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Minicurso em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa

BOAVENTURA CARDOSO: A ANGOLANIDADE EM PROCESSO

Ementa: Assim como outros autores de sua geração, Boaventura Cardoso tem seus textos marcados por um constante esforço de construção de formas possíveis da identidade angolana. Este processo não se encontra apenas na literatura de Angola: é um caminho comum por que passam as literaturas de países recentemente libertos do regime colonialista, mas que ainda precisam se libertar das relações subjetivas da colonialidade, nas quais a presença de valores euro-centrados ainda é muito forte. Através da leitura de Dizanga dia muenhu (contos, 1977); A morte do velho Kipacaça (contos, 1987); e Maio, mês de Maria (romance, 1997), três obras pontuais do escritor angolano Boaventura Cardoso, pretende-se demonstrar como o autor constrói seus enredos a partir de uma constante negociação de sentidos entre duas faces distintas da realidade e suas tradições – o animismo bantu e a racionalidade ocidental –, pelas quais tenta representar sua identidade angolana, com isso propondo um exercício de “desobediência epistêmica”.

Ministrante: Rafael Cesar (mestrando em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa / UFF)
Datas: 13, 18, 20, 25 e 27 de outubro de 2010, das 14h às 17h
Local: Faculdade de Letras da UFF (Campus Gragoatá) – bloco C, sala 403
Carga horária: 15 horas

Inscrições: kipacaca@gmail.com
Leitura prévia: Dizanga dia muenhu (disponível na pasta do minicurso na copiadora do bloco B)

Imagem: Mayembe (João Mabuaka); s/ título, escultura em madeira, 80x35x80 cm.

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Em tempos de eleição…

Prezad@s leitor@s deste blog abandonado, de notas e batidas ultimamente silenciadas,

Após 30 anos de ativismo pelos direitos das prostitutas, Gabriela Leite, criadora da grife Daspu, decidiu levar sua batalha para o Congresso Nacional. O tempo de militância, que teve desdobramentos fundamentais na área da saúde (com o combate à Aids, através de distribuição de preservativos, materiais educativos e apoio à quebra de patentes de medicamentos contra o vírus HIV); na área de direitos humanos; direitos do trabalho, direitos sexuais e reprodutivos; bem como a luta pela igualdade de gênero, trouxe conquistas não apenas para as prostitutas, mas para toda a população. Vamos ajudar essa história a continuar?

No dia 3 de outubro, vote no número 4301 para eleger Gabriela Leite a deputada federal!

E, enquanto não chega o grande dia, vamos demonstrar nosso apoio à candidata em sua festa de lançamento!
convite gabi

Quando: sábado agora, dia 07/08, a partir das 20h.
Onde: no Baixo Santa do Alto Glória, Rua Hermenegildo de Barros, 73.
Contato: gabrielaleite2010@gmail.com

Gabriela Leite, uma puta deputada PV-RJ

Um grande abraço a todos(as),
Rafael Cesar

Campanha AFIRME-SE! Eu apoio e contribuo. E você?

Alô militância negra e simpatizantes!

Já que tentam lançar contra nós aquele estigma de que, ao propormos políticas públicas com vistas à promoção da igualdade racial, estamos imitando os americanos, proponho que comecemos a usar isso a nosso favor. É muito comum nos EUA que os cidadãos comuns apoiem financeiramente veículos de comunicação, campanhas publicitárias, instituições etc. com cujas linhas ideológicas se identifiquem. A própria campanha do atual presidente Obama, que bateu recordes de arrecadação, foi um exemplo disso. Mas é muito comum, quero frisar, que se faça isso também com iniciativas menores, mais localizadas.

O caso é que está marcado para o dia 5 de março próximo uma audiência no Supremo Tribunal Federal em que será debatida a constitucionalidade – ou não – das ações afirmativas com base em raça. E aí fiquei sabendo por uma amiga, via e-mail, que pra fazer a defesa do nosso lado surgiu a campanha AFIRME-SE!, que, como definem seus organizadores, pretende

Planejar, produzir e executar uma ação nacional de mídia em defesa das políticas de ação afirmativa no Brasil, em vistas do Supremo Tribunal Federal (STF) ter pautado para a partir de 5 de março de 2010 a discussão sobre a sua constitucionalidade. A ação se posicionará como contraponto aos ataques que tais políticas tem sistematicamente sofrido com o apoio explícito de toda a grande mídia nacional.

AFIRME-SE! quer colocar anúncios pagos de página inteira em quatro grandes jornais brasileiros (O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Correio Braziliense), entre os dias 1 e 4 de março, que antecedem a audiência, esclarecendo – ou, como muito bem diz o povo da militância, escurecendo – a importância das ações afirmativas para negros e indígenas, bem como a sua constitucionalidade. Estão previstos ainda informes publicitários em outdoors pelas ruas de sete capitais brasileiras, ou vinhetas no rádio e na televisão. Para isso, a campanha espera arrecadar em torno de R$ 800 mil.

R$ 800 mil, minha gente, isso mesmo. Achou muito dinheiro? Ficou escandalizad@? Te parece ambicioso demais? QUE BOM! Porque, pelo que entendi, a ideia da campanha é justamente essa: aproveitar o momento histórico favorável que estamos vivendo e parar com o investimento na pobreza e na marginalidade, que por tanto tempo caracterizou os movimentos sociais como um todo. Arrecadar muita grana e se expor em jornais, televisão etc. signifca mostrar que estamos organizados, fortes, que temos poder político e influência. E isso mostra o quanto amadurecemos nos últimos anos. Sem medo de ser feliz, sem medo de pensar grande, sem a síndrome do ex-escravo que aceita uma choça miserável na fazenda do ex-senhor porque sabe que nas ruas não vai conseguir emprego. Nada disso. Queremos muito, queremos mais.

É por isso que, amanhã de manhã, quando for à rua, vou sentir hoje de manhã, quando fui à rua, senti o maior orgulho de imitar aquilo que os americanos têm de bom, e fazer fiz uma contribuição para a campanha.

Clique em AFIRME-SE!, para saber mais sobre a campanha, os parceiros, a conta para colaboração (que está sob responsabilidade do Fundo Brasil de Direitos Humanos). Para entrar em contato, afirme.se@gmail.com.

E God bless America.

comprovante

Por que Jesus pode entrar na escola e Exu não pode?

Um ponto fundamental para se entender os mecanismos e possibilidades do racismo é saber que ele não se restringe à cor da pele, mas busca punir todo um campo semântico, uma gama de signos e símbolos ligados ao universo negro. Já comentei sobre isso falando do samba, em dois posts antigos (aqui e aqui), e também em outro, mais recente, em que eu propunha a convivência com o universo simbólico negro, além da sua valorização, como um mecanismo para combater o racismo. Poderíamos falar sobre aspectos linguísticos, sobre identidade corporal, vestuário, culinária, praticamente tudo. Recebi por e-mail, recentemente, um artigo que mostra esse fenômeno relacionado às religiões afro, com enfoque na educação. Inquices, orixás, voduns e entidades afins sofrem perseguição desde que começaram a se manifestar frente à fé cristã, em África ou nas Américas. Já foi o governo, oficialmente; já foi a igreja católica; e hoje muitos evangélicos militam contra toda religião afro-originada. E não são poucos os espíritas (da tal linha branca, de mesa) que torcem o nariz para entidades como pretos-velhos e caboclos. O texto que divulgo abaixo mostra muito bem que essa perseguição tem, de fato, a ver com o racismo.

*

Por que Jesus pode entrar na escola e Exu não pode?

Stela Guedes Caputo

No dia 27 de outubro de 2009, um jornal carioca destacou o caso da professora Maria Cristina Marques proibida de dar aulas em uma escola municipal, no Rio, porque utilizava o livro “Lendas de Exu”. A professora é umbandista e a diretora dessa escola é evangélica. Maria Cristina relatou diversas humilhações, desde ser acusada por mães de alunos de fazer “apologia ao Diabo” à colocação de um provérbio bíblico na sala dos professores chamando-a de mentirosa. Ao lerem a notícia deste caso, certamente muitos sentiram na pele as humilhações sofridas por Maria Cristina. Isso porque é muito comum que professores e professoras, alunos e alunas praticantes de candomblé ou umbanda sejam discriminados nas escolas.

A questão é complexa e podemos fazer muitas perguntas a respeito, mas farei aqui apenas uma: por que Jesus pode entrar na escola e Exu não pode? Por que um Jesus louro, coberto por uma túnica branca, pode estar em um dos livros da coleção para o Ensino Religioso católico, destinada à rede pública e lançada em 2007 pela Cúria Diocesana? A resposta que tenho não agrada. Exu não entra na escola porque este país é racista e, por isso, o racismo está presente na escola. Também acredito que atravessamos uma fase de avanço significativo dos setores conservadores na educação pública. A manutenção da oferta do ensino religioso na Constituição de 88, a aprovação deste como confessional no Rio, o lançamento dos livros didáticos católicos em 2007, a Concordata Brasil-Vaticano aprovada pelo Senado em outubro deste ano. Tudo parece fragmentado, mas não é. Trata-se de vitórias lentas e sigilosas que ampliam, reforçam e legitimam as circunstâncias necessárias para que a discriminação sofrida por Maria Cristina continue sendo uma prática bastante comum em nossas escolas públicas.

A Mãe-de-santo e escritora Beata de Yemanjá, acredita que a discriminação de sua religião acontece porque “pensam que o Brasil é uma coisa só. Por isso nos discriminam e a nossas religiões. Isso é racismo”, diz ela. O pesquisador Antônio Sérgio Guimarães concorda e defende em diversos livros que qualquer estudo sobre racismo em nosso país deve começar por notar que, aqui, o racismo foi, até recentemente, um tabu e que os brasileiros se imaginam numa democracia racial, fonte de orgulho nacional que serve como prova de nosso status de povo civilizado. Para este autor, essa pretensão a um anti-racismo institucional e as regras de pertença nacional suprimiram referências a sentimentos étnicos, raciais e comunitários, contribuindo para a nação brasileira imaginada numa conformidade cultural em termos de religião, raça, etnicidade e língua. É por isso que este autor, entre outros, acha que o racismo brasileiro é do tipo heterofóbico, ou seja, um racismo que é a negação absoluta das diferenças, que pressupõe uma avaliação negativa de toda diferença, implicando um ideal (explícito ou não) de homogeneidade (ou uma coisa só, como diz Beata).

Quando a diretora de uma escola proíbe um livro de lendas africanas ela quer apagar a diversidade presente na sociedade e na escola, quer silenciar culturas não hegemônicas, como as afro-descendentes. Mas como, se a professora discriminada é branca? A professora é branca, mas Exu é negro. Um poderoso e imenso orixá negro. É o orixá mais próximo dos seres humanos porque representa a vontade, o desejo, a sexualidade, a dúvida. Por que esses sentimentos não são bem-vindos na escola? Por que a igreja católica tratou de associá-lo ao mal e ao Diabo (ao seu Diabo) e muitas escolas incorporam essa lógica conservadora, moralista, hipócrita e racista. Exu, no livro proibido, afirma que este país tem negros com diferentes culturas que se entendidas como modos de vida, podem incluir diferentes modos de ver, crer, sentir, entender e explicar a vida. Isso não pode, porque na escola só entra o Jesus lourinho dos livros didáticos católicos (esses são bem-vindos). Positivo foi que muitos professores e professoras se manifestaram contra o ocorrido. Além disso, a Secretaria Municipal de Macaé publicou nota criticando a discriminação e apoiando a professora, o que evidencia, da mesma forma, que a escola não é “uma coisa só”. Por isso, é nas suas tensões cotidianas que devemos fazer, também cotidianamente, a luta contra o racismo de todo tipo, inclusive este, disfarçado de intolerância religiosa.

Para encerrar podemos fazer novas perguntas: a professora silenciada lecionava literatura. Digamos que ensinasse História da África, como ensinar essa disciplina tornada obrigatória? Amputando suas culturas, entre elas, o candomblé e seu riquíssimo panteão de orixás? Alguém questiona quando a disciplina de História fala do catolicismo? Da reforma protestante? Esses conteúdos fazem parte do ensino regular de História (por isso, entre outras coisas, o Ensino Religioso não é necessário). As culturas com suas religiões também fazem parte do ensino de História da África. Como é que vai ser? Pais e professores arrancarão as páginas desses livros? Ou eles já serão confeccionados mutilados pelo racismo? Respondo com a saudação ao orixá excluído da escola (só podia ser ele a armar tudo isso): Laro oyê Exu! Para que ele traga mais confusão e com ela, o movimento, a comunicação e a transformação onde reina.

Oquê, caboco!

Hoje é teu dia!

"O caçador Oxô é popular"

Oxóssi mata o pássaro das feiticeiras

“Todos os anos, para comemorar a colheita dos inhames,
o rei de Ifé oferecia aos súditos uma grande festa.
Naquele ano, a cerimônia transcorria normalmente,
quando um pássaro de grandes asas pousou no telhado do palácio.
O pássaro era monstruoso e aterrador.
O povo, assustado, perguntava sobre sua origem.
A ave fora enviada pelas feiticeiras,
as Iá Mi Oxorongá, nossas mães feiticeiras,
ofendidas por não terem sido convidadas.
O pássaro ameaçava o desenrolar das comemorações,
o povo corria atemorizado.
E o rei chamou os melhores caçadores do reino para abater a grande ave.
De Idô, veio Oxotogum com suas vinte flechas.
De Morê, veio Oxotogi com suas quarenta flechas.
De Ilarê, veio Oxotadotá com suas cinquenta flechas.
Prometeram ao rei acabar com o perverso bicho,
ou perderiam suas próprias vidas.
Nada conseguiram, entretanto, os três odés.
Gastaram suas flechas e fracassaram.
Foram presos por ordem do rei.

Finalmente, de Irém, veio Oxotocanxoxô,
o caçador de uma só flecha.
Se fracassasse, seria executado
junto com os que o antecederam.

Temendo pela vida do filho,
a mãe do caçador foi ao babalaô
e ele recomendou à mãe desesperada
fazer um ebó que agradasse às feiticeiras.
A mãe de Oxotocanxoxô sacrificou então uma galinha.
Nesse momento, Oxotocanxoxô tomou o seu ofá, seu arco,
apontou atentamente e disparou sua única flecha.
E matou a terrível ave perniciosa.
O sacrifício havia sido aceito.
As Iá Mi Oxorongá estavam apaziguadas.
O caçador recebeu honrarias e metade das riquezas do reino.
Os caçadores presos foram libertados
e todos festejaram.
Todos cantaram em louvor a Oxotocanxoxô.
O caçador Oxô ficou muito popular.
Cantavam em sua honra, chamando-o de Oxóssi,
que na língua do lugar que dizer ‘O caçador Oxô é popular’.
Desde então Oxóssi é seu nome.”

(extraído de Mitologia dos orixás, de Reginaldo Prandi)

(Redandá – Zum Zum Zum)

Manifesto da Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial

Ainda na rebarba do caso Muniz e Magnoli, reproduzo aqui o manifesto da Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial (Conajira), lido no dia do seminário na ABI, e que eu já deveria ter publicado há muito tempo e não o fiz por aquelas preguiças inexplicáveis. Ele diz muito sobre o caso, embora tenha sido escrito bem antes. O que mostra, aliás, a sua pertinência para abordar o cenário como um todo quando se trata da forma como a imprensa veicula notícias relacionadas a racismo, ações afirmativas para negros etc. Meus agradecimentos à jornalista Sandra Martins, que me enviou o texto.

*

Manifesto

“Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão: esse direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras.”
Declaração Universal dos Direitos Humanos – Artigo 19.

Nos últimos anos, segmentos importantes da sociedade brasileira vêm travando um debate que alguns consideram de suma importância para o seu próprio destino. Trata-se da discussão sobre ação afirmativa, mais precisamente sobre cotas para negros nas universidades, a qual traz embutida a questão mais ampla das relações raciais. A ação do Movimento Negro e de seus aliados em arenas-chaves como as dos partidos políticos, da academia, da mídia e do mundo sindical, alicerçada numa infinidade de dados quantitativos coletados e analisados pelos mais prestigiosos institutos de pesquisa, públicos e privados, trouxe à luz um Brasil bem diferente das representações tradicionais alicerçadas na idéia de “democracia racial”. Com base nesses dados e análises, num processo iniciado em fins de 2001, dezenas de universidades brasileiras adotaram medidas de ação afirmativa destinadas a garantir o ingresso de estudantes negros e indígenas, e também de alunos oriundos da rede pública de ensino, nas prestigiosas universidades públicas, que no Brasil são as mais importantes. Paralelamente, algumas municipalidades das regiões Sul e Sudeste instituíram cotas para negros nos concursos para o funcionalismo público, e medidas de mesmo cunho foram implantadas numa variedade de instituições, incluindo alguns ministérios e o próprio Supremo Tribunal Federal.

A discussão que a partir daí se instaurou se dá entre dois campos distintos. De um lado estão os defensores da visão tradicional de uma excepcionalidade brasileira no que se refere às questões de raça. Embora alguns deles reconheçam a existência do racismo e da discriminação no Brasil, consideram equivocadas medidas de ação afirmativa com base no conceito de “raça”, seja porque este não é mais legitimado pela biologia, seja porque utilizá-lo seria “perigoso”, podendo gerar conflitos no futuro. Para muitos deles, a desigualdade racial apontada, por exemplo, nos dados dos censos demográficos seria meramente um subproduto da desigualdade social mais ampla, aliada à herança da escravidão, sem qualquer relação com possíveis práticas discriminatórias no presente. Outro problema seria a prática de agrupar como “negros” aqueles, perante os censos demográficos, se declaram “pretos” e “pardos”, promovendo o “genocídio” metafórico desse último grupo. Há, ainda, os que enxergam, por trás da ação afirmativa, uma “conspiração” liderada por fundações norte-americanas e pelo próprio Governo dos Estados Unidos, interessados em “desestabilizar” o Brasil. Para estes, a militância negra é “impatriótica” e suas idéias, associadas ao PT – embora as primeiras medidas dessa natureza, no âmbito federal, tenham sido tomadas no Governo FHC –, nefastas à identidade nacional. Nessa linha, numa perversa inversão semântica, transformam em “racistas” aqueles que lutam contra o racismo, apresentando como “anti-racistas” quem jamais moveu uma palha para combatê-lo. Sintomaticamente, não se opõem apenas à ação afirmativa, mas a todas as outras conquistas acumuladas pelo Movimento Negro nas últimas décadas: a titulação das terras de quilombos, a implementação da Lei 10.639, que inclui a história e cultura dos africanos e afro-brasileiros nos currículos das escolas de nível fundamental e médio, e até mesmo o feriado de Zumbi dos Palmares.

numa perversa inversão semântica, transformam em “racistas” aqueles que lutam contra o racismo, apresentando como “anti-racistas” quem jamais moveu uma palha para combatê-lo

Na óptica dos proponentes da ação afirmativa, as desigualdades raciais reveladas pelas pesquisas são demasiadamente amplas, difundidas e persistentes para que se possa explicá-las exclusivamente como frutos da escravidão ou subprodutos da desigualdade social. Sua presença em qualquer recorte que se faça da sociedade brasileira (por classe social, nível educacional ou categoria profissional, por exemplo) indica que se está diante de um fenômeno que se deve, ao menos em parte, à discriminação racial amplamente relatada por pessoas que se auto-declaram “pretas” e “pardas”. A grande proximidade desses dois grupos do ponto de vista estatístico, aliada à origem africana comum, justificaria juntá-los numa só categoria, os “não-brancos” ou “negros”. Os proponentes da ação afirmativa descartam como “catastróficas” ou “apocalípticas” as previsões de “conflito racial” de seus adversários, e apontam em seu favor as experiências, consideradas bem-sucedidas, das dezenas de universidades que já adotam o sistema. Para eles, a identidade negra, ou afro-brasileira, não ameaça a identidade nacional, já que não a substitui, apenas se justapõe a ela em momentos de conflito.

Nos últimos anos, quatro abaixo-assinados foram entregues às lideranças do Congresso Brasileiro e ao Presidente do Supremo Tribunal Federal: dois contra e dois a favor dos Projetos de Lei de Cotas, que institui esse sistema em todas as universidades federais, e o Estatuto da Igualdade Racial, que inclui uma série de medidas anti-discriminatórias e de ação afirmativa para a população negra. Para além dos textos dos documentos, que buscam expor as posições dos dois grupos acima sumarizadas, o que chama a atenção é a qualidade dos signatários – de ambos os lados. Neles vemos, contra e a favor, grandes nomes da academia, da política e das artes; representantes de todas as correntes partidárias, de comunistas a liberais.

Toda essa riqueza e diversidade, no entanto, quase que desaparecem quando examinamos a cobertura que a mídia tem dedicado ao tema – bastante volumosa, especialmente nos últimos meses. Nela salta à vista a tendenciosidade da maioria de nossos veículos de comunicação, evidenciada não apenas na grande desproporção de matérias (editoriais, artigos assinados, reportagens, entrevistas, notas em colunas, cartas de leitores) desfavoráveis, mas também, de forma um pouco mais sutil, no tratamento dispensado aos proponentes e opositores da ação afirmativa. Trabalho acadêmico produzido nos primeiros anos desse debate (“Análise quali-quantitativa dos textos publicados pelo jornal O Globo sobre a política de cotas para negros nas universidades públicas”,ver Anexos) revela a profundidade desse desequilíbrio, numa proporção que chega a 8 x 1. Outra prática que enviezou a cobertura foi a fabricação de “especialistas” – acadêmicos contrários à ação afirmativa erigidos à posição de detentores da verdade absoluta sobre o tema graças unicamente à repetição de suas falas e imagens. Para isso, simplesmente seus oponentes mais qualificados são ignorados. Assim, não se ouvem as vozes de antropólogos como Otávio Velho ou Roberto da Matta ou de juristas como Fábio Konder Comparato, todos intelectuais de primeira plana favoráveis à ação afirmativa. Da mesma forma que se desconhecem as razões que fizeram o arquiteto Oscar Niemeyer, o cineasta Nelson Pereira dos Santos, os atores Wagner Moura, Thais Araújo e Lázaro Ramos a assinarem manifestos defendendo esse sistema. Teria o velho comunista se aliado aos “gringos” para solapar nossa identidade nacional? Estariam todos eles interessados em disseminar o ódio racial e impor a segregação no Brasil? Todas essas práticas, que se contrapõem aos princípios jornalísticos da objetividade e imparcialidade, foram condenadas, por exemplo, num corajoso artigo da jornalista Miriam Leitão (ver Anexos), ela própria funcionária do maior conglomerado de mídia brasileiro, e um dos maiores do mundo, useiro e vezeiro desse tipo de manipulação.

Se intelectuais de alto prestígio têm suas vozes silenciadas, anônimos alcançam instantaneamente o status de celebridades do debate público. Entidade minúscula, fundada no próprio curso do debate com a evidente finalidade de apresentar faces negras defendendo o status quo, ganhou o direito de expor sua posição contrária à ação afirmativa nos mais diversos veículos de comunicação. Apresentando-se como “anti-racialista” – em flagrante contradição com o próprio nome –, a organização ataca as cotas e propõe, como solução para o complexo problema racial brasileiro, tão-somente a melhoria da educação pública.

Na TV, a campanha anti-cotas não se restringe aos noticiários. Recentemente a TV Globo veiculou uma novela em que o personagem negro defensor dessas medidas acabava revelando-se desonesto, um jovem rico se fazendo passar por pobre para obter vantagens. Não por acaso, seu autor, Aguinaldo Silva, assinou o manifesto contrário entregue ao Presidente do STF. Conhecendo-se o poder das telenovelas brasileiras como disseminadoras de atitudes e comportamentos, consumidas como são por pessoas que sequer costumam ler jornais, pode-se imaginar o tremendo impacto dessa mensagem de propaganda sobre as mentes dos telespectadores.

Por tudo isso denunciamos essa manipulação da informação e o virtual cerceamento à liberdade de expressão promovido por uma imprensa que, ironicamente, se arvora em bastião dessa mesma liberdade, ao mesmo tempo em que exortamos a mídia brasileira a assegurar o acesso equitativo a jornalistas, intelectuais, universitários e políticos defensores de políticas públicas de ação afirmativa no Brasil, de modo a garantir o princípio elementar da democracia que exige que leitores, ouvintes e espectadores possam formar livremente a sua opinião com base na transparência e na pluralidade das fontes de informação.

– Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial (Conajira) / Fenaj (*)
– Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro do Rio de Janeiro
– Coordenadoria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da cidade do Rio de Janeiro.

(*) Formada pelas Cojiras do Rio, SP, DF, AL, BA , PB (núcleo) e Núcleo de Jornalistas Afro-Brasileiros do RS.

Lançamento do primeiro romance de Nei Lopes!

Vai perder essa? Eu estarei lá!

Mandingas


oquê, caboco!

quando chegar a um milhão, eu fecho o blog.

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