Arquivo para setembro \29\UTC 2009

Preconceito, de Orlando Silva

Interpretação: Roberto Ribeiro

E aí? Querem entrar com a discussão de gênero dentro da questão racial? Eu topo.

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O pedaço estrategicamente omitido de “Ngola Kiluanje” (conheça-o agora!)

Eu escrevi aqui um post, há pouco tempo, falando que considerava um absurdo essa atitude de jogar sobre os grupos que sofrem os mais diversos tipos de discriminação o ônus de eliminar as discriminações sofridas por outros grupos (no caso, usei o exemplo das pessoas que falavam mal das ações afirmativas pró-negros que não incluem os índios, depositando a culpa da exclusão dos índios no Brasil sobre os movimentos negros). Essa responsabilidade moral que inventam é algo impensável na minha cabeça, pois já estamos bem grandinhos para saber que não há santos querendo fazer um mundo perfeito, mas sim pessoas que estão lutando por suas visões políticas e seus espaços de poder. Não poderia ser mais legítimo.

É claro que, quando você assume um discurso anti-discriminação, pode reforçar politicamente a sua postura apoiando outros grupos discriminados. É legitimador, é bacana, faz muito sentido. É até um caminho natural, porque, ao pensar e expor as suas questões, você acaba se sensibilizando em relação à discriminação sofrida por outro. Mas daí a ter de se tornar um ser humano perfeito, e sem falhas éticas, defensor dos frascos e comprimidos 24 horas por dia, ou ter quaisquer obrigações nesse sentido, há um abismo.

O mais terrível é que quando impõem aos grupos discriminados essa responsabilidade de levantar todas as bandeiras do mundo (“se você é militante da questão racial, então tem que ser vegetariano e respeitar os animais”; coisas do tipo), automaticamente tiram do grupo beneficiário da discrminação a sua parcela de responsabilidade sobre a discriminação (os brancos não são necessariamente racistas, mas são necessariamente beneficiados pela discriminação contra negros).

Então, surgem frases do tipo:

No Brasil, os mais racistas são os negros.

Isso é um mito que inventaram e, ao que parece, pegou mesmo. Eu ouço isso a torto e a direito por aí quando surgem discussões sobre racismo. Essa assertiva canalha costuma surgir quando estamos discutindo a existência do racismo no Brasil. Não raro surge alguém dotado de muita má fé (mesmo que a pessoa não perceba, é má fé, sim) que lança essa frase como forma de se liberar da responsabilidade do racismo.

O caso é que, sem dúvida, existem muitos negros racistas. Até porque o problema não são as pessoas racistas, mas os racismos que atravessam a nossa cultura, e que portanto podem fazer algozes tanto brancos como negros. Mas, meu Deus do céu, o fato de haver negros racistas – ou, melhor dizendo, negros que reproduzem racismo – não pode, de maneira nenhuma, avalizar um branco a ser racista. Era só o que me faltava. Então eu, que sou homem, posso dar porrada em mulher porque há muitas mulheres por aí que acreditam que os homens têm direitos de violência sobre as mulheres. É isso?

Pelo contrário: acho sempre que se percebemos que as vítimas começam a reproduzir o ideário que as prejudica, é porque estamos num ponto bastante complicado da questão. Assim, quando vejo uma pessoa negra reproduzir estereótipos racistas que colocaram na sua cabeça, meu alarme dispara, porque sei que o racismo já foi longe demais. E que, portanto, é mais do que hora de todo mundo entrar nessa luta e perceber que não pode mais, de forma alguma, continuar com isso, sejam brancos ou sejam negros. Isso é sinal de que a luta tem que se intensificar, todos têm que entrar nela com mais força, e não pular fora convenientemente. Até porque, um dia, essa bomba explode – e vai sobrar pra todo mundo.

Remeto agora a outro post, em que citei um trecho do conto “Ngola Kiluanje”, do angolano João Melo. Caso não se lembrem, é aquele em que as relações raciais de Angola são discutidas a partir do envolvimento de um homem angolano branco com uma mulher negra militante carioca (a narração é do homem):

Mas quando lhe revelei, dias depois, a conversa que tinha tido com o meu pai, ela contou-me que, tempos atrás, conhecera um escritor angolano branco que tinha vindo ao Rio participar num simpósio sobre literatura africana em língua portuguesa e que, quando questionado por um militante do Movimento Negro sobre o facto de Angola ter enviado um branco para essa reunião, teve uma resposta de que ela jamais se esqueceu:

– Meus senhores, se pensam que vou pedir desculpas por ser branco, estão muito enganados!… (Filhos da pátria, p. 114.)

Lembrou? Muito bem. À altura daquele post, acabei usando esse trecho apenas como introdução para levantar alguns pontos que eu considerava esquisitos sobre as relações raciais por detrás da produção literária nos países africanos lusófonos. E tive que deixar de fora, para uma oportunidade breve (que chegou!), a continuação desse mesmo trecho – que, para mim, é revelador da mentalidade que estou denunciando e criticando agora. Veja só:

Sentindo-se instigada por essa resposta, a Jussara aproimou-se do referido escritor e teve com ele longos papos, sobre Angola, o Brasil, as contradições raciais existentes em ambos os países e no mundo em geral, os preconceitos, os estereótipos e, principalmente, sobre esse profundo e terrível paradoxo, próprio do ser humano, que faz com que antigos humilhados seja, assim que o podem, irremediavelmente tentados a humilhar todos aqueles que identificam, acertadamente ou não, como os seus velhos opressores. “Todas as generalizações são fascistas”, dizia ele. Sonhava esse escritor que os oprimidos (todos eles, os negros, os pobres, as mulheres…) seriam capazes, um dia, de criar realmente um novo projecto civilizacional, de plena igualdade e liberdade, e não apenas de mudar a cor ou o sinal da opressão. Teorizava ele: — “A verdade é que, agora, os oprimidos apenas têm macaqueado os opressores! Por exemplo, nós, africanos, estamos muito revoltados e inquietos por causa das tendências xenófobas que se registam agora na Europa, mas o que acontece é que repetimos essas mesmas tendências nos nossos próprios países, pois somos incapazes de propor ao mundo uma nova civilização, mais huamana…”

A Jussara já não precisava de me dizer mais nada. Eu entendi tudo, até mesmo o que estava expresso no chamado infratexto. (Filhos da pátria, p. 115)

Vamos combinar que a África já tem problemas suficientes para resolver internamente, e os africanos não os criaram sozinhos (embora paguem sozinhos por ele). Mas, ainda por cima, agora têm que propor um novo modelo de mundo? Sinceramente, acho um pouco demais.

A escolha das palavras também se mostra de uma fragilidade ética enorme, a meu ver. Quando o narrador diz que os africanos são incapazes de propor um novo mundo, está colocando nas entrelinhas, também, que “já que a África não propõe um mundo lindo e perfeito, então tudo bem detonar os africanos; eles fariam o mesmo conosco se nos tivessem colonizado, então é mais que merecido”. Exatamento o que faz o indivíduo que explora a ideia estapafúrdia de que o negro é o mais racista. O ideário é o mesmo, e se manifesta em várias escalas e situações possíveis.

(Por último, eu preferiria acreditar que esse “infratexto” de que ele fala ao fim seria a crítica nas entrelinhas, justamente essa que estou fazendo. Confesso que não entendi o que é o infratexto nessa passagem, mas não acredito que seja a crítica, porque não me passa nada de irônico – a única coisa que poderia me levar à ideia de que ele faz uma crítica, e não vejo isso.)

Sem desenhos desta vez. Você entendeu o que eu escrevi, estou certo disso, e não vai mais repetir essa frase feia.

E vou dormir, que está tarde, e amanhã tenho mais racismos para combater – os meus, os seus, os nossos.

O debate racial nas literaturas africanas de língua portuguesa (parte 2)

O tema a que ora chamo atenção não é visto a partir dos enredos e representações nas literaturas em questão, mas sim pela parte de trás dos panos: seus autores, “condições de produção” etc. Em algum momento, espero, vou tratar a questão mais literariamente – só que, aí, se eu fizer uma coisa legal, o texto deve ir para alguma revista acadêmica, e não pro blog. Esperemos, até porque, por agora, imagino que o assunto já esteja saturando os meus três leitores.

Na verdade, é até difícil debater a questão racial nessas literaturas porque ocorre bem menos do que, me parece, deveria. Ela aparece, é verdade, como já falei, e não é raro – só é menos frequente do que, creio, seria se houvesse mais autores pretos levantando suas questões. E é justamente a ausência do debate que está me motivando a levantar o tema. O vazio também é indicador de algo.

É preciso considerar também, sempre (coisa que não fiz na primeira parte), as especificidades de cada país. É completamente diferente falar de racismo em Angola, onde quase todo mundo é preto, e Cabo Verde, onde a população é bem mulata. Certamente há questões raciais em Cabo Verde, mas os paradigmas devem ser diferentes. O mesmo posso dizer de Moçambique, em que a presença árabe e indiana é muito forte (e, pelo menos a árabe, bem anterior à europeia), o que também muda bastante coisa. Até por isso tudo, acabei falando um pouco mais de Angola, embora o título dos posts remeta à literaturas africanas de língua portuguesa como um todo. E nem mencionei São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, cujos contextos são quase totalmente desconhecidos por mim (e cujas literaturas conheço bem pouco, também).

Mas, então, vamos completar o raciocínio iniciado na parte 1 dessa gororoba.

Já indiquei aqueles autores angolanos que considero serem os mais conhecidos e importantes (não necessariamente os melhores, é preciso que fique clara essa diferença; sem bem que já está clara demais, tem é que escurecer) e, como vimos, dos 9, apenas 2 são pretos. Sabemos, evidentemente, que a prerrogativa da literatura é sempre de uma elite cultural e que, portanto, não se pode achar que é representativa do pensamento do “povo”, ou, no caso africano, da tal “África profunda”, essas coisas. Não tenho essa preocupação, posto que seria infantil iniciar essa discussão aqui. Pópilas, mas é que parece-me especialmente contraditório que os caminhos da literatura de um país africano sejam ditados majoritariamente por autores brancos e mulatos (e nenhuma mulher, como já indiquei, também). Num contexto de busca e afirmação de identidades, tão necessário e quase inevitável a países que, como tantos, lutam pela libertação simbólica do processo de colonização, é algo que gera uma situação complicada, a meu ver.

A contexto todo torna-se ainda mais complexo ao se estender para além do público leitor africano. As universidades mundo afora – e, aqui, falo a partir de Brasil, obviamente, que tem os melhores programas de literaturas africanas lusófonas, provavelmente -, ao não verem isto como um problema, acabam alimentando e legitimando – talvez o problema maior esteja aí – o fato dado como algo natural. Fiz recentemente um curso muito bom que, de saída, já tinha algo especial que era trabalhar o amor, erotismo e outros sentimentos nas literaturas de Angola e Moçambique, abordagem bem incomum para literaturas africanas (normalmente fica naquela tecla, que eu mesmo toquei aqui, de identidade, guerra, afirmação, o que às vezes limita a humanidade dos africanos e suas literaturas). Dos autores que estudamos, entretanto, não havia UM preto. A crítica era toda branca-europeia, branca-norte-americana e branca-sul-americana, e os escritores eram Pepetela, Mia Couto, Ondjaki, João Paulo Borges Coelho, Agualusa. No meio do curso surgiram outros, mas manteve-se em zero o número de autores pretos.

Não estou fazendo uma crítica à escolha dos autores em si, já que estes contemplavam a bela ementa proposta pela professora. Mas, vou repetir pela última vez (era só para dar um exemplo do ambiente aadêmico), estamos falando de África sem ler africanos, grosso modo. É claro que todos esses autores são, sim, africanos – mas nenhum carrega consigo, como um africano preto carrega, a experiência de ser enquadrado, indubitavelmente, como africano, e conhecer todas as consequências positivas e negativas deste fato. Digamos que estes são homens do mundo que falam a partir de África?

O Mia Couto, por exemplo, já disse numa entrevista que sofre discriminação por, costumeiramente, não ser considerado africano dentro do país em que nasceu, pelo qual luta e o qual ama. Isso é ruim, evidentemente, mas é preciso sempre contextualizar o motivo de tal discriminação. Será que haveria essa resistência a um escritor tão incrível como ele se houvesse um número maior de autores pretos? Creio que não ocorreria da mesma forma, porque não seria necessária uma posição agressiva por parte dos pretos em busca de sua afirmação. Mas, se o maior autor moçambicano é branco, isto evidentemente vai trazer conflitos num país em que quase não há brancos em comparação ao número de pretos.

No meu ponto de contato com o tema, que é a literatura, acho que este deveria ser um assunto central nas discussões em âmbito acadêmico, jornalístico, especialmente se consideramos que tais autores estão projetando a imagem e a identidade de seus países num contexto de reconstrução e inserção no mundo globalizado. Que imagem estarão estes autores passando? Ou, mais importante que isso: não estará essa construção por demais restrita? A minha sensação, quando sinto resistência ao tema, é a mesma que senti tantas vezes, em meio ao processo de reconhecimento de minha identidade racial (politicamente falando, não geneticamente, é óbvio) e das discriminações que eu testemunhava: será que eu estou ficando louco?

Quem já passou por isso sabe como é angustiante. Porque as pessoas negam, dizem que você está colocando chifre em cabeça de cavalo, que você está vendo coisa onde não tem (e você está vendo por todos os lados).

Pra você, colega que me lê e já passou por isso, eu tenho a resposta: não, você não está louco(a). Mas tome muito cuidado, porque podem acabar te deixando assim. É mais comum do que você imagina.

Mia Couto sofreu discrminação, como declarou. Uma professora minha já testemunhou também contra João Paulo Borges Coelho, e me disse: “os negros estão reproduzindo, em sentido inverso, o mesmo que já sofreram”. Ela, como sempre magistral, levantou também a partir disso a ideia de que devemos começar a pensar, inversamente a Fanon, em “peles brancas e máscaras negras”, dado o fenômeno de tantos autores não-pretos. Mas vamos então, a partir desses fatos, concluir essa reflexão fundamental (a reflexão, não, o post; porque a reflexão continua, ou começa, assim espero).

a) Realmente, qualquer tipo de discrminação é absurda. É absurdo pensar que tais autores, apenas por serem brancos ou mulatos, sejam discrminados;

b) Para a própria África, discrminá-los é algo ruim. Cria a ideia de que África só pode ser negra, e exclui a possibilidade de uma característica importante para qualquer país desejoso de inserir-se no mundo moderno: a cosmopolitização de suas cidades, suas culturas, pessoas. Excluir autores brancos é perder em diversidade e, consequentemente, em qualidade;

c) Pensando na produção literária em si, acreditar que brancos não podem fazer texto africanos é o mesmo que considerar africanos somente os textos herdeiros de missossos e outras formas de oratura tradicional, provérbios, jogos e demais signos culturais localizadamente africanos. Isso é um reducionismo, uma prisão. Sem liberdade, jamais podem os textos tornarem-se universais, por mais que saibamos que o conceito de “universalidade”, no caso de arte, é normalmente o de diálogo direto com as tradições ocidentais, o que significa uma por vezes violenta adequação ao seu sistema semiológico.

Pelos itens acima, eu poderia considerar puramente um absurdo essa resistência aos autore brancos e mulatos. Entretanto, por todas as contradições do fato que já expus nesses dois longos posts, não posso me satisfazer parando em c), e, por isso,

d) Se os discriminados autores brancos e mulatos são tão avessos à discriminação, e vêem nela tanto prejuízo, por que não desconfiam também do prejuízo que têm a literatura quando percebem que quase não há autores pretos no mainstream literário de seus países?;

e) Será que, reconhecendo um processo de discriminação silenciada contra os pretos em seu campo de atuação, são eles capazes de levantar a bandeira dos autores pretos africanos em suas falas nos encontros, nos artigos de jornal, ou mesmo em seus livros?;

f) Será que os países europeus, tão cosmopolitas, são capazes de chamar de literatura nacional, com vigor e socos no peito, os textos de autores europeus cuja fenotipia não coincide com o caucasiano? Há essa relação de igualdade?

Não temos aí, portanto, um grave desequilíbrio?

Ou serei eu apenas um brasileirinho metido, que nada conhece de África, querendo gerar ódio racial onde nem discriminação há?

A parte 3, deixo com vocês.

Antes da parte 2…

Uma atualização referente à parte 1 de “O debate racial nas literaturas africanas de língua portuguesa”:

Apesar de eu ter dito que não precisava falar mais nada depois de mencionar a escravidão, na verdade tem, sim. As literaturas africanas no mundo lusófono começam a aparecer, normalmente, lá pela segunda metade do século 19. Neste tempo, a escravidão, se já não tinha acabado, estava bem próxima ao fim. E, além disso, nem todos os pretos angolanos foram escravizados, como se sabe. Mas, ainda assim, deixo a referência lá à escravidão porque ela foi a maior realização de todo o ideário que “privilegiava” os brancos e mulatos em detrimento dos pretos. É por isso que, mesmo quando falamos de um literatura que surge com a escravidão já com os dias contados, o estigma que ficou na população preta foi enorme – prova disso é, por exemplo, a dificuldade de inserção dos mesmos no sistema educacional, de permiti-los se expressar, de dar voz aos mesmos etc. (o trauma, esse lado psicossocial da colonização/escravidão é uma das dificuldades; não a única, claro).

Entendeu? Ou quer que o Debret desenhe?

debret

O debate racial nas literaturas africanas de língua portuguesa (parte 1)

Eu só conheço um livro do escritor angolano João Melo. Chama-se Filhos da pátria e, coisa rara pras literaturas africanas, foi editado aqui no país pela Record. Recomendo a leitura porque nos ensina e reflete bastante sobre a sociedade luandense e é esteticamente instigante a sua mistura de crônica com narrativa (isso não é exatamente uma novidade, mas o modo como ele faz é bastante particular). Deu pra sentir que o cara é um puta escritor.

Mas aí teve aquele papo com ele e o Manuel Rui na UFF, que eu divulguei aqui. Foi muito bom, obviamente. Na hora das perguntas, ficou aquele clima constrangedor de alunos que não sabem o que falar e mediador sem graça esperando o primeiro cara-de-pau. E eu, que faço barba com óleo de peroba todas as manhãs, tendo lido o Filhos da pátria na véspera, muito bem impressionado e achando contraditórias algumas passagens, timidamente levantei o dedinho.

(Na verdade, tenho que confessar uma coisa: eu me sinto profundamente constrangido quando vejo alguém constrangido. Sempre, demais, muito mais do que deveria. Eu fico sufocado, sem ar, uma coisa horrível. E quando isso acontece, uma força interior muito poderosa, quase um summon de Final Fantasy 7, me faz tomar uma atitude pra resolver a situação, para o meu próprio bem. No mais das vezes, evidentemente, falo coisa que não devia, pago mico e tal. Nessas horas, eu queria ter um assento ejetor.)

Mas, nesse dia, sério, eu tinha mesmo coisa pra perguntar. Estava até marcadinha a página. E eu comecei lendo o seguinte trecho do conto “Ngola Kiluanje”, em que, a partir do envolvimento de um homem angolano branco com uma mulher negra militante carioca, são discutidas as relações raciais em Angola (a narração é do homem):

Mas quando lhe revelei, dias depois, a conversa que tinha tido com o meu pai, ela contou-me que, tempos atrás, conhecera um escritor angolano branco que tinha vindo ao Rio participar num simpósio sobre literatura africana em língua portuguesa e que, quando questionado por um militante do Movimento Negro sobre o facto de Angola ter enviado um branco para essa reunião, teve uma resposta de que ela jamais se esqueceu:
Meus senhores, se pensam que vou pedir desculpas por ser branco, estão muito enganados!…

Antes, faço aqui um esclarecimento. As literaturas africanas de língua portuguesa – de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau – contam com o curioso fato de serem escritas, basicamente, por autores brancos(as) ou mestiços(as). Isso é um fato realmente único na África negra. Há, obviamente, autores brancos e mestiços em outros países africanos abaixo do Saara, mas certamente não nessa proporção (a exceção talvez seja a África do Sul).

autores angolanos

Essa proporção racial da imagem acima, aliás, seria interessantíssima, muito justa, se estivéssemos tratando de Brasil. Mas, num país em que 95% da população é formada por pretos, 2% por mulatos e 2% por brancos (e 1% de ‘outros’), é pra ficar com a pulga atrás da orelha. E no Brasil, em que metade da população é formada por pretos e pardos, 94% dos escritores brasileiros são brancos, segundo pesquisa realizada por Regina Dalcastagnè publicada na Revista Gragoatá n. 24 (igualmente assustadores são os números e a abordagem qualitativa desse trabalho falando sobre os personagens, narradores e enredo da ficção brasileira dos últimos 10 anos; vou comentar sobre isso por aqui assim que for possível). É evidente, também, a ausência de mulheres. Não vou me deter na questão de gênero, no momento, pela ausência de uma reflexão mais clara sobre isso.

A pergunta que fiz a João Melo, então, foi sobre essa subrepresentação de autores pretos nas literaturas africanas de língua portuguesa de um modo geral, e na angolana em particular, e se, de alguma forma, isso não poderia estar viciando o debate racial, já que há poucas vozes de autores pretos para falar sobre o tema. Não é muito difícil imaginar o porquê da ausência de escritores pretos por lá, como se verá na resposta que João Melo me deu, mas minha pergunta foi motivada pela assombrosa ausência de discussão sobre um fato que, pra mim, pelo menos, é gritante, um fenômeno. E tanto no Brasil, entre os estudiosos, como em Angola, entre autores e estudiosos, essa questão estranhamente nunca é colocada – e há reações agitadas, às vezes, quando falamos disso.

João Melo começou explicando que não há, em Angola, conflitos raciais. Segundo ele, o que há é uma “tensão de baixa intensidade”, em suas próprias palavras, que não leva a questões mais sérias. Volta e meia o povo levanta questões como “por que o ministro escolhido para tal cargo é branco?”, ou alguns estranhamentos em relações interpessoais, mas nada que se desenvolva para alguma coisa maior. Dito isto, contou o caso de uma famosa antologia de escritores angolanos feita por José Luís Mendonça, um escritor mulato, e editada pela Maianga, salvo engano. Parece que foi um rebu, e choveram acusações de racismo porque praticamente não havia autores pretos (acho que só Agostinho Neto e Uanhenga Xitu) na seleção de Mendonça, e o clima chegou a esquentar por lá. João Melo disse que quem levanta uma questão dessas ou é profundamente ignorante sobre a história de Angola, ou está de má fé. Sem citar nomes, disse que quem botou a boca no trombone foi um escritor angolano, que, “como certamente não é ignorante sobre a história de Angola…” – e deu um risinho de canto.

Pode até ter sido má fé do tal escritor, mas eu, pessoalmente, acho legítimo o questionamento, mesmo que tenha sido pra colocar uma certa pressão sobre o debate. Porque, convenhamos, pode ser má fé, também, não discutir essa questão, ou simplesmente fingir que ela não existe, quando é um fato óbvio, empírico, observável, literalmente, a olho nu. E a questão principal que está por trás, me parece – e que costuma ser negada -, é que a ausência da discussão se dá justamente porque não há pretos, praticamente, para emitir as suas opiniões no espaço literário, e inclusive desenvolver o tema em seus enredos, poemas etc. É um ciclo. Melo afirmou que o debate sobre esse fato tem que existir, mas disse com muito menos convicção do que, na minha opinião, é merecida.

Do pouco que conheço de literatura angolana e moçambicana, vejo o debate racial tomar dois caminhos, normalmente: Primeiro, uma tendência a se denunciar o racismo anti-branco (do negro contra o branco), mas sempre com mensagens de paz, de que a mestiçagem é bonita, que o julgamento da pessoa pela cor da pele é ignorância etc. O Mia Couto, por exemplo, bate muito nessa tecla. Fala-se pouco do racismo contra o negro, e normalmente contextualizado em enredos que se passam no período colonial, em que a situação era, evidentemente, muito mais tensa. E tratam, ainda, essa dificuldade de referência que o mulato sofre (não é branco nem negro, não é do bem nem do mau), que é das mais interessantes, na minha opinião (Mayombe, de Pepetela, tem um personagem, o Teoria, se não me engano, que mostra a complexidade da questão). Em segundo lugar, os conflitos étnicos – entre pretos – que estão também muito relacionados com a questão de poder por lá. É uma especificidade africana que não conhecemos na diáspora.

Para João Melo, e como qualquer um já deve ter imaginado, há muitos autores brancos e mulatos porque no período de colonização houve um “relativo privilégio” destes dois grupos, que puderam ter uma formação educacional à ocidental muito melhor, mais recursos materiais etc, em detrimento dos pretos. Cabem, aqui, duas ressalvas importantes. Primeiro que a expressão “relativo privilégio” foi um daqueles eufemismos complicados. Estamos falando de um período em que, dentre as incontáveis interdições impingidas aos pretos, tivemos uma chamada escravidão. Não preciso nem desenvolver mais nada sobre isso, certo? Em segundo lugar, vale uma breve atenção ao fato de que, diferentemente de como ocorre na diáspora (excetuando-se o Haiti), em Angola – e, creio, nos países da África sub-saariana como um todo, exceto África do Sul – os mulatos são um grupo associado aos brancos, e não aos pretos. Isso acontece, provavelmente, porque a norma em África é ser preto, e não ser branco, como por aqui (entenda-se: quando falo de norma de raça nas Américas, faço-o pensando em termos de poder, referência, representação; e não de maioria numérica). O mulato se diferencia dos pretos, em África, porque em algum momento da história de sua família houve uma aliança com um branco (mesmo que essa “aliança” seja estupro, como é muito comum), que é o colonizador, o usurpador etc. Por isso, muitos mulatos são rechaçados pelos pretos, ainda hoje, e mais aceitos entre os brancos do que são os pretos.

Mas, voltando à fala, e como eu já havia comentado acima, essa maior inserção dos brancos e mulatos no processo educacional era algo que já imaginávamos como justificativa. Para João Melo, a questão toda se resume muito simplesmente a esse fato – isso não é ironia da minha parte -, e ele ainda defendeu, como comprovação disso, que, com o fim da colonização (em 1975), o equilíbrio representacional entre pretos, brancos e mulatos está se reestabelecendo nas mais diversas esferas do poder. E disse, sem dar exemplos, que “há muitos e bons escritores pretos surgindo em Angola”. Eu tenho dúvidas se esse equilíbrio representacional, na literatura, está mesmo ocorrendo. Eu não vejo isso, não mesmo. O mais recente escritor angolano de grande projeção, por exemplo, é Ondjaki, um mulato muito claro, o qual já vi dizer, na minha frente, que Obama não é negro. Dá um tempo, né? Mas, como falei para João Melo, após o debate, essa ausência total de autores pretos pode ser uma impressão de quem está de fora, porque os textos desses novos escritores pretos certamente ainda estão circuscritos a Angola, fato que ele me confirmou. Ele disse que em breve aparecerão. Estou esperando, atento e zeloso, mas bastante desconfiado.

*

Em 2007, quando participei de um evento internacional de literaturas africanas de língua portuguesa na UFRJ, tive o prazer de conhecer e conversar com muitos angolanos e, de quando em vez, eu perguntava sobre como funcionavam essas relações entre pretos, brancos e mulatos por lá. Dona Kanguimbo, uma senhora muito simpática, e um outro angolano que com ela estava me disseram que não tinha “esse negócio de racismo em Angola”, que todos se davam muito bem, e mudou de assunto. E Manuel Rui, que é uma peça rara, quando lhe perguntei se havia muito mulatos em Angola, disse-me “não, mas estamos providenciando diariamente”. Enfim, o caso é que é muito comum a negação da existência do racismo em Angola, e acho que também em Moçambique (este post do Tabus Afro Africanos explica um pouco a dinâmica das coisas em Angola; é muito interessante). E, como essas estratégias do silenciamento e da carnavalização sobre as relações interraciais é também muito comum no Brasil, comecei a pensar que um estudo comparativo entre Brasil e Angola no tocante a esse aspecto poderia nos ensinar muita coisa. Digo isso porque um fato interessante na fala de João Melo me chamou a atenção. Não é possível “transportar mecanicamente” a questão racial brasileira para Angola porque, apesar das semelhanças superficiais que destaquei (que desconfio ser algo típico da colonização portuguesa, mais que tudo), a demografia angolana é completamente diferente (entre outras coisas completamente diferentes). Então, por exemplo: no Brasil, é possível não haver políticos negros, empresários negros, elite negra, etc. Em Angola, evidentemente, isso não é possível, porque sequer há brancos e mulatos o suficiente pra preencher todas essas “vagas”. Poder-se-ia pensar numa comparação em termos proporcionais (na literatura, acho que rola), mas de toda forma não acho que as relações se dêem tão cartesianamente. Há muitas curvas nesse caminho.

O que eu penso, sobretudo, é que comparar as questões raciais do Brasil e de Angola é mais uma das muitas formas que ainda não exploramos de aproximação dos dois países. O Brasil é um produto angolano; e Angola, hoje, é um produto brasileiro. Analisar as semelhanças e diferenças, as complexidades das relações raciais que ocorrem nos dois países é, certamente, uma forma de nos conhecermos melhor. E estou convencido de que a literatura é um excelente ponto de partida para isso.

Na Parte 2, um pouco mais sobre o assunto no ambiente acadêmico.

Manuel Rui e João Melo na UFF

Acho que não deve dar tempo de os três leitores do meu blog verem isto, mas é que foi mesmo confirmado há pouco, bem em cima da hora.

Os escritores angolanos Manuel Rui e João Melo estão no Rio de Janeiro e vão nos brindar com uma passagem pela UFF. Nem sei se a parada é aberta, mas, por ser uma universidade pública, acredito que qualquer um que estiver interessado deve mais é chegar lá e pedir licença pra assistir.

Manuel Rui é um dos mais proeminentes romancistas angolanos, autor do clássico Quem me dera ser onda e do exuberante O manequim e o piano. João Melo é autor, entre outros, de Filhos da pátria, livro de contos editado no Brasil pela Record.

Os dois escritores têm estilos bastante diferentes, e, ao mesmo tempo, muito representativos de seu país. Por isso, pra quem não conhece a literatura angolana mas quer saber um pouco, e pra quem conhece um pouco e quer saber mais, como eu, recomendo dar um pulo lá.

Dia 22 de setembro
Campus do Gragoatá
Faculdade de Letras da UFF
bloco C
sala 218
às 14 horas.

Plástico: uma questão de paixão

Eu sou professor de Português. Assim, meio irregular e com salário de subemprego, ainda, porque não tenho a licenciatura (resta-me uma última e torturante matéria), mas nesse país a gente dá um jeitinho, os donos de escola também, e eu consigo ir pra casa com algum no bolso no fim do mês.

(Algum, não: algunzinho.)

Hoje, após aplicar provas, saímos eu e a professora de Biologia em direção a um mercado ao lado da escola, pelas ruas a comentar as respostas absurdas que nossos pimpolhos haviam registrado – ela pra comprar salsicha, eu pra comprar óleo e molho de tomate; e se estivéssemos indo pro mesmo lugar, é provável que o jantar fosse cachorro-quente.

Entre casas com ‘z’, cachorros com ‘x’ e aberrações de Biologia das quais eu não fazia qualquer ideia, mas ria por educação e pra não fazer vexame, chegamos à fila do caixa para pagar nossas compras. A professora passou as suas salsichas Pif-Paf, meteu em duas sacolas plásticas e pagou. Vi aquilo (duas sacolas!) e, chegada a minha vez, resolvi sacanear.

Olha a diferença entre uma professora de Biologia e um professor de Português, né? Eu sei que não devemos sujar o pouco que resta de nossa bela e frágil natureza e, por isso, vou dispensar esta sacola plástica que há de levar mais de mil anos para se desintegrar!

Garrafa de óleo e lata de molho de tomate direto na mochila, eu rindo e ela meio sem graça,

Ah, deixa de ser palhaço, Rafael, a salsicha vai molhar a minha bolsa!,

de fato com razão; eu mesmo não botaria a salsicha sem proteção, se é que vocês me entendem. Estamos ainda rindo e eu pegando o dinheiro para pagar, quando dirijo meu olhar à operadora do caixa para entregar a importância necessária à pequena compra feita. E então…

A partir desse instante, o tempo parou. Nem sei como descrever o que vi. A mulher me olhava como se eu fosse um extraterrestre que estivesse devorando a mastigadas o computador em que ela confere o troco e arrotando parafusos em seu rosto. Não sei. Sei que cheguei a me assustar, achando que tivesse falado alguma besteira, algo inconveniente. Não sei, fiquei mesmo sem saber. Era uma expressão entre o horror e o nojo.

Eu estava, naquele momento, quebrando completamente as expectativas dela como fiel responsável por toda e qualquer mercadoria que passa pela leitura ótica que ela detém, arfante, a cada ‘pi’, e que libera as compras para o ensacamento – a etapa final de um processo quase fordista que ela mantém orgulhosa, cheia de si. Desconfio que eu a tenha, mais que tudo, ofendido. Uma coisa.

E tive medo. Achei que, na sequência, ela fosse pegar o saco plástico e me torturar ali, na frente de todos, ao modo Capitão Nascimento, me sufocando, querendo descobrir que plano maligno eu tinha por trás daquela minha atitude inconsequente de recusar uma sacola plástica.

Fala o que tu sabe, neguinho! Fala logo, porra!

Quê isso, tia! Não sei de nada, não! Só quero um mundo limpo, lindo e sem poluição, com borboletas voando pelos campos, rios cristalinos em que possamos nadar e ar puro nos pulmões das futuras gerações!

Rá, tá bom! Tá achando que eu nasci ontem, é?!

Imagina se ela souber o que faço com o óleo usado…

Obama nectarine


oquê, caboco!

quando chegar a um milhão, eu fecho o blog.

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