Eu tive um sonho

Não, meus fiéis leitores, não. Esse título não remete ao famoso discurso proferido pelo reverendo Martin Luther King, Jr. em 28 de agosto de 1963, nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C. Sei que muitos pensaram “meu Deus, o Rafael pirou de vez nesse lance de questão racial, e definitivamente está a cada dia mais chato: agora até discurso está querendo fazer!” Não, meus amigos. É que há algumas noites eu tive, de fato, um sonho, que não posso me furtar a compartilhar com vocês.

*

O sonho começa numa garagem de um prédio. Eu estou num carro, no banco de trás, com uma jovem mulher ao meu lado. À direção do veiculo, uma mulher já madura, digamos assim, e que tenho a impressão de ser a mãe da jovem ao meu lado. (Na verdade, é pior: tenho a impressão de que a mulher era a tia Norma, mãe da Rapha – nhom! –, embora não fosse a Rapha ao meu lado.) O clima, todo meio tenso, e a fotografia do sonho é meio acinzentada.

Tia Norma manobra o carro e nos encaminhamos para a saída do prédio. Quando chegamos ao portão, surge um porteiro branco, barrigudo e com cara de mau. Ele vestia calça preta e camisa creme – igualzinho ao uniforme dos porteiros do antigo prédio dos meus avós – e um chapéu que lhe conferia um ar ainda mais autoritário, mas que não vou saber explicar aqui – e que os porteiros do antigo prédio dos meus avós nunca usaram.

O porteiro barra a nossa passagem e se aproxima do nosso carro. Eis que, ao ver seu rosto, percebo que era ninguém-mais-ninguém-menos do que o Muricy Ramalho! Trava-se o seguinte diálogo (que obviamente não foi exatamente como o descrevo, mas algo parecido):

Boa noite, madame.

(Tia Norma, já amedrontada) Boa noite.

Estamos tendo alguns problemas de não-sei-o-quê aqui no prédio, então vou precisar revistar o carro da senhora antes de a senhora sair. Algum problema?

Muricy Ramalho começa então a revistar a mala do carro, que tinha algumas bolsas, uma mochila, algo assim. Estamos apreensivos dentro do carro, sem entender mutia coisa, e então me dá um estalo genial: Porra, o Muricy Ramalho deve ganhar algo em torno de meio milhão de reais entre salário, patrocínio, publicidade etc. O que ele está fazendo como porteiro nesse prédio? Há algo de muito estranho.

(Estranhas são essas elucubrações de sonhos, vamos combinar. Mas o mais legal é que, durante o sonho, elas não são nem um pouco estranhas. Fluem com uma naturalidade espantosa, a naturalidade, sim.)

Me levanto do banco e chego perto do porteiro tetra-campeão Muricy Ramalho com uma pose, uma coragem, um peito estufado que, realmente, só em sonho. Mas estava eu lá. E começo a fazer uma série de perguntas a ele, tentando sondar o que aquela criatura odiosa quer. De repente, percebo que ele está mexendo em um sapato branco que eu quis comprar pro ano novo numa loja do Plaza Shopping de Niterói, mas que calhou de eu não ter dinheiro na ocasião. Muricy mexeu em um, jogou de volta na mala, e pegou a outra peça do par. Quando ia começar a vasculhar a sola, percebo que a mão que se dirige ao sapato está malocando alguma coisa, e num ato de reflexo seguro seu pulso com muita força, e entro numa briga para abrir a mão dele.

Tem o quê aí na mão, Muricy? Hein, porra?

Me solta, véi!

Eis que cai no chão um cachimbinho de maconha em formato de figa. Não me pergunte por onde se fumava, mas no sonho estava claro que era um cachimbo. E corta a cena. Estamos agora no meio de alguma rua movimentada, e eu começo a gritar pedindo por ajuda.

Alguém, socorro! Esse cara está tentando colocar um flagrante no nosso carro!

Rebuliço. Uma multidão se aproxima. Pegam Muricy e o levam pra longe, preso. Um homem cujo rosto não consigo me lembrar, mas que no sonho é meu amigo, pega o cachimbo e tira a maconha de dentro. O veredicto:

É só mato, essa porra.

Corta de novo. Estou conversando com um homem branco, bem barbeado, de terno, já é noite, e ele conversa comigo para saber o que houve. Eu conto a história, muito nervoso com a possibilidade de ter sido vítima de um golpe, e conto pro cara o que houve, até aumentando a história nos meus atos de bravura. O meu amigo fala pro cara que a erva que estava no cachimbo, afinal, não era maconha. Mas, no sonho, ainda assim isso constituía um crime grave: ter tentado depositar um cachimbo em formato de figa cheio de grama dentro, sem eu sequer poder provar nada, dava cadeia pro cara. No meio dessas explicações todas, de um lado e de outro, me surge a informação de que o cara é juiz, mora na minha rua e conhece minha família há anos.

Tu é neto da dona Olinda? Mermão, tenho muito respeito pela coroa. Agora esse Muricy tá fudido, parceiro.

Vou pra casa. A fotografia, agora, já é totalmente noir. Está escuro e faz frio. Eu me sento em uma cadeira, em frente a uma mesa, e começo a pensar sobre tudo o que está acontecendo. Eu teria uma audiência num tribunal, no dia seguinte, para formalizar as acusações contra Muricy Ramalho. Eu tiro um cochilo sobre a mesa e acordo apavorado, instantes depois. De repente ficava claro pra mim que tudo aquilo havia sido um sonho que eu tivera na noite anterior (sim, dentro do meu próprio sonho, que eu não sabia que era um sonho, parecia realíssimo). Meu coração vem à boca.

(Pausa para explicar o que está acontecendo comigo no mundo real. Eu fico muito tenso e começo a ter a impressão de que tudo é um sonho, não só o sonho que tive dentro do sonho, mas que isso tudo é, provavelmente, um sonho. Mas não consigo ter certeza de nada. É uma sensação deveras esquisita. O nível 1 do sonho – ou seja, o sonho mesmo, e não o sonho dentro do sonho – me puxa novamente, e esqueço minhas desconfianças, tomado novamente pelo medo.)

E agora? Que faço? Como vou fazer uma acusação contra o cara se, na verdade, isso tudo foi um sonho? O juiz já tinha me dito que no dia seguinte haveria imprensa escrita, falada e televisionada. Uma merda. Penso em fugir, mas a essa altura a cidade já sabe quem sou, o caso está famoso. Todos pedem a condenação de Muricy Ramalho. Começo a bolar uma estratégia argumentativa em que eu não precise mentir, em que eu possa dizer que foi um sonho, mas que ainda assim aquele agindo era o Muricy. Mas não dá pra comprovar nada disso. Nada disso tem qualquer base seja jurídica, moral, ética. É tudo uma maluquice, e eu começo a chorar.

Puta que o pariu, amanhã vão me botar na cadeia!

Volta a desconfiança. É sonho? Não é sonho? Estou dormindo? Estou acordado? Ouço passos subindo uma escada e alguém bate na porta. São eles, chegaram.

Enche a pança de sopa de feijão e vai dormir logo em seguida, dá nisso.

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10 Responses to “Eu tive um sonho”


  1. 1 Marcelo 18/01/2010 às 13:01

    HAHAHAHAHA!
    Muricy Ramalho!!
    Antes de ler o final eu ia até te perguntar o que você havia comido na noite anterior… Se como muito feijão à noite também tenho pesadelos muito loucos! Os meus sonhos de feijão às vezes também vem com sonhos dentro de sonhos, e uma vez, dentro de outro sonho.
    Mas sonho com fotografia, nunca tive. Parabéns!

    abraços
    Marcelo

  2. 2 Rafael Cesar 18/01/2010 às 13:25

    Marcelo, meu velho, saudades de você!

    Sonhar com duas fotografias diferentes é indicativo de um homem altamente refinado, não acha? ehehehe! Por outro lado, acho que eu jamais teria concentração suficiente para sonhar num terceiro nível, como você. Aí, é só contigo, mesmo, o bom e velho Marcelo!

    Abração!

  3. 3 Rafael Abreu 18/01/2010 às 19:31

    Como não tenho talento nem para criar interpretações pseudo-psicanalíticas do teu sonho, fica o registro: Muricy Ramalho fazendo papel de um (mau) porteiro é uma beleza, e parece que ele tem no teu sonho a mesma empáfia que transmite pela TV. E temos um negro língua-presa campeão como técnico!
    Só faltou o Andrade aparecer como o juiz no final do teu sonho.
    Abraços!

  4. 4 Rafael Cesar 19/01/2010 às 01:06

    Rafa, o Muricy estava assustador no meu sonho. Uma coisa horrível. Mas ainda bem que o Andrade não era o juiz, porque, convenhamos, com aquela língua presa dele eu não ia entender a decisão final sobre o caso. eheheheheh… Mas, pelo menos, é melhor ter língua presa do que o rabo preso, que nem a cartolada do nosso time. Vamos ver a dona Patrícia, agora.

    Abração!

  5. 5 Bernardo 19/01/2010 às 01:40

    Cara, isso é muito bizarro. Eu sempre digo que toda vez que eu como comida (o que pra mim automaticamente inclui feijão) pouco antes de dormir, eu tenho sonhos loucos, pesadelos, alguns, em que eu SONHO ESTAR DENTRO DE OUTRO SONHO e nunca sei o que é sonho e o que não é (sendo que tudo é, visto que eu estou sonhando). Agora, em uma tacada, descubro que vc e o marcelo têm a mesma coisa! Que componente hipno-alucinógeno é esse que se encontra no tão prosaico feijão?

    Seguinte, estou em fortaleza ainda mais volto na sexta (22). Cerveja fds?

    Abs e saudades dos três.

  6. 6 Bernardo 19/01/2010 às 01:41

    esse “mais” aí em cima era pra ser “mas”. me perdoe, errei. :/

  7. 7 Rafael Cesar 19/01/2010 às 10:49

    Bernardo, querido, a emoção fez você trocar a conjunção adversativa pelo advérbio, é compreensível. Além do mais, isso aqui não é sala de aula, pode escrever como quiser!

    Quanto ao prosaico feijão, os perturbados sonhos devem ser efeito dos gases que as negras favas nos causam, e que ficam nos intoxicando até que prosaicamente os liberemos!

  8. 8 Rafael Abreu 19/01/2010 às 19:40

    Que nem disse o embaixador do Haiti e um carolão estado-unidense, esse efeito do feijão só pode ter a ver com o fato dele ter sido introduzido por africanos, que fizeram pacto com o coisa ruim, não abraçando a fé do Único e Misericordioso Pai.
    Amém.

  9. 9 Rafael Cesar 19/01/2010 às 20:25

    Amém, irmão!

  10. 10 simone 19/01/2010 às 22:50

    Rafa,

    quem sabe o que é ser mestrando pré-defesa, deduz que a pressão que faz o pesadelo é outra rs E essa senhora ao volante? rs Figurações de luxo no sonho do (des)orientando rs

    Mas, é isso, para fugir de pressão e pesadelo tenho post novo falando do AVATAR.

    Abs,

    Simone


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