Presente que recebi: um post pronto saído da boca de um colega

Agora, vejam vocês. E antes já digo que meu amigo Pedro Antonio, que aparece de vez em quando por aqui, é testemunha ocular e auricular, se é que essa última modalidade existe.

Alguns dias atrás, estávamos eu e Antonio no pagode do Dão, ao lado da minha casa, batendo um papo e algumas palmas, quando chegou perto um dos amigos da rua. Apresentou a namorada, nos cumprimentou, e aí cumpádi, tranquilo?, aquelas coisas. Juntou-se, muito bem-vindo como sempre, ao papo que estávamos tendo. Vai e vem, entra a história de racismo na conversa. E então o rapagão, do alto de seus 28 ou 29 anos de idade e com o curso de Direito quase completo pela Universo, fala:

Essa parada de racismo é ridícula, né bróder? No Brasil, todo mundo tem algum antepassado negro, mesmo sendo branco como eu. Ser racista no nosso país é ter preconceito contra você mesmo!

Eu, que já conhecia a peça, não achava aquele discurso nem um pouco condizente com algumas falas e ações do enunciante. Mas deixei o candango falar, porque sabia que em breve uma pérola ia vir. E veio a primeira, quando então o papo misturou racismo e mulher.

Bróder, tipo assim, eu não sou racista, tá ligado? Tanto que tô aqui conversando contigo, né, velho? Normal, tudo bem. Eu até já peguei umas meminas assim, pô. [nota do blogueiro: o cara era incapaz de falar “preta”, “negra”, “mulata”, nem mesmo a eufemística “morena”; ele se repetia, e não conseguia.] Mas tipo assim, bróder, eu tenho certeza que eu jamais me casaria com uma mulher negra, e nem nunca teria um filho mulato, tá ligado? Mas eu não sou racista, velho!

E eu:

A-lá, a-lá, Antonio, viu??? Ahahahahaha! Viu, viu??

Meu amigo Pedro Antonio, a essa altura, já fumava uns três cigarros ao mesmo tempo, enquanto afiava as unhas para abrir um buraco na terra e só parar quando chegasse ao Japão. E eu, apesar do incômodo, ria, porque tinha certeza que ia sair uma dessas.

Percebendo o ridículo da situação, o enunciante resolve se justificar, já que afirmava não ser racista (não, imagina!). E nessas horas, é claro, se o cara insiste em consertar, normalmente só piora tudo. Não deu outra:

Velho, vou te dar um exemplo de que não sou racista. Quando eu era moleque, eu tinha uma empregada…

Eu já gargalhava, e cochichava para Antonio, que por sua vez já entendia o absurdo da cena e até começava a relaxar:

Casagrandeesenzalacasagrandeesenzalacasagrandeesenzala

Que que você falou aí, bróder?

Nada não, parceiro, continua aí pra eu entender o seu ponto de vista.

Então, bróder, essa empregada era negra, tá ligado? Aí, um dia, ela teve que ir embora. Velho, no dia que ela foi, bróder, eu chorei muito, mas muito mesmo. Ela era tudo pra mim, eu chorava sem parar, porque eu gostava muito dela. E ela era negra, tá ligado? Eu não sou racista!

Num espaço de tempo de menos de um minuto, talvez, o meu colega da rua conseguiu lançar os melhores clichês que confirmam as áreas moles e as áreas duras das relações raciais no nosso país, e mostrando também como elas servem para a escamoteação e manutenção do racismo. Nas área moles identificadas por Marcelo Paixão no artigo “O justo combate: reflexões sobre relações raciais e desenvolvimento”, tudo rolava bem: primeiro, no bar (espaço que eu havia mencionado no post como uma área mole clássica para os homens), em que ele me usou até como exemplo de interação interracial; e depois com a empregada dele (que ocorre em casa, mas numa relação de subserviência, e que é a mais profunda expressão das saudades da escravidão a que Muniz Sodré se referiu, e cujo ponto de vista defendi ao analisar o embate dele com Demétrio Magnoli). Nas áreas duras, igualmente identificadas por Marcelo Paixão, no entanto, o tal contato não era possível: “eu tenho certeza que eu jamais me casaria com uma mulher negra, e nem nunca teria um filho mulato”, disse ele, na minha cara.

Por último, há duas coisas que me deixam pasmo nessa história toda. Ora, eu ouço esse tipo de coisa com muita frequência, muita mesmo. Já ouvi isso de alunos meus muitas vezes (dando aulas há apenas 2 anos); já ouvi isso de conhecidos mais velhos e da minha geração algumas vezes; leio isso com muita facilidade em discussões nos fóruns de blogs ou jornais, quando há qualquer texto relativo a casos de racismo, cotas etc. E é muito claro para mim que, mesmo muitas pessoas que não falam essas coisas – porque, em função dos espaços em que vivem, às vezes têm uma noção muito maior do politicamente correto, e portanto não enunciam esse tipo de coisa, muito menos na frente de um negro -, pensam dessa forma, o que fica claro pelas escolhas que fazem, pelos olhares que lançam, e por frases que tangenciam valores como o exposto pelo meu colega. Mas, voltando, duas coisas que me espantam:

Primeiro, o nível de esquizofrenia a que chega a nossa cultura. Porque, curiosamente, todas as pessoas que compartilham sentimentos do gênero, logo em seguida se apressam a dizer que não são racistas, e até mesmo que no Brasil não tem racismo, ou que é só uma coisa aqui e outra ali. Isso pra mim é tão doente como o cara que diz

Mermão, não tenho nada contra viado, só não quero eles perto de mim.

Em segundo lugar: acho que muitos desses acadêmicos, intelecutais e gente que escreve (ou melhor: que tem o poder de publicar), como os já e sempre citados Magnoli, Kamel, Fry, Maggie estão precisando seriamente fazer pesquisa de campo. Porque, meu Deus, como é possível eu já ter ouvido tanto isso por aí e eles nunca terem ouvido? Das duas uma:

a) ou nunca ouviram isso porque não saem, mas não saem mesmo, dos espaços acadêmicos e das turminhas intelectualizadas (na universidade, especialmente as de prestígio e de cursos de humanas, ninguém vai falar uma merda dessas, por mais que Cristo em pessoa lhe permita, ou que lhe nasça uma úlcera pela repressão de tal sentimento), o que é um indicativo de profunda falha metodológica nas análises que fazem sobre a questão; ou então

b) esse povo ouve (duvido que essa galera, ainda mais que é de outra geração, nunca tenha ouvido seus pais e parentes falarem absurdos do gênero em suas próprias casa, duvido), sabe qual é a da parada, mas entra numa de desonestidade intelectual, e também de desonestidade consigo próprio, pra fazer política baixa e dizer que isso não é uma questão e ponto.

O que leva alguém a fazer isso? Eu tenho meus preconceitos enrustidos. Tenho amigos gays, mas volta e meia falo mal de gay, especialmente naquele esquema de grosseria, com intenção de ofender – porra, fulano é mó bichona! Mas não é por ter preconceito e querer fingir que não tenho (ou, pior, que as pessoas à minha volta não têm) que vou entrar numa cruzada política/intelectual apenas para me sentir confortável com meu próprio sentimento, ou tentar apagar a questão do mapa. Será mesmo possível que essa galera acredita no que defende? Acho tão estranho.

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11 Responses to “Presente que recebi: um post pronto saído da boca de um colega”


  1. 1 Gabriela Ventura 23/01/2010 às 14:13

    Cena visualizada em HD. :D

  2. 2 Rafael Cesar 23/01/2010 às 14:41

    ahahahahaha!!!

  3. 3 Rael 23/01/2010 às 19:11

    Ótimo post, Rafa!
    É aquela coisa, 99% conhecem um racista e 99% se dizem não racista!

    Viva Casa Grande e Senzala!!

    Como diz Magnoli: a escravião no Brasil não tinha um viés racista! Afinal, o maior traficante de escravos da história do Brasil foi um negro!

    Eu criaria uma letra C. Não é desconhecimento nem desonestidade. É mediocridade mesmo. Como disse Marco Aurélio Garcia outro dia… são subintelectuais da direita.

    Kamel escreve um livro para propagandear a não existência de racismo no Brasil… e quais suas principais fontes? Um livro do FHC e censos do IBGE! Ó que maravilha! Que rigor metodológico!

  4. 4 Rafael Cesar 23/01/2010 às 20:26

    E aí, Rael!

    Cara, valeu pela tua presença aqui.

    Olha, eu vou fazer outro post sobre o Magnoli, em breve, em que ele diz na televisão exatamente isso: que a escravidão não foi um fator racial. Se é desconhecimento ou desonestidade, no fim acho que não importa muito. O fato é que falar um negócio desses é de uma irreponsabilidade tão grande, que acho que o cara tem que ser detonado, independente se ele faz isso com boas intenções ou não. Até porque não cabe – e sequer é possível, nem faz sentido, acho – ficarmos julgando a moralidade do cara, né?

    A questão é: podemos até pensar que o cara é um medíocre, só que ele tem muito poder. E o poder que ele tem é por ser legitimado por tantos outros (que podem ser igualmente medíocres ou desonestos, mesmo), e aí o cara publica livro, é colunista da Folha, escreve artigo pro Estadão, vai no Jô, Globo News, Band. É bizarro, né? É como a gente se perguntar se o Bush acreditava mesmo que tinha que levar a civilização ao mundo islâmico, e que cada bomba e tiro que o seu exército disparava era uma obra de Deus – ou se ele era um filho da puta que queria dominar a produção de petróleo da região.

    Mas, andei pensando:o Magnoli faz parte de toda uma cadeia de gente que o apoia nesses absurdos que ele fala (veja, o absurdo não é ser contra cotas, mas sim dizer que o racismo no Brasil não é nada de mais – pimenta no cu dos outros não arde -, ou que a escravidão não foi um fator racial e coisas do gênero). Essa cadeia, certamente, não é uma coincidência de pessoas medíocres. É, sobretudo, gente brigando pra manter o seu espaço político. E nós, que lutamos contra eles, também não somos um bando de heróis querendo salvar o povo negro da opressão. Somos igualmente parte de uma disputa política (só que, no nosso caso, de fato estamos querendo distribuir um pouco o poder acumulado nas mãos dos outros; digamos que nossa causa é mais nobre ehehehe…). Enfim, é um jogo político dos dois lados, e o Magnoli não é uma marionete dos caras que querem manter seus privilégios. É impossível o cara ser medíocre a ponto de realmente acreditar que a escravidão não era um fator racial só porque existia um ou outro senhor de escravos negro. Não tem como, isso não seria mediocridade, seria loucura. Então, ele também é parte desse processo de tentar manter os privilégios, é protagonista da mesma forma. Faz o papel dele como intelectual, ou melhor, como alguém legitimado como tal, e que tem acesso ao meio.

    Sei lá. Acho que, no fim das contas, é desonestidade e mau-caratismo, mesmo.

    E como vai a tua pesquisa?

    Abração, cara!

  5. 5 Rael 24/01/2010 às 13:43

    Pois é, é isso mesmo! Esses caras são tipicos intelectuais organicos da direita.

    Magnoli é um cara absurdamente “inventado”… do nada apareceu na midia. Tem um espaço bizarro pra falar as besteiras dele. E ele fala de tudo!

    Vi ele falando que a escravidão no Brasil não envolve raça numa entrevista no Canal Livre da Band.
    Olha a lógica do Maluco: negros podiam ter escravos [o que é verdade] e o maior traficante da história do Brasil era negro e ex-escravo [o que é verdade, o cara se chamava Francisco de Felix Pacheco] portanto a escravidão pairava acima de critérios raciais.
    Ou seja, resumindo, Magnoli é um imbecil. Manipula informações. Esquece de ir além das exceções e dizer que os milhões de escravizados foram negros e que essa cor de pele é que ficou estigamatizada e essa galera e seus descendentes (com raras exceções) que foram excluidos dos processos de desenvolvimento brasileiro.

    Mas enfim, vamo que vamo que a disputa política é tensa! Tu falou bem. Não podemos ver a coisa como uma cruzada do bem contra o mal… é disputa política! É disputa política que se enquadra nos marcos da desigualdade social brasileira e que envolve, além da questão da cor de pele outras como classe social e maxismo.

    Quanto a pesquisa, estou relaxando agora pra meter a cara nesses dois anos de mestrado!

    vamo que vamo!

    abraços!

  6. 6 Rafael Cesar 24/01/2010 às 19:27

    Rael, meu quase xará,

    O próximo post sobre o Magnoli é justamente sobre esse debate do Canal Livre. Assisti pelo youtube há algumas semanas, e quase tive um troço quando ele falou que a escravidão não era um fator racial porque negros podiam ter escravos. Comecei a berrar, xingar, tudo. Sério, não sou contra quem é contra cotas ou ações afirmativas, não mesmo, mas quem fala um negócio desse que ele falou vira meu inimigo. Isso é o fim da picada, não rola, é filhadaputice sem noção, cara.

    Na minha inocência de achar que alguém jamais teria coragem de falar um negócio daqueles, eu fiquei tão chocado, que depois de berrar e espernear, eu ficava voltando pra ver se aquilo que eu estava vendo era verdade, mesmo.

    Enfim, isso vai ser um post gigante. É a minha opção – já que não tenho grana – em lugar de horas de terapia pra curar o trauma da cena.

    Um abração!

  7. 7 Raphaella 24/01/2010 às 23:16

    eu praticamente vi a cena, você querendo rir e o Pedro Antônio cavando, genial…mas é isso mesmo, infelizmente.
    Como sempre mandando bem no blog…mas devo dizer que até agora meu post favorito foi o do Muricy…hahahahaha.Minha mãe adorou saber que virou celebridade no seu blog.
    beijocas!

  8. 8 Rafael Cesar 24/01/2010 às 23:44

    Rapha, se esse blog tiver continuidade, o do Muricy vai pra antologia, com certeza! E era sua mãe, mesmo! Ainda bem que o Francisco não estava no sonho, senão acabava tudo na mesma hora com ele dando porrada no Muricy, eheheheh… Manda um beijo pra sua mãe e agradeça a ela a participação no sonho!

    E beijão pra você!

    PS: quando vai rolar o encontro de boas-vindas? Podia ser quando Gabi entregasse o texto final dela, né? Falta tão pouco, mesmo.

  9. 9 Pedro Antonio 25/01/2010 às 11:54

    Eu sabia que aquilo ia sair nesse blog! AHAHAAH! Mas eu confesso que, embora quase infartando de vergonha alheia, eu tava afiando as unhas mais pra mandar uma de wolverine no maluco. Ou fazer aquela marquinha que o Brad Pitt faz no “Bastardos Inglórios” na testa daquela mula!

  10. 10 Rafael Cesar 25/01/2010 às 13:26

    Antonio, meu velho, eu sei. Mas é que se eu tivesse descrito assim, não teria a mesma graça, convenhamos! Mas pode preparar as unhas, porque essa aí foi só uma pérola dos colares que ele volta e meia desfia.

    Abraços!


  1. 1 Jornal O Globo censura anúncio pago da campanha AFIRME-SE! « meu jazz Trackback em 09/03/2010 às 16:04

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