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‘White flight’ no mundo digital

O primeiro link eu peguei no NPTO (que, aliás, voltou de férias finalmente, e ao qual recomendo visitação diária, pois é muito bom). E, depois do primeiro link, emburaquei sozinho pros outros.

Basicamente é o seguinte: nos EUA, a juventude branca-bem-educada está deixando o Myspace e migrando para o Facebook, enquanto os pretos e suburbanos continuam no Myspace.

Foi uma americana chamada Danah Boyd quem andou pesquisando sobre o perfil dos usuários das redes sociais (Orkut, Facebook, Myspace etc.) e descobriu que – especialmente entre adolescentes – os padrões de segregação do mundo real se repetem no virtual. O universo de que ela trata é o americano, mas muito do que ela fala já andei (andamos?) percebendo no Brasil. A descoberta em si não é grande novidade para quem está mais ou menos atento, mas sobretudo as análises que ela faz são muito interessantes.

Para quem não estiver com muita paciência para ler o artigo completo, pode ler a entrevista que ela deu sobre o assunto para o The root (atente que são duas partes; no final tem um link pra página seguinte). E pra quem quiser ler tudo, o que eu recomendo enfaticamente, está na página pessoal dela.

(Tanto a entrevista quanto o artigo, infelizmente, só estão disponíveis em inglês.)

Os questionamentos que ela levanta são muito pertinentes e vão fundo na questão. A primeira colocação é a de que podemos ver no mundo digital o fenômeno do mundo real chamado ‘white flight’ (algo como ‘fuga dos brancos’), uma migração dos setores mais ricos das cidades grandes para cidades menores ou bairros mais afastados que começou nos EUA nos anos 60 e 70 por causa do aumento da violência, do crescimento dos guetos, aumento de carros e – uma coisa que ela não explicita, mas que fica claro pela leitura do texto e por coisas que já andei lendo vida afora – pelo aumento da diversidade racial (não apenas negros, mas árabes, latinos, asiáticos) nos espaços anteriormente frequentados apenas pela elite majoritariamente wasp (white-anglo-saxons-protestants ou brancos-anglo-saxões-protestantes).

Mas, se no caso do ‘white flight’ real havia motivos que, em tese, poderiam ser justificados concretamente (medo de sofrer uma violência, por exemplo), no caso virtual a coisa se mostra diferente. Sobretudo, como destaca Danah e com a qual eu concordo plenamente, o fenômeno ‘myspace-to-facebook’ que vemos evidencia que o grande medo é muito maior na esfera simbólica. Não é apenas o medo do contato físico, mas sobretudo o da troca (qualquer tipo de troca) com aquele que não se conhece. O medo de ser poluído por valores dos quais se tem aversão, normalmente por desconhecimento. O horror ao outro. Nessa, o fenômeno da internet é fundamental por estar ajudando muito a entender como se operam essas complicadas relações também na vida real.

Danah ainda arremata (na boa, o artigo é muito bom; se você lê inglês, pare de ler o meu post e vá à fonte) mostrando que a coisa é muito marcadamente segregacionista porque, diferente de um provedor de e-mails, em que alguém do Hotmail pode enviar mensagem para alguém do IG (ela não exemplifica com o IG, evidentemente), no caso das redes sociais isso é impossível: quem é do Facebook só conversa cmo quem é do Facebook. Assim, mesmo com o crescente acesso à internet por pessoas dos mais variados perfis socioeconômicos, culturais e raciais (acho que a maior parte das favelas cariocas, por exemplo, têm lan house e gato-net com boa conexão), e estando os problemas da infraestrutura nas grandes cidades sendo superados como a primeira barreira que separava, estamos criando uma nova e igualmente concreta muralha. Justamente no espaço que se vangloria de ser uma revolução por poder manter em contato o mundo todo. Paradoxal, não?

E esses padrões, como eu falei, se repetem no Brasil. O ‘white flight’ do mundo real também está acontecendo por aqui, embora em menor grau por causa de especificidades nossas. Os subúrbios do Rio, por exemplo, são praticamente todos considerados muito menos seguros do que os bairros nobres da zona sul, e então o pessoal que não consegue mais aturar as favelas ao redor de seus prédios está fugindo, sobretudo, para as cidades serranas mais próximas, como Petrópolis, Itaipava, Teresópolis, em busca do isolamento (acho que esse é o termo chave). E acho que essa migração só não acontece em maior escala porque nosso sistema de transporte é muito capenga, diferente do que imagino ser (veja bem: imagino) nas cidades americanas.

Mas as semelhanças não param por aí. No mundo digital daqui também temos observado um fenômeno semelhante. Cada vez mais a moçada descoladinha está deixando o Orkut para ir pro Facebook. Muita gente está apagando o seu Orkut e ficando exclusivamente no Facebook. E isso vem acontecendo, no meu superficial porém atento ver, por três razões: um) o Facebook é uma novidade, e acaba inspirando, naturalmente, uma movimentação; dois) o Orkut já deixou, há muito tempo, de ser frequentado pelo povo refinado, e tem cada vez mais pobres, favelados, não-brancos e pessoas em geral que nem conhecem Radiohead ou Belle & Sebastian; três) o Facebook é moda entre europeus e americanos, o que surte um efeito danado numa ex-colônia como a nossa. Aqui, não se fala tão claramente como lá que a mudança se deu porque o Orkut é coisa de gente pobre. Virou démodé, só isso.

Mas, mesmo sendo brancos, bem-educados, viajados e com dinheiro, ainda somos latino-americanos, eternamente no entre-lugar do mundo. E é assim que, ao mesmo tempo que nossas elites fazem o ‘white flight’ para não se associarem à chusma que lhes serve diariamente, elas próprias muitas vezes sabem, mas fingem ignorar, que são razão do ‘white flight’ dos seus colonizadores para paragens distantes de nós. Quem não se lembra do espanto e desgosto do povo do hemisfério norte ao descobrir que só tinha brasileiro no Orkut, o que os fez mudar para o Myspace? (Lembram também que tinha até um papo, acho que lenda, de que o Orkut tornava mais lento e com mais problemas o acesso dos perfis marcados como brasileiros?)

Quando a nossa elite brasileira lotar o Facebook, desesperada por ser aceita pela elite do hemisfério norte, eles lá já terão criado um novo site pra se abrigar – e aí, não duvido, qualquer hora dessas com um sistema de reconhecimento, talvez, de IP (já que o cutâneo ou genético não seria politicamente correto, digamos assim).

White people por aí

Olha, vou te indicar um blog. Mas você tem que tomar cuidado, porque pode passar os próximos dias inteiros lendo ele e perder seu emprego, perder suas retinas – mas certamente não terá perdido seu tempo. É simplesmente sensacional. O blog se chama Stuff white people like. Sentiu o clima?

O interessante é que, apesar de tratar dos brancos americanos, por várias vezes você também vai identificar ali os brancos brasileiros (e de tudo quanto é canto do planeta). O blog sacaneia Moleskine, computador da Apple, suéter (suéter é genial!), produtos orgânicos, sushi, festivais de filmes (festivais de filmes, puta que o pariu!!!), yoga, enfim, um monte de coisas que eu mesmo gosto – porque uma bela fatia de minha alma é branca, sem medo de ser feliz -, e outras que eu sacaneio há tempos e, agora, acabo de descobrir que também acontecem na gringolândia.

Mas o melhor post sobre stuff white people like, pra mim, é esse. É exatamente assim que acontece por aqui. Depois que ler o texto, troque jazz e blues por samba, british bands por rapazes da bossa nova, hip hop por funk carioca – e, voilà, é Brasil, igualzinho, os mesmos processos, tudo. Eu já me vi bem nessa, e já há algum tempo, também, tenho tentado mudar isso. E até que venho conseguindo algum resultado (é, assim, um ou outro resultado…)

Infelizmente, só em inglês. Quem não souber inglês, lança o tradutor do Google nos textos que deve ser o suficiente, apesar dos errinhos que sempre aparecem.

E, tenho que dizer, cheguei a ele por um blog brasileiro, tão engraçado quanto, com uma proposta bem parecida: o Classe média way of life!

Acho que seria legal dividir as experiências de leitura dos dois blogs. Cada pessoa, de acordo com sua história, sua vivência, vai ter uma impressão diferente. No Classe média way of life, me reconheci algumas vezes (nessa coisa de ficar falando que não tenho dinheiro, por exemplo). No Stuff white people like, igualmente, mas com um número muito maior de coisas que eu ja sacaneava. E ri bem mais, confesso.

Ambos já estão na na lista de blogs favoritos, ao lado. Divirtam-se!


oquê, caboco!

quando chegar a um milhão, eu fecho o blog.

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