de forma plena, mas sobretudo as pessoas negras precisam ter a convivência com este tanto simbólico que lhes é próprio ou que lhes é relacionado, mas cujo acesso é negado de várias maneiras. Precisamos reverter esta destruição do patrimônio de significações, aquilo a que Muniz Sodré, em A verdade seduzida, chamou de semiocídios.

É preciso ligar a televisão e ver negros. É preciso entrar num supermercado e ver um gerente negro, e ter de lidar com ele na hora de uma reclamação ou elogio. É preciso ler livros escritos por negros. É preciso ter professoras negras. É preciso ouvir samba no Teatro Municipal, e ler no jornal do dia seguinte que o sambista recebeu tanto dinheiro quanto o músico da bossa-nova. É preciso ler e ouvir histórias que contem não só como os negros eram obrigados a viver durante a escravidão, mas também que atitudes os negros tomavam para ter outra vida. É preciso saber que o Egito tinha ao menos um importantíssimo reino de negros, o dos núbios. É preciso saber que não pronunciamos o “r” final de verbos no infinitivo por influência das línguas bantas. É preciso ter várias chefes negras ao longo da vida, tomar broncas e receber elogios delas. É preciso que um criminoso negro seja defendido por um advogado negro e condenado por uma juíza negra, para que então este criminoso entenda que pode estar do outro lado da história. São necessários muitos outros Andrades. É preciso ver uma mulher negra de véu e grinalda entrando na igreja ao lado de seu pai, feliz e bem vestida, casando-se com um homem negro sorridente. É preciso saber que há casamentos nos candomblés, e saber como são celebrados. É preciso ver anúncios à beira de vias expressas com pessoas negras divertindo-se em um parque de diversões. É preciso ver anúncios de pacotes de viagem para Angola, Moçambique e Nigéria. É preciso ler uma coluna social fútil escrita por um negro, com a cara dele estampada. É preciso ver pessoas vestidas de branco às sextas-feiras. É preciso que a receita de acarajé esteja num livro de alta culinária numa seção de comidas de origem africana. É preciso assistir a filmes que sejam dirigidos por um negro e roteirizados por uma negra, não necessariamente tratando de questão racial, porque é preciso poder ver mais cenas como a de Besouro e Dinorah jogando capoeira, se beijando e fazendo amor. É preciso ser atendido por uma médica negra de cabelo trançado. É preciso criar uma banda que misture choro, blues, jazz e funk carioca, e que ela faça um clipe. É preciso ver um monte de gente balançando seus blacks e dreads pela rua. É preciso degustar canjica, lamber os beiços e saber que é comida de macumba.

É preciso estar cercado de negritudes por todos os lados e gozar fartamente com isso.

Feliz ano novo!

À sua meia dúzia de leitores e leitoras, o meujazz deseja que 2010 seja um ano negro na vida de todos vocês!

Um forte abraço e muito axé!
Rafael.


oquê, caboco!

quando chegar a um milhão, eu fecho o blog.

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