Archive for the 'samba' Category

A história negra do tango: uma metonímia

Queria eu, me@ car@ leit@r, te contar a história negra do tango. São mils as histórias de que as culturas e pessoas negras participaram, protagonizaram, e foram escondidas. Eu estou tentando desvendar um pouco disso na literatura e, embora eu tenha com a música uma curiosidade permanente e muito viva, não creio que um dia eu consiga ter uma compreensão maior sobre o assunto. Por ora, então, não te contarei a história negra do tango. Mas, veja, se isso é mau para suncê, não é para mim: das coisas que não sabemos, temos com elas um prazer mais inocente, que costuma ser também mais intenso. Este deve ser um dos motivos pelos quais, apesar de ter passado minha adolescência ouvindo música nos últimos volumes e me arrepiando todos os dias com o que de melhor eu descobria, eu jamais aprendi a tocar qualquer instrumento (tentei, é verdade, mas vamos pular essa parte) e, aos dezessete anos, decidi que queria fazer faculdade de Letras. Àquela época, creio que eu não lia nem dez romances por ano. Continuo com esse prazer autêntico quando ouço música, embora eu deva confessar que fui descobrindo outros prazeres com a literatura (mas bem diferentes).

Não, não é sobre nada disso que quero falar. Mas é que, um dia, estava eu numa mesa de bar com amigos, quando começou uma das nossas inúmeras discussões sobre música. Não lembro bem o que era, mas o tango entrou na jogada. Devíamos está naqueles papos de jovens que se acham eruditos, provavelmente falando de Piazzolla. No meio do engodo, eu soltei:

… e vocês sabem, o tango é uma música de origem negra…

Às vezes me pego com minha inocência. Só porque eu estava cercado de amigos “cultos”, sensíveis com as coisas do mundo, imaginei que isso fosse ser recebido com atenção pelos que desconheciam a informação. Qual nada!

Aaaaaaah, não fode, né, Cesar!!

Risadas daquelas bem agressivas e de deboche. Levantei a voz, argumentei que, como boa parte dos ritmos das Américas e Caribe, a etimologia do próprio nome tango é bantu, caso semelhante a samba, jongo, candombe, milonga, batuque, e assim por diante.

Ahahahaha, sei, sei…

Fiquei puto e calei. Tem certas coisas com as quais é mesmo difícil lidar. Há muitos conceitos relacionados ao campo semântico da negritude que estão absolutamente cristalizados. Muitos podem ser verdadeiros, mas certamente a maioria é mentirosa. E, independente de ser verdade ou mentira, o caso é que cristalizar é uma forma de silenciar, de tirar a dinâmica, as possibilidades de reconstrução, de releitura, em suma, de eliminar aquilo enquanto tema vivo, de valor e do qual as mentes se devem ocupar. A meu ver, é essa também uma das explicações para as reações agressivas que recebemos quando trazemos uma informação desse tipo. É chocante demais, e, no fundo, dá muito medo atribuir tanto valor à cultura negra, porque é essa inversão de valores que, então, vai fazer com que as culturas negras folclorizadas atravessem a rígida fronteira dos arcos da Lapa e Santa Teresa, e passem a mais cantos da cidade e do país como culturas que não dependem de espaços típicos, e junto com isso venha o dinheiro e o poder para a mão d@s que, com sua memória cultural, sustentam a continuação de tais manifestações – mas que raramente ganham algo com isso.

Putz, o Rafael tá pirando de novo, devem estar pensando os mesmos amigos que tanto riram.

Não sou menos amigo das pessoas que riram de mim. Eu também certamente já fiz isso com alguém, por razões outras e diversas. Não adianta ficar procurando pessoas culpadas por essa difícil situação. Acredito, sim, que é preciso ser duro, incisivo, que devemos falar, nos posicionar, brigar quando preciso. Mas não ficar acreditando que o outro tem culpa, que é o responsável. Esse tipo de coisa, para mim, transcende as pessoas. Colocar racistas na cadeia é muito importante, mas nunca vai resolver o problema do racismo, que é algo maior. O indivíduo não vai mais me chamar de macaco, mas vai continuar me preterindo para o emprego que vou disputar na empresa dele; da mesma forma que vai continuar gargalhando quando eu disser que o tango, essa música tão nobre, tem origem naqueles seres dignos de não mais do que uma senzala ou, modernamente, de um quartinho de empregada.

Mas, realmente, é muito irritante ver certas coisas que são tão óbvias para quem sofre o racismo serem relegadas ao nível do deboche por pessoas que sequer pensam sobre isso – e que, ainda assim, tornam-se a voz legitimada para falar de racismo ou cultura negra quando querem, caso dos tantos professores doutores das universidades e midiáticos que nunca tiveram produção sobre o tema, nenhum tipo de reflexão mais aprofundada, mas que, ao imprimirem livros com seus nomes e darem entrevistas na televisão com base em seus compadrios, têm suas opiniões automaticamente alçadas ao nível da verdade. Aquela mesa de bar, de certa forma, foi um micro-universo disso.

Dou um exemplo sobre o qual eu acabei não escrevendo mais extensamente, embora merecesse, e muito. Lembram do Andrade, ex-jogador e ex-técnico do Mengão? O cara era o eterno tapa-buracos de técnicos do time. Sempre quebrava os galhos quando ficava naquela entressafra de técnicos, e nunca davam chance pra ele. Vinham as piores tralhas para treinar o time, pelos salários mais altos, e nunca que davam uma chance pro Andrade. O Cuca (puta que o pariu, o CUCA) não arrumava nada com a gente (só Estadual, mas Estadual não conta, porque o Mengão ganha até sem técnico) e voltava pra lá, com seus olhos azulzíssimos, signo de sabedoria e conhecimento, pra não arrumar nada de novo. (Ele chegou a colocar o Andrade pra formar barreira num dia de treinamento, sabia disso? Você acha que ele faria isso com o Zico? Você acha que isso é coisa que se faça com um jogador que está no panteão do clube, que levou três títulos brasileiros, uma Libertadores e um Mundial? Se o ex-jogador for negro, pelo visto, pode fazer.) A gente que está ligado nessa parada toda, porque pensa a questão sempre – diferente, repito, dos professores doutores e midiáticos que não têm qualquer estrada no assunto, e começaram a falar sobre ele porque virou tema da ordem do dia -, já tinha relacionado essa dificuldade de firmar o Andrade como técnico com o fato de que o Brasil não tem técnicos negros, apesar de quase todos os técnicos serem ex-jogadores de futebol, dos quais pelo menos a metade devem ser negros; e relacionamos também com a nossa percepção de que o samba é tido como bagunça e que a sinfonia é séria. Não entendeu essa última parte? Lembra da metonímia? Negro é ação, é trabalho, é músculo, é folclore. E branco é ordem, é razão, é pensamento, é seriedade. Por isso não se pode colocar negros no comando de times (em comando de nada, na verdade), e por isso o Andrade não podia ser técnico do Mengão.

Isso era algo muito claro para mim e para tantos que estão atentos à questão. E, confesso, eu nunca tinha falado isso fora do circuito de pessoas em que eu confiava demais, e que confiavam na minha percepção (independente de serem negras, entenda-se). E por que eu nunca tinha dito? Por causa da experiência do dia em que falei do tango (como metonímina, uma vez mais, para tantas outras experiências do tipo). Se eu falasse, já conhecia a reação típica.

Porra, que preto mala! Essa crioulada tem uma mania de perseguição sem fim!!

Mas o problema maior é que, passada essa história toda, ainda assim a postura não muda. O Rogério Lourenço, atual técnico do Flamengo, foi efetivado depois da primeira experiência como interino (em menos de vinte dias), sem ter nem de longe a estrada que o Andrade tinha (tanto dentro como fora do Flamengo). O cara foi efetivado, aliás, no meio de uma LIBERTADORES. Vou repetir: o Andrade foi demitido e o cara foi colocado no lugar dele no meio de uma LI-BER-TA-DO-RES, o campeonato mais importante que um clube brasileiro pode disputar. Se eu disser que uma situação dessas muito dificilmente seria confiada ao Rogério Lourenço se ele fosse um homem negro, sabe o que vão dizer?

(ctrl c+ ctrl v) –> Porra, que preto mala! Essa crioulada tem uma mania de perseguição sem fim!!

Assim é. E da mesma forma que somos rotulados de paranoicos, também somos ironizados quando trazemos informações que fazem desconfiar do senso comum de que o Ocidente fez toda a história das Américas e do mundo, restando aos negros não mais do que um punhado de folclores com os quais todos nos divertimos nos momentos de descontração.

Tá bom, seu preto mala! Mas o que isso tem a ver com a história negra do tango?

Nada tão específico. Era só uma metonímia para a questão toda. É tudo metonímia, você ainda não entendeu isso?

Ah, e é claro, assim como eu queria muito ter esfregado na cara de tanta gente quando saiu na imprensa integrantes do Flamengo dizendo que o Andrade nunca tinha sido colocado como técnico porque era negro, e que isso já tinha sido dito explicitamente dentro do clube – o que é óbvio para quem passa pela questão e pensa sobre ela -, eu também queria esfregar esta notícia na cara dos meus amiguinhos. Não por vingança, mas para que eles aprendam a ouvir um pouquinho.

Ah, confessa, Rafael!

Tá, confesso: um pouco por vingança, também. Eu sou humano, pô!

E será que, assim como no caso Andrade, meus amiguinhos (“meus amiguinhos” como metonímia, gente, entendam bem!) também vão manter aquela postura?

Pedro Figari

Pedro Figari pinta uma cena de candombe, ritmo afro-uruguaio: não é tango, mas serve como metonímia.

E nos 122 anos da Abolição…

Querid@s leitor@s,

Há tempos não dou as caras por aqui. A coisa anda complicada com o mestrado e, ainda por cima, eu tenho um grande defeito chamado preguiça, que às vezes atravanca não apenas o blog, mas a minha vida como um todo. Tenho pilhas de posts rascunhados, pensados e não sei mais o quê, mas escritos, como vocês podem ver (ou melhor, não podem ver) – nada. Vou tentar retomar essa carroça já nos próximos dias, agora que as coisas estão um pouco mais calmas do lado de cá.

E vamos voltando com calma, no sapatinho, que nem atleta depois de muito tempo sem jogar. Tem que ganhar a forma física de novo, e principalmente ritmo de jogo, que é o que está me faltando. Não vou escrever nada hoje, mas é um dia que eu não poderia deixar passar em branco. 13 de maio, dia da Abolição (122 anos, e ela ainda é bem capenga, convenhamos; há os que defendam que ela é inconlusa, do que não posso discordar) e dia d@s pret@s-velh@s.

Ofereço, então, um roteiro da Abolição através de sambas-enredo que cantaram o tema desde a escravidão, chegando ao 13 de maio de 1888, e também aos tempos seguintes. Não tenho muita coisa aqui, e selecionei os que considero mais bonitos. Quem quiser contribuir, me diga a música que depois coloco aqui pra tocar também.

Kuatiça o ngoma, minha gente!!! Ngoma yotééééé!!!!

Nei Lopes – A epopeia de Zumbi

Martinho da Vila – Chico Rei

Mestre Marçal – Sublime pergaminho

Mestre Marçal – Heróis da liberdade

Nei Lopes e Wilson Moreira – Noventa anos de Abolição

Três observações, pra terminar:

Primeiro, acho muitíssimo interessante o fato de se ter estabelecido, dentro da tradição popular, o dia da Abolição como o dia d@s pret@s-velh@s. Alguém tem a genealogia disso, sabe de onde vem? Não creio que seja coincidência, nem que fosse algo anterior à Abolição. Existem estudos ou histórias da nossa oralidade dentro dos terreiros sobre isso? Queria entender isso melhor porque, para mim, é indicativo de que a sabedoria desses mais-velhos deve ter tido papel fundamental dentro das comunidades de escravos para a luta pela Abolição (embora, ao contrário, @s velh@s sejam representados comumente como mansos, de certa forma submissos, como aparece na figura de Pai João). Ou estou falando bobagem?

Segundo, não coloquei os autores dos sambas-enredo, e sim seus intérpretes, porque não sabia de todos, enfim, achei melhor não colocar de nenhum. O que não faz muito sentido, mas eu sou assim mesmo.

Terceiro, quem souber interpretar a letra de “Heróis da liberdade”, cuja melodia é uma das mais bonitas que conheço de sambas-enredo, por favor, escreva aí. Eu acho um mistério. Vai ser tema do meu pós-doutorado, um dia, porque realmente é um mistério para mim. Essa, aliás, acho que é do Silas de Oliveira com mais alguém (Dona Ivone Lara?).

Glória Bomfim tem seus santos e orixás e não precisa da ex-patroa

Glória Bomfim é uma das descobertas musicais mais interessantes que tive o prazer de ouvir nos últimos tempos. Foi-me apresentada por uma amiga há um ou dois anos atrás, e já andei ouvindo suas músicas em recentes idas a rodas de samba, o que me dá muita alegria.

Até agora o único CD de Glória, Santo e orixá tem todo o seu repertório composto por músicas inéditas de Paulo Cesar Pinheiro, que dispensa apresentações. As letras que versam neste disco são relacionadas ao universo litúrgico afro-brasileiro, e que não poderiam ter uma intérprete melhor do que Glória, já que ela, além de grande cantora, é mãe-de-santo.

O mais curioso da história toda, entretanto, é que Glória foi empregada doméstica de Paulo César Pinheiro. Um dia, não podendo mais ignorar o grande talento de Glória a cantarolar pela sua casa todos os dias, Paulo Cesar Pinheiro e sua mulher, a cavaquinista Luciana Rabello, decidiram produzir um disco dela.

Ouça abaixo a faixa “Gameleira branca” e vá correndo comprar o disco. Mas, antes de ir à sua loja favorita, termine de ler este post, que começa feliz, mas não pode se furtar a denunciar um texto que a senhora Luciana Rabello escreveu sobre sua ex-empregada.

Vejam só que gracinha. Estou colocando apenas os trechos que me chamaram a atenção. O texto completo está no myspace da Glória, assinado pela ex-patroa, pra quem tiver estômago:

(E eu me pergunto, desde já, como pode Paulo César Pinheiro, conhecedor e divulgador do mais fino corte das nossas tradições, se omitir ante essa obra-prima de sua esposa?)

A Yalorixá Glória Bomfim é uma das mais expressivas e autênticas vozes que conheço. Seu canto primitivo, forte, verdadeiro, despretensioso e absolutamente intuitivo é um diamante bruto que representa, de forma emocionada, a cultura dos terreiros de candomblé, trazida pelos negros africanos e mantida aqui pelos mestiços brasileiros. Resolvi registrar o que ouvi, cumprindo tanto quanto possível o papel de repórter, interferindo minimamente e apenas quando necessário.

Começamos bem. Canto “primitivo, forte, verdadeiro, despretensioso e absolutamente intuitivo“, eu gostaria de crer que fosse uma piada de mau gosto. Mas não: essa senhora realmente coloca todo lindo trabalho de Glória na conta de uma coisa mística e dentro de uma mentalidade pré-lógica, que não pensa, só sente, como é comum entre os negros. O seu “papel de repórter” só me faz lembrar um antropólogo inglês, pena à mão, anotando cada movimento de selvagens africanos em seu habitat – e, para não haver distorções, “interferindo minimamente e apenas quando necessário“.

Luciana então fala do processo de gravação do disco, em que fez questão de chamar profissionais que conheciam e respeitavam a linguagem do candomblé, querendo enfatizar todo o seu respeito por essa manifestação folclórica de que Glória é guardiã, já que esta “tinha cultura, ancestralidade”. (Não se engane: essa “cultura”, definitivamente, não é “conhecimento”, mas sim aquela ideia de “ser da raiz”.) Diz também que os tais músicos “já admiravam a Glória das rodas na minha casa”. Aqui entra algo bastante sutil, mas não menos cruel. Não sei como era a relação das duas em casa, mas consigo visualizar, claramente, a cena dos músicos populares da alta classe média carioca sendo servidos por Glória Bomfim (que também terá preparado os quitutes oferecidos por Luciana Rabello) e, a cada meia hora, chamando-a da cozinha para cantar junto.

Sabe qual é a questão? Vai saber se a Glória Bomfim estava mesmo a fim e à vontade de cantar com aquelas pessoas. Pode ser que estivesse? Sim. Mas pode ser também que, por várias vezes, ficasse cansada de ser o mico de circo que anima a plateia, como qualquer artista. E com uma diferença: qual a margem que ela teria de dizer “Dona Luciana, hoje não quero, não estou a fim. Vou ficar no meu quartinho de dois metros quadrados, assistindo à minha televisão de cinco polegadas. Quando a senhora precisar de alguma coisa, grita”? Quase nenhuma, evidentemente. Até porque Luciana não entenderia como Glória não iria querer estar com ela, sendo uma patroa tão boa.

E já que Luciana fala da ancestralidade de Glória nesse texto, deixa eu falar um pouco da ancestralidade da própria Luciana. Talvez ela não saiba, mas está repetindo o velho hábito que seus antepassados senhores de terra tinham de ir à senzala com seus convidados e mandar os negros cantarem os folguedos, jongos, sambas para diverti-los. Isso era comuníssimo, e ai do escravo que não quisesse participar do pocket show. Wilson Moreira e Nei Lopes já cantaram em “Candongueiro”, mas Luciana, mesmo atenta e sensível ao mundo do samba, não percebeu: “Meu candongueiro / bate jongo dia e noite / só não bate quando o açoite / quer mandar ele bater / também não bate / quando o seu dinheiro manda / isso aqui não é quitanda / pra pagar e receber”.

(Quando falo dos antepassados de Luciana Rabello, não afirmo que estes tenham sido senhores de escravos, mas remeto a um espaço simbólico do qual ela é herdeira socialmente falando, já que desfruta dos privilégios de ser branca por conta do passado da escravidão e do racismo que é presente – além de repetir os costumes que são tradicionalmente passados adiante nesse contexto.)

Mas isso ainda não é nada. A autora da pérola do colar de pérolas passa então à história de Glória desde seus tempos de menina em Areal, interior da Bahia, quando já cantava nas festas de sua cidade, acompanhada de violeiros e sempre em cima de um caixote, já que tinha apenas 8 anos e era pequenina. A música principal de seu repertório, curiosamente, já era uma valsa de Paulo César Pinheiro. Mas aí – prestem atenção -, assim Luciana arremata esta passagem da vida de Glória Bomfim:

A partir daqueles dias, a menininha começa a sonhar em ser cantora de verdade. Mas a valsa e tudo aquilo ficaria pra trás quando, acreditando em falsas promessas de estudo e de um futuro melhor, Domingas entrega a filha aos cuidados de uma senhora. No lugar de cartilha, a menina recebeu uma colher-de-pau e o trabalho doméstico não remunerado. Voltou a subir em tamboretes, agora não mais pra cantar, mas pra alcançar o fogão e a pia. Acabou se tornando uma cozinheira de mão cheia!

Que coisa maravilhosa, gente! Quem diria que, apesar de tanto sacrifício e injustiças que sofreu, Glória teria a dádiva de se tornar uma cozinheira de mão cheia e poder cozinhar para a dona Luciana Rabello? Você pode imaginar alegria maior na vida de uma mulher?

Glória trabalhava sempre cantando. Desde a primeira vez que a ouvi, já senti o que estava ali. Voz rascante e afinada, com volume impressionante, precisão rítmica admirável. […] O repertório era irretocável. Comecei a reparar também que Paulo César Pinheiro, o dono da casa, era o compositor mais constante […] Um dia daqueles, ainda sem conhecer sua história, passei pela cozinha enquanto ela cantava Viagem, e brincando, insinuei que ela estaria puxando o saco do patrão. Ela se assustou, me pegou pelo braço e me fez sentar pra explicar. Eu falei que aquela música era do Paulinho, ora! Com os olhos cheios dágua, ela me disse não acreditar que alguém inventasse música e, menos ainda, que estivesse trabalhando na casa do criador daquela, que a acompanhava desde criança. Eram dois fenômenos: Glória achava que músicas não eram feitas, mas que apenas existiam como as cantigas de santo do candomblé. E não imaginava, absolutamente, que estava há quatro anos convivendo com o autor da sua maior lembrança! Claro que esse trabalho que apresento era inevitável. E vocês vão concordar!

Pois é, senhoras e senhores. A Glória Bomfim, como uma boa negra selvagem que não entende como o mundo moderno ocidental funciona, porque está presa à sua ancestralidade tradicional africana e sem qualquer capacidade de diálogo e observação do mundo à sua volta, simplesmente não sabia que pessoas compunham músicas!! Que coisa incrível, não é mesmo?

Agora, falando sério: mesmo que esse absurdo fosse verdade, tem necessidade de expor a Glória Bomfim como se fosse um índio numa jaula na Paris do século 19 16, falando de seus costumes bárbaros e capacidade intelectual inferior (restando-lhe a pujança emocional, e grande vigor físico e dotes culinários)?

E veja que é Luciana Rabello quem “apresenta” o trabalho de Glória Bomfim, sem dar qualquer crédito à cantora, estrela maior disso tudo. Mas justifica-se: Luciana, percebendo o “diamante bruto” que tinha em mãos, como citado no primeiro trecho, com toda a sua intelectualidade soube guiar aquele potencial desprovido de razão para o caminho das luzes, de modo a transformá-lo em algo factível e de verdadeiro valor artístico. É uma ourives de mão cheia esta senhora chamada Luciana Rabello! Ainda bem que Glória Bomfim teve a felicidade de encontrar uma patroa tão compreensiva, paciente e, sobretudo, com o mesmo bom coração dos senhores que decidiram, da noite para o dia, libertar os seus escravos num arroubo do mais puro sentimento cristão de misericórdia.

Não sei se hoje eu acordei de mau humor, mas isso pra mim é caso de polícia.

glória e luciana

Lembrando o post do Arlindo

Lembram-se do post sobre o DVD do Arlindo Cruz, em que eu observava uma constante tentativa de valorizar o samba a partir de uma desafricanização de suas formas?

Vejam só esse trecho de uma matéria que saiu n’O Globo, que nem era sobre isso (era sobre o Jorge Aragão ter feito sociedade com uma casa de shows), mas cujas primeiras linhas batem um bom papo com o que eu escrevi a partir do Arlindo. Encontrei num jornal velho (eu tenho mania de ler jornal que está no chão quando vou recolher), mas o assunto é do momento. Começa assim:

A Lapa é conhecida por não abrigar muito bem o samba com pegada da turma do Cacique de Ramos. Beth Carvalho já reclamou disso. Mart’nália, pasmem, já foi advertida por tocar o pandeiro com o vigor de quem foi criada nas rodas de partido-alto.
(O Globo, 25/09/09, p. 5, matéria de João Pimentel.)

As repressões sobre quaisquer signos que levantem com muito evidência suas raízes africanas ou o seu forte vínculo com as comunidades negras acontecem com bastante frequência. Isso mostra que o racismo vai muito além da pele, e tem como missão sabotar todo um patrimônio (que, não coincidentemente, é transmitido principalmente por pessoas negras, embora não apenas por elas).

O Nei Lopes também conta uma boa, que li numa entrevista: ele estava numa festa no Madureira Tênis Clube, isso lá pelos anos 50, quando foi chamado a atenção por um diretor do clube porque estava dançando gafieira, e teve que parar. Esse caso do Nei aconteceu pelas mesmas razões que, no início do século, o samba, a capoeira e a macumba foram oficialmente perseguidos; o caso da Mart’nália, no século 21, é a mesma situação; a ideia de que funk não é música, bem como as restrições aos bailes pelo poder público, idem; e essa lista tem potencial pra seguir ad infinitum.

Por quê? Porque é tudo coisa de preto, vagabundo, marginal, de gente que não teve educação, que não sabe se comportar, apreciar a boa arte etc etc etc.

Prontofalei.

E, pra quem gostou, beijomeliga.

Preconceito, de Orlando Silva

Interpretação: Roberto Ribeiro

E aí? Querem entrar com a discussão de gênero dentro da questão racial? Eu topo.

Arlindo chuta o ‘sambinha’ pra lá e deixa a macumba no lugar

Recomendo, com muita alegria, o DVD Arlindo Cruz ao vivo MTV, apesar de já haver alguns meses desde o lançamento. Deixo aqui algumas razões, jogo rápido, do porquê. São elas, claro, que interessam, porque eu não ganho nada anunciando o DVD dele, e ele também não ganharia nada se anunciasse aqui. Mas se você chegar ao fim desse texto, ouve de brinde duas músicas do show gravado em São Paulo.

O Arlindo é um músico que parece fazer tudo direitinho para os seus orixás e ancestrais, porque a carreira dele dá certo-certo, a cada dia mais, e que conseguiu fazer isso de um jeito bastante raro: sem abrir mão das suas convicções do que é o bom samba. Vá lá, é claro, ele faz umas músicas meio chiclete de vez em quando, que agridem o humor dos mais sensíveis, pra vender mais CDs e shows, mas jamais desce ao nível daquilo que deixa de ser samba pra virar aqueles amorfismos sem muita referência, a que chamam por aí de música romântica. Não passa nem perto desse tipo de coisa.

Arlindo Cruz MTV

O cara tem cacife para isso, é certo. Construiu uma história a partir do Fundo de Quintal; fez dupla com o Sombrinha; e depois se lançou em carreira solo, garantindo pra si uma fatia que o mercado prefere reservar para alguns ícones aqui e ali, em vez de expandi-la. São poucos os que conseguem conquistar esse espaço, e os que conseguem é porque têm muito talento. Não é nada fácil gravar um DVD em que fala de macumba, mostra as guias e os santos, toca pontos de umbanda e sambas lá meio traçados num Brasil tão fortemente marcado pelo cristianismo, do neo-pentecostal-carismático-caçador-de-níqueis-intolerante ao católico-não-praticante. Porque o empresariado, conservador do jeito que é, não lança nas rádios grupos de pagode que queiram buscar, como faz Arlindo, as profundas raízes africanas de sua música. Pelo contrário, há sempre um afastamento, uma suavizada na batida, uma perda na ginga, arranjos bem pop (tecladinho, guitarra, tchururu…), e o total veto a temas afins, da religião à culinária. Porque essas coisas de preto não costumam pegar muito bem.

Acho que, hoje, da galera que realmente vende disco pra cacete, só quem consegue botar a banca de não se distanciar tanto, ou mesmo se aproximar das africanidades, são Arlindo, Zeca e Revelação (talvez o Exaltasamba, mas só por causa do Péricles, que às vezes puxa pro lado negro da força).

Essa “desafricanização” a que me refiro não é algo exclusivo dos músicos cujo público maior são pessoas que não frequentaram as universidades ou os melhores bancos escolares, porque o racismo é algo estrutural em nossa sociedade, e se manifesta de diferentes formas, a depender do contexto. E é assim que a nossa classe média ilustrada torce os ouvidos quando toca aquele baticum bolado de roda de samba pegada – e aí prefere o “sambinha”, aquela coisa pouca tipo Casuarina, que tem medo de bater firme no tambor e fazer curva com o som. Ou, então, o choro. Não vou teorizar muito porque conheço quase nada de choro. Mas, todas as vezes em que fui a rodas de choro – cujos músicos, normalmente, mesmo tocando música popular, têm aquele quê erudito que lhes mune de grande técnica e vasto preconceito – me incomodavam aquele pandeiro sem ginga e aqueles cavacos que se recusavam a imprimir ritmo à música, por exemplo. E justamente a uma música que nasceu junto às rodas de samba. Não é que eles sejam obrigados a fazer isso. Mas é só que eu nunca vi, não mesmo. Você já ouviu um choro tocado assim, por exemplo?

Arlindo Cruz, Sombrinha, Almir Guineto, Zeca Pagodinho – Trecho de “Estrela da paz (ao vivo)”

Com essa pegada, é raro, viu?

Só para baixar o nível de revolta que se instaurou nessa casa, gostaria de dizer que não acho ruim o samba assumir outras faces, dialogar com outras tradições. Não é ruim o fato de existirem grupos como Arranco de Varsóvia, que faz um samba com vocalises etc., ou as tantas canções da bossa nova, muito rica enquanto uma variação de samba, com tanta história e bons compositores. O que é duro de aturar é o maior valor artístico atribuído a esses formatos “desafricanizados” de choro ou samba, ou o maior valor mercadológico que se conferem aos sambas “desafricanizados” dos grupos de pagode romântico.

Não discuto aqui se os estilos mencionados são piores ou melhores entre si, ou em comparação aos sambas dos bambas. Mas afirmo sem medo que a postura de agregar valor às suas músicas – dentre outras estratégias estéticas, muitas das quais positivas, certamente – através desse distanciamento de África só faz flagrar que a consciência racista está presente das favelas mais pobres ao eixo Morumbi-Leblon. E, desse ponto de vista, os pagodes com teclado do povão e os sambinhas sem repique de Ipanema, pra mim, vão pro mesmo saco.

(Se você quer saber mais sobre esse assunto, das raízes à sua perda, recomendo o artigo “A presença africana na música popular brasileira”, do Nei Lopes, que trata de tudo com aprofundamento histórico, conhecimento técnico e de causa.)

Por fim – agora vai, quebra tudo, Arlindo!–, vamos ouvir o que acontece quando, numa combinação rara, dificílima no Brasil, um homem negro, sambista, ganha muito dinheiro fazendo o samba como acredita que ele deve ser, e se propõe a colocar em seu samba um bom saxofone soprano, aquele signo de jazz, de choro, do clássico, do mais puro refinamento dos ouvidos delicados.

Arlindo Cruz ao vivo MTV – Ainda é tempo pra ser feliz (sax soprano: Dirceu Leite)

E, por último, o que esse mesmo homem negro, sambista, rico, faz ao usar da grana que tem para mergulhar mais e mais nas suas raízes, produzindo um conjunto completo de samba, com os melhores instrumentos e as melhores referências em termos de tradições do samba – pra tocar samba.

Arlindo Cruz ao vivo MTV – Dora/Samba de Arerê

Porque aqui no meujazz é só sambão, camarada!

Atualização

O termo “eixo Morumbi-Leblon” foi cunhado (ou, ao menos, divulgado) por Idelber Avelar, do saudosíssimo O Biscoito Fino e a Massa.


oquê, caboco!

quando chegar a um milhão, eu fecho o blog.

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