Geógrafo de quinta tenta argumentar contra intelectual completo de primeira e termina humilhado por jornalistas da pesada

Está havendo um certo embate entre Demétrio Magnoli e Muniz Sodré relacionado a como a mídia brasileira trata do tema das ações afirmativas. Começou com Sodré, Magnoli respondeu, e a tréplica ficou por conta de Milena Almeida e Angélica Basthi. Com um certo atraso, registro finalmente minha opinião sobre a coisa toda.

*

Há coisa de dois meses atrás eu divulguei aqui um seminário na ABI que discutiria o papel da mídia nos debates sobre questão racial. Eu só pude ir no segundo dia, mas que era também o de maior interesse para mim. Especialmente porque uma das falas ia ser proferida pelo Mestre dos Mestres, Muniz Sodré.

Naquele dia, Muniz, como de hábito, fez considerações de muita agudeza sobre o posicionamento geral da grande mídia (termozinho chato e batido, mas que deixa claro, aqui, ao que me refiro) no trato negativo em relação às ações afirmativas de cunho racial, em especial as cotas para negros nas universidades. A fala de Muniz, então, deu no artigo “É necessária uma nova Abolição?”, publicado no Observatório da Imprensa em 27/10/2009. Sugiro que vocês leiam, mas, em resumo, o que Muniz afirma é que esse desequilíbrio é fruto de uma saudade da escravidão presente na consciência dos grupos que comandam os meios de comunicação, que se expressa de várias formas. Vejamos:

Ela é a superfície psicológica do fato histórico-econômico de que as bases da organização nacional foram dadas pelo escravismo. Por isso, vale perguntar que apreensão os brasileiros fazem desse fato, pouco mais de um século depois da Abolição.

(…)

Alguns pontos devem ser considerados:

1. A palavra “apreensão” não diz respeito a concepções intelectuais, e sim, à incorporação emocional ou afetiva do fenômeno em questão. No interior de uma forma social determinada, nós apreendemos por consciência e por hábito o seu ethos, isto é, a sua atmosfera sensível que nos diz, desde a nossa mais tenra infância, o que aceitar e o que rejeitar.

2. A reinterpretação afetiva da “saudade do escravo”, que envolve (a) as relações com empregadas domésticas e babás (sucedâneas das amas-de-leite); (b) o afrodescendente como objeto de ciência (para sociólogos e antropólogos); (c) imagens pasteurizadas da cidadania negra na mídia.

Diferentemente da discriminação do Outro ou do racismo puro e simples, a saudade do escravo é algo que se inscreve na forma social predominante como um padrão subconsciente, sem justificativas racionais ou doutrinárias, mas como o sentimento – decorrente de uma forma social ainda não isenta do escravagismo – de que os lugares do socius já foram ancestralmente distribuídos. Cada macaco em seu galho: eu aqui, o outro ali. A cor clara é, desde o nascimento, uma vantagem patrimonial que não deve ser deslocada. Por que mexer com o que se eterniza como natureza?

É claro que poderíamos fazer uma leitura mais “óbvia” e dizer simplesmente que as elites não querem ceder seu espaço (de voz e representação, especialmente, que é o primeiro passo para tomar posse da riqueza) a grupos marginalizados, como negros e pobres, e por isso se coloca enfaticamente contra as cotas. O resultado, no fim das contas, é o mesmo. Mas não se pode desconsiderar o fato de que essa mesma grande mídia não se posiciona de maneira tão adversa quando se fala das cotas “sociais” (para alunos de escola pública e de baixa renda), e por isso mesmo Muniz fala da saudade da escravidão: porque há uma questão – muito profunda – que diz respeito ao negro, especialmente. E não há como falar de escravidão sem falar da questão racial, bem como não é possível falar de questão racial no Brasil sem falar de escravidão.

Mas, e onde entra Demétrio Magnoli? Pelo cano, eu diria. É que uma semana depois do artigo de Muniz, Magnoli publica um outro, também no Observatório da Imprensa, chamado “Matem os escravistas”, em 03/11/2009. O texto em questão, cuja leitura também recomendo (apenas para se entender melhor a confusão que se passa na cabeça de nossos opositores, é claro), além de conter pinceladas de uma ironia agressiva e até mesmo infantil – com expressões destacadas em parágrafos únicos como “É mesmo?” e “Ah, sim? Então?”, e ainda afirma que “Sodré empastelaria jornais, se pudesse” – diz que o problema de Muniz e do povo reunido na ABI não era com as notícias em si, e sim com “a opinião expressa nos editoriais” dos grandes jornais. A essa derradeira conclusão Magnoli chega com a seguinte exposição:

… talvez Sodré queira dizer coisa diversa daquela que escreveu. Não haveria, por exemplo, um desequilíbrio no material opinativo dos “jornalões” sobre a introdução de leis raciais no país? Imagino que Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S.Paulo, os maiores jornais do país, sejam os “jornalões” de Sodré. Entre os três jornais, há apenas quatro colunistas fixos que abordam com alguma frequência o tema das políticas raciais: os próprios Gaspari, Leitão, Gois, além de Ali Kamel e eu mesmo. A seção da Folha de S.Paulo dedicada a artigos externos de opinião mantém o critério de dividir meio a meio seu espaço entre defensores e críticos do racialismo. O Globo e O Estado de S.Paulo não têm seções similares, mas adotam critério idêntico para artigos opinativos sobre o assunto que acompanham eventualmente o noticiário. Desafio Sodré a provar objetivamente que há desequilíbrio.

Ele não provará, pois não pode, mas isso em nada alterará a sua posição – nem a da Seppir e das demais “entidades” da sopa de letrinhas congregada para acusar a “mídia” de parcialidade. É que o problema deles com os principais jornais é outro: a opinião expressa nos editoriais. Os três “jornalões” posicionaram-se editorialmente contra a introdução de leis raciais – opinião, aliás, compartilhada pela maioria esmagadora dos brasileiros de todas as cores, como indica pesquisa encomendada por uma entidade favorável à introdução dessas leis. A opinião editorial é livre, numa sociedade democrática. Então, qual é o sentido do ataque de Sodré (que, sempre é bom lembrar, emana de um evento com participação estatal)?

Em primeiro lugar, acreditar que há uma total separação entre “a opinião expressa nos editoriais” e as notícias veiculadas só pode ser brincadeira. Todo e qualquer veículo de comunicação tem, por trás de si, uma linha editorial que comporta determinada(s) ideologia(s), mais ou menos presente(s) a depender do veículo em questão, e crer que elas não estejam em algum nível de consonância com o teor geral das notícias é, sem dúvida, um ato de desonestidade intelectual.

Dizer que a imprensa é livre e que os jornais têm o direito de se exprimirem como quiserem em seus editoriais é uma afirmação correta, verdadeira, e pode até ser muito bonita, a depender do contexto. Mas, ao mesmo tempo, é novamente desonesto não problematizar isso como um desequilíbrio se percebemos que não há editorias favoráveis em jornais de grande peso. É como dizer que a maravilha do sistema capitalista é que somos todos livres, muito livres, e que todos têm direito de comprar um Audi A4, por exemplo. Sim, eu tenho o direito. Daí a ter os meios, para gente como Magnoli, parece ser apenas um detalhe. Não problematizar isso é má fé. Pura má fé.

Mas, para Magnoli, é tudo muito simples, como no caso do Audi, e resume-se a Muniz e os jornalistas negros quererem impor suas opiniões em um seminário realizado com apoio de uma entidade do governo, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), donde, segundo ele, “sente-se de longe o antigo desejo stalinista de calar a opinião divergente”.

O problema do pobre Magnoli, entretanto, é que pegou o bonde andando. Se soubesse do que falavam os reunidos no seminário da ABI, provavelmente não teria desafiado Muniz a “provar objetivamente que há desequilíbrio”. Desafio dado, desafio aceito. Porque desafiar aqueles que são inventores e herdeiros da tradição do partido-alto e da embolada, se você não é de uma cultura que compartilha disso, definitivamente não é uma boa ideia. Quem não pode com mandinga não carrega patuá, como diz minha avó. E assim Magnoli deixou para as jornalistas Milena Almeida e Angélica Basthi lhe devolverem os versos em artigo redigido pelas duas e assinado por uma penca de gente boa, intitulado “Sim, é necessária uma nova Abolição”, também publicado no Observatório da Imprensa, em 15/12/2009.

Chovem números, coisa de que eu nem gosto muito, mas que é importante nessas horas, e até mesmo para atender aos pedidos de Magnoli. Citam, então, pesquisas realizadas pelo Instituto Universtiário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), ligado à Universidade Candido Mendes; pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT); e pelo Instituto de Artes e e Comunicação Social (IACS), da Universidade Federal Fluminense (UFF), que mostram o que eu havia visto desenhadinho no dia do encontro, numa apresentação com gráficos e tudo o mais.

Entre outros números disponíveis no artigo das jornalistas – que vocês deveriam ler por inteiro – destaco os de Veja e de O Globo. Em relação à primeira, por exemplo, diz o artigo que

Foram analisados 66 textos e artigos sobre o tema de janeiro de 2001 a junho de 2009, sendo 39% colunas assinadas e 38% reportagens.

Deste total, 77% continham avaliações negativas sobre as ações afirmativas raciais e apenas 14% favoráveis. Se tivesse feito essa consulto, o Sr. Demétrio descobriria, por exemplo, que deste universo, 19 reportagens são contrárias às ações afirmativas e apenas três são favoráveis. Em relação às colunas na revista Veja no período, 20 foram contrárias e apenas quatro favoráveis.

[João] Feres e [Veronica] Daflon [pesquisadores do trabalho em questão] identificaram que a partir de 2005, quando as políticas de cotas estão consolidadas no ensino superior público do país, as raras manifestações favoráveis às ações afirmativas simplesmente desapareceram da revista Veja.

Feres e Daflon analisaram ainda os títulos e suas mensagens explícitas na revista neste período. Um dos exemplos são os títulos “O grande salto para trás” e “Cotas para quê?”, ambos publicados em 2005. Ou ainda a reportagem em 2007 sobre o caso de um professor da Universidade de Brasília acusado de racismo, cujo título era “A primeira vítima”.

Em seguida, sobre O Globo, está lá:

De acordo com o levantamento [período de março de 2002 a julho de 2004], no total foram publicados 55% de textos negativos e 15% de textos positivos sobre as cotas. Neste contexto estão 34% de matérias negativas contra 6% positivas, e 66% de editoriais e artigos negativos contra 34% positivos. Outra vez questionamos: trata-se ou não de um desequilíbrio?

A verdade é que não é a primeira vez que esse indivíduo entra pelo cano. Não se pode levar a sério um cara que declarou, numa entrevista à Globo News (partes 1, 2 e 3), que acha bom o racismo brasileiro ser velado, porque demonstra um constrangimento das pessoas com o racismo, sem considerar o fato de que essa é justamente uma das questões que mantém as coisas em seu lugar, ou melhor, as pessoas nos seus lugares (mesmo que ele não concorde com isso, é sempre necessário falar disso, sim, e propor uma visão oposta). Em outra entrevista, dessa vez no Jô (partes 1 e 2), Magnoli diz que a consciência brasileira tem, “felizmente”, uma dificuldade de se definir racialmente, e que por isso o censo do IBGE localizou classificações como “marronzinho”, “queimadinho”, “moreninho” (nas palavras dele próprio na entrevista). Mas será realmente possível que Magnoli não consegue enxergar que nenhuma dessas classificações dão conta de pessoas brancas? Que são todas pessoas não-brancas que se classificam de mil modos, e que portanto há, sim, uma diferença entre ser branco e não ser branco? Que ser branco configura, portanto, um padrão intocável? Que, no país que recebeu o maior número de africanos na diáspora, a quase totalidade desse não-brancos são, em maior ou menor grau fenotípico, pessoas afrodescendentes? E que, nesse mesmo país, apesar de ele dizer que a raça não é definidora de lugares, essas pessoas não-brancas estão, desde sempre, em termos gerais, na base da pirâmide social?

Demétrio Magnoli é a bola da vez. Já tivemos a dupla dinâmica Yvonne Maggie & Peter Fry; César Benjamin; Ali Kamel. Essa é a estratégia da elite anti-cotas: vai elegendo personagens para alimentar a questão com a visão deles. E eles têm grande vantagem: estão em número esmagadoramente maior de pessoas que dominam o discurso da imprensa e o discurso acadêmico. Eles ainda têm muita bala no cartucho, e nós temos que exaurir nossos poucos. Mas somos fortes, muito fortes, porque desde cedo estamos nesta luta que é, sem exagero nenhum, diária. Energia não falta, e cérebro também não. Como diz o pai de um amigo meu, pressão a gente só aceita no chopp, e ainda assim só dois dedos, porque senão estão enrolando a gente.

Idelber Avelar, acadêmico, blogueiro e articulista de mão cheia demonstrou, em um recente escrito à Revista Forum, que Magnoli faz parte daqueles acadêmicos que são legitimados pela mídia como especialistas sobre um determinado assunto sem ter qualquer estrada na seara que escolhem para se tornar porta-vozes. Diz ele, ao início e ao fim de seu artigo belamente intitulado “Acadêmicos Amestrados”, no melhor de seu estilo:

Se um marciano aterrissasse hoje no Brasil e se informasse pela Rede Globo e pelos três jornalões, seria difícil que nosso extra-terrestre escapasse da conclusão de que o maior filósofo brasileiro se chama Roberto Romano; que nosso grande cientista político é Bolívar Lamounier; que Marco Antonio Villa é o cume da historiografia nacional; que nossa maior antropóloga é Yvonne Maggie, e que o maior especialista em relações raciais é Demétrio Magnoli. Trata-se de outro monólogo que a mídia nos impõe com graus inauditos de desfaçatez: a mitologia do especialista convocado para validar as posições da própria mídia. Curiosamente, são sempre os mesmos.

(…)

Poucos países possuem um acervo acadêmico tão qualificado sobre relações raciais como o Brasil. Na mídia, os “especialistas” sobre isso – agora sim, com aspas – são Yvonne Maggie, antropóloga que depois de um único livro decidiu fazer uma carreira baseada exclusivamente no combate às cotas, e Demétrio Magnoli, o inacreditável geógrafo que, a partir da inexistência biológica das raças, conclui que o racismo deve ser algum tipo de miragem que só existe na cabeça dos negros e dos petistas.

Magnoli já havia escrito artigos na parte de opinião do Estadão contra as políticas de ação afirmativa para negros, e por mais de uma vez atacou diretamente outro grande pesquisador, Kabengele Munanga, africano da República Democrática do Congo radicado no Brasil há mais de trinta anos e antigo professor da USP. Demonstrou enorme agressividade e falta de respeito para com alguém que trabalha a questão racial há muito mais tempo que ele, que decidiu aproveitar o momento para jogar holofotes sobre si. Em um dos artigos publicados no Estadão, “Monstros tristonhos”, chamou Munanga, acreditem, de charlatão, e nunca Munanga teve espaço, no mesmo jornal, para responder a Magnoli (é verdade que a resposta dele era um texto enorme, mas que poderia ser editada e publicada). A resposta de Munanga ficou rodando pela internet, e, por mais alcance que tenha, não possui uma estrutra e o nome de um jornal por trás.

Munanga e Muniz têm quilos de livros sobre questão racial, negritude e temas correlatos publicados. Munanga escreveu Negritude – usos e sentidos e Rediscutindo a mestiçagem no Brasil, referências para qualquer pessoa que trabalhe com a questão racial, seja qual for a posição adotada. A obra de Muniz, que conheço melhor, tem pelo menos dois livros capitais para se compreender a presença, os espaços e as interações possíveis para a população negra no Brasil: A verdade seduzida e O terreiro e a cidade. Tem pelo menos um livro importante sobre o tema do racismo: Claros e escuros. Escreveu dois outros livros que elucidam questões mais fortemente ligadas à questão da cultura negra (sem dissociar das implicações políticas que sempre as acompanham): Samba, o dono do corpo e Mestre Bimba: corpo de mandinga. Contribuiu também literariamente à herança que se deixa das possibilidades de expressão cognitiva ligadas ao universo negro, afrocentrado, com: O bicho que chegou a Feira, Santugri e A lei do santo. Muniz e Munanga são, ambos, pesquisadores históricos na área. São, ambos, pessoas que desde sempre pensam a questão racial, porque assim é quando somos atingidos por ela, e dela tomamos consciência. Ambos têm, além de tudo, vivência no assunto. Magnoli declara, na mesma entrevista para o Jô, que já tinha uma ideia antiga, mas que só começou a pensar em escrever sobre isso em 2005, por conta de uma ficha da escola da filha dele que pedia uma definição racial da menina. Percebem a diferença de peso e de compromisso com a questão?

Os dois autores acima citados, e também Gislene dos Santos, Nei Lopes, Joel Rufino, Neusa Souza Santos (in memorian), além de outros muitos que possuem obras fundamentais e/ou extensas sobre diversos aspectos que envolvem a questão racial, até onde sei, não tiveram oportunidades de serem entrevistados por Jô Soares ou pela Globo News. Nei Lopes só foi à Globo News no programa do deslumbrado Chico Pinheiro para mostrar seus sambas. À sua faceta de escritor que vem produzindo algo em torno de dois livros por ano, não lhe deram chance.

Para Magnoli, bastou publicar o seu Uma gota de sangue – e se tornou o especialista no assunto. Magnoli não percebe, porque é muito confortável não perceber, mas não há como negar que ele próprio personifica, ele próprio é o desequilíbrio a que Muniz se refere.

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21 Responses to “Geógrafo de quinta tenta argumentar contra intelectual completo de primeira e termina humilhado por jornalistas da pesada”


  1. 1 José Roberto Militao 21/12/2009 às 12:13

    Prezado,

    Nessa questão da mídia ´a favor´ ou ´contra´ políticas raciais é mais complexa do que Sodré Muniz e Magnoli revelam, independente do mérito acadêmico de cada um, pouco relevante para a matéria que deve apenas refletir uma realidade sócio-política relevante: é defensável que Estado legisle e faça segregação de direitos em bases raciais?

    A verdade é que de fato a mídia se posiciona em sua ampla maioria ´contra´ políticas raciais, o que não significa que esteja formando a opinião pública. O que ela faz é estar sintonizada com a opinião dos brasileiros e que isso reflete nas opiniões e nas pautas, sendo portanto, normal.

    A realidade é que conforme a índole dos brasileiros nada justifica essa pretensa cobertura equilibrada em assunto tão polêmico e matriz de uma questão muito séria: a falta de razoabilidade na defesa de políticas raciais no Brasil.

    Se coerente com a opinião pública, não é possível que seja equilibrada a defesa de uma política pública nociva ao conjunto da sociedade como é a criação da ´raça estatal´ em trâmite no país. A questão é: se aberto um debate público como a produção de ´bombas nucleares´ pelo Brasil, seria razoável exigir que a tal grande mídia, assegurasse espaços equilibrados para a defesa disso? É bem sabida a existência de uma forte corrente militarista que defende a posse de aramas nucleares pelo país.

    Destarte, o que interessa é se a mídia, no caso das leis raciais, está atenta para qual seja a opinião majoritária dos afro-brasileiros que seriam os beneficiários em tese da segregação de direitos raciais.

    Vejamos então: o estado do Rio de Janeiro é o único que tem leis raciais em vigência desde 2002 (Garotinho). Em pesquisa promovida por entidade que defende leis raciais os afro-brasileiros foram ouvidos e se pronunciaram ´contra´ a imensa maioria de 2/3 dos pretos e dos pardos (CIDAN/IBPS – http://www.ibpsnet.com.br/descr_pesq.php?cd=83).

    Pois bem, nessa pesquisa, realizada em 19/11/2008, num momento em que a se comemora o ´Dia da Consciência Negra´, portanto, de grande exposição positiva dos debates sobre racismo no Brasil, o resultado foi expressivo e merece ser respeitado: 62,1% dos pretos e 64,1% dos pardos, se declaram ´CONTRÁRIOS´ às leis raciais do Rio de Janeiro.

    Ora, se LULA e o OBAMA foram eleitos com 55% dos votos e estão legitimados a dirigir duas grandes nações, como poderia a ´grande mídia´ desconhecer a majoritária opinião da média de 63% dos que seriam, em tese, beneficiários de leis raciais?

    Entretanto, os defensores de tais leis, bem organizados em ONGs e cargos públicos, possuem articulação para pressionar os governos e parlamentares, e com isso, no dia 20/11/2008, conseguiram aprovar na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, nova lei de LEI DE COTAS RACIAIS que vigia a cinco anos, agora para vigir por DEZ ANOS, portanto até 2.018.

    Enfim, se a grande mídia assegurar 2/3 de opiniões aos ´contrários´ de leis raciais e 1/3 aos favoráveis a tal excrecência de políticas públicas, tendente à criação de uma sub-cidadania racial, estará apenas, refletindo bem e de forma justamente equilibrada a opinião da população afro-brasileira.

    a) José Roberto F. Militão, advogado civilista, membro da Comissão de Assuntos AntiDiscriminatórios – CONAD-OAB/SP.

  2. 2 Rafael Cesar 21/12/2009 às 13:19

    Prezado senhor Militão,

    Se, no início do século passado, tivéssemos perguntado às mulheres o que elas achavam de ter o direito de trabalhar fora de casa, nos melhores postos de trabalho que então estavam disponíveis, ganhando o mesmo que os homens, e tendo ainda possibilidades como dirigir, criar periódicos, ou se organizarem para combater a violência doméstica, podendo botar os seus maridos agressores na cadeia – sabe o que “a índole” (como você usou) dessas mulheres responderiam? Que não querem.

    Se fizermos um plebiscito, hoje, perguntando se o casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser garantido pela constituição, tendo os cônjuges direitos como pensão, dependência em seguros de saúde, e havendo inclusive a possibilidade de adotar crianças – sabe o que “a índole” do povo brasileiro diria? Que isso é sem-vergonhice.

    Sendo assim, como está sendo possível às mulheres, hoje, conquistarem ganhos salariais e espaços de poder que não tinham antes? Pelo seu raciocínio, elas deveriam continuar casando virgens, transar com apenas um homem ao longo de toda a vida e ficar em casa cuidando dos filhos, aguentando chifre e porrada de marido em absoluto silêncio (como, aliás, por contingentes históricos e de memória cultural, muitas ainda fazem).

    E os homossexuais, esses deveriam estar sendo queimados nas fogueiras.

    O mundo muda porque as ideias das pessoas mudam. Dizer que não podemos criar programas de ações afirmativas (que é uma coisa MUITO diferente de leis raciais; não me venha com sofismas) porque a população beneficiária é contra não faz nenhum sentido num regime de democracia representativa. Se fosse assim, teríamos de fazer plebiscitos para toda e qualquer decisão a ser tomada. E é por isso mesmo que os movimentos negros brasileiros se organizam de modo a defender determinadas posições.

    Você está usando a mesma lógica do geógrafo Demétrio Magnoli, crendo que negros e brancos partem dos mesmos contextos e mesmas possibilidades. Não se pode esperar que um país que não permite à população negra ter a sua representatividade na televisão (vamos contar nos dedos as propagandas e novelas em que há negros, e os tipos de papel que representam, bem como o número de apresentadores de telejornais, programas de auditorios etc?), na política (vamos contar nos dedos quantos representantes negros nós temos nos poderes executivo, legislativo e judiciário), nas artes em geral; num país em que a população negra está subrepresentada nas escolas e superrepresentada nas cadeias; num país que ainda não conseguiu inverter toda a estrutura social e simbólica (atente para o simbólico, que é muito importante) deixada pela escravidão, e que se reproduz pelo racismo – não se pode esperar que, num país com todas essas “qualidades”, a população negra se sinta com o direito de dar um passo tão grande que é… alcançar os mesmos espaços possíveis à população branca.

    Uma amiga minha sempre me conta de um livro antigo, chamado “The mis-education of the negro”, publicado em 1933 nos EUA por Carter Godwin Woodson, que tem uma frase célebre, e é mais ou menos o seguinte: nas atuais condições em que vive a população negra, se não houver uma porta de trás para entrar, o negro a constrói ele mesmo.

    Entendeu? É mais ou menos isso – que, aliás, é um fenômeno diaspórico, e não se restringe apenas a Brasil ou EUA, mas a todas as Américas.

    O que você chama de excrescência de política pública, eu devo devolvê-lo, dizendo que das suas opiniões excretam os piores sentimentos de quem, como demonstrou Muniz Sodré, tem saudades da escravidão, e quer manter as coisas exatamente no lugar, ao apontar: “veja só, os próprios pretos acham que não devem ter direito ao acesso às universidades em condições de igualdade aos brancos!” E, uma vez isso resolvido, você quer me contar que vai ajudar os discriminados com sua Comissão da OAB de “uma forma mais justa”?

    Amigo, não sou boi nem estou com sono, valeu?

    a) Rafael Cesar, professor de Português, Redação e Literatura Brasileira, mestrando em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense, autor do blog Meu Jazz – improvisações sem dó sobre temas afins.

  3. 3 José Roberto Militao 21/12/2009 às 17:22

    Prezado Rafael,

    O teu post evidencia que está preocupado com a manipulação da mídia sobre a opinião pública. Então, por favor, não manipule meus argumentos, essa temática é séria demais pois estamos tratando de políticas públicas que afetarão a vida e a cidadania de futuras gerações de afro-brasileiros.

    1 – sou antigo militante contra o racismo e dos primeiros defensores de Ações Afirmativas, desde os anos 1980. Acontece que AA tem sido empregada em todo o mundo, inclusive nos EUA, sem o recorte de identidade racial pelo estado. As ações afirmativas com base em segregação de direitos raciais somente foi experimentado nos EUA – durante o governo conservado de NIXON – e foi vetado pela Suprema Corte em 1978.

    Compreenda Rafaael, em AA o que gera direitos de inclusão é a discriminação por racismo, por sexismo, por machismo, por homofobia. Não é a ´raça´ que gera direitos, é a discriminação.

    Assim, não pode manipular minha crítica à segregação compulsória de direitos raciais como se uma crítica a AA. O erro é querer empregar AA em bases raciais. Cotas raciais não é sinônimo de Ações Afirmativas. AA é gênero, da qual, cotas raciais é uma espécie que a experiência revelou ser uma má política.

    Enfim, AA são políticas para neutralizar discriminações. Cotas são políticas de privilégios em bases raciais, a isso, exclusivo, que afirmo ser políticas ruins e repudiadas pelos afro-brasileiros.

    Outra coisa, é uma falácia do movimento negro racialista dizer que a ´Carta de Durban´ recomende direitos segregados. Leia, meu caro, a Carta e você somente vai encontrar uma recomeñdação: a de promover política especiais para garantir direitos de povos isolados, o que não corresponde à situação dos afro-brasileiros.

    O que diz a Carta e todas as Convenções é que as ´políticas especiais´ não podem resultar em direitos separados (art.1, IV da Convenção contra Discriminações RAciais).

    2 – acontece que AA não se confunde com segregação de direitos em bases raciais. Essa segregação de direitos exige que o estado legitime a crença racial e acolha na ordem jurídica a criação de ´raças´ estatais. É contra isso que argumento. Os afro-brasileiros não querem e não desejam ter uma identidade racial e isso não é de hoje. Veja que a resistência a escravidão não foi da ´raça negra´. Foram por milhares de Irmandades, de Cemitérios e associações de ´homens de cor´, ´homens pretos´ ou ´homens pardos´. Se vc. pesquisar não encontrará dentre milhares uma só que seja de ´negros´. O Dr. LUTHER KING, afirmou em sua famosa ´Carta da Prisão´ de Birmingham, 1963: “Uma lei injusta é uma lei humana sem raízes na lei natural e eterna. Toda lei que eleva a personalidade humana é justa. Toda lei que impõe a segregação é injusta porque a segregação deforma a alma e prejudica a personalidade.” (domínio público: v.google).

    3 – o problema Rafael, por isso essa nossa interlocução, é que ´raça negra´ conforme se adota nas políticas públicas e nos projetos de leis raciais, ou nessa pseudo-busca de ´igualdade racial´ é contemplar o sonho e os ideais do racismo. O racista sempre quiz fazer o Estado adotar a identidade racial. Nos EUA foram bem sucedidos nisso, e o resultado, se você não sabe é trágico.

    No conceito de raça está implícito uma hierarquia e nessa hierarquia a ´raça negra´ é a inferior. Se dito pelo Estado, não há como a sociedade negar essa ´verdade´ racista. A isso que LUTHER KING denunciava: a segregação de direitos deforma a alma e prejudica a personalidade da criança e do jovem afrodescendente. Fez isso nos EUA e fará isso no Brasil se implementada de forma continuada pelo Estado.

    4- Meu prezado, os efeitos do racialismo estatal que durou um século nos EUA, é devastador: pretos e brancos acreditam e pregam o pertencimento racial. Veja o que está ocorrendo com os afro-americanos. Enquanto se produz uma pequena elite preta, com cerca de uma dezena de milhar de milionários, executivos, artistas, médicos, empresários, produz-se ao mesmo tempo o niilismo social da juventude afro-americana.

    5 – Rafael, hoje, em 2009 com OBAMA Presidente, cerca de 5% dos afro-americanos estão sob custódia da justiça. São 2 milhões de jovens (16-24). Embora 12% da população representam 65% dos presos e 70% das meninas adolescentes grávidas. (V. no blog da insuspeita MIRIAM LEITÃO globo.com artigo de 27.12.2008).

    6 – É isso que ocorre quando o Estado diz a vc. e a teus filhos que são pertencentes à ´raça negra´. É o Estado dizendo que você tem raça e que, no sentimento comum do povo, essa é a raça inferior.

    7 – Por fim, a ´Comissão´ a que pertenço na OAB/SP foi articulada em 1984, com fins de produzir estudos e debates para a Constituinte e temos orgulho de ter contribuido para a criminalização do racismo (até então simples contravenção penal) e na garantia das terras para os Remanescentes de Quilombos, de quem, esse subscritor tem orgulho de ser filho de ´pretos´ que ocuparam ´terras de pretos´.

    A isso que combato: o estado não tem o direito de nos impor uma criação produzida para oprimir aos africanos. O estado não pode acolher na ordem jurídica a lógica do racista.

    É isso. Desculpe tomar seu tempo, desde já agradeço a atenção e a interlocução e parabéns pela preocupação e espero estar contribuindo para que jovens inteligentes como vc., não sejam seduzidos pela semente do racialismo que produzirá frutos venenosos.

  4. 4 Rafael Cesar 21/12/2009 às 19:10

    Prezado senhor Militão,

    Vamos, antes de qualquer coisa, combinar o seguinte: eu não o estou tratanto como um velho babão, então, por favor, o senhor não me trate como um jovem babaquinha que está iludido “pela semente do racialismo que produzirá frutos venenosos”, e da qual o senhor, do alto de sua sabedoria, pretende me salvar. Vamos nos tratar como homens, combinado? E, ademais, o senhor não precisa me pedir desculpas por estar tomando meu tempo. Eu abri o blog pra isso mesmo, e hoje, por acaso, tenho algum tempo para responder em meio aos meus trabalhos. Quando eu não tiver, realmente não vou responder (ou, ao menos, não com essa dedicação), e certamente não será por falta de vontade.

    Em primeiro lugar, sei muito bem que ações afirmativas não são necessariamente ligadas à raça. Podem ter o recorte que for. A minha colocação foi feita porque o senhor está chamando tais políticas de leis raciais, que é uma coisa bem diferente. E chamar de “leis raciais” as ações afirmativas de recorte racial é muito claramente um jogo retórico sujo. Leis raciais servem para separar grupos de indivíduos com base no seu genótipo (cuja percepção se dá pelo fenótipo), normalmente tirando-lhes direitos, espaços, poder etc. As ações afirmativas surgem com a intenção oposta, que é, justamente, de garantir espaços a grupos de indivíduos que não conseguem ocupá-los por diversas razões. A proposta é completamente diferente, e por isso afirmo que chamar de leis raciais é um jogo retórico (já que remete a uma outra coisa).

    Agora, vamos lá: você me diz que, quando criamoss políticas públicas baseadas no conceito racial, estamos realizando o sonho maior do racismo. Senhor Militão, não se engane: o maior sonho do racismo já está devidamente realizado. Foram três séculos e meio de escravidão com base na raça dos indivíduos, e depois de mais de um século do seu fim, o racismo subsiste em nossa consciência, mantendo a população negra longe dos espaços de poder. O Estado não precisa oficializar a raça para que ela continue existindo em nossas percepções, em nossas práticas, em nossa cultura. Eu, que sou um homem negro quase-branco, que estudei em ótimas escolas, ótima universidade, e que visto boas roupas, sou comumente mandado pela entrada de serviço quando vou visitar amigos que moram em prédios de bairros nobres. Não precisam criar um elevador para negros, como num estado de leis raciais: mesmo sendo um convidado, sou encaminhado a ele. Isso que acontece no elevador é apenas uma manifestação de uma ideia (o racismo) que segue corrente, e que pode se manifestar de outras formas, como violência física por parte de policiais e seguranças, ou mesmo a menor remuneração da população negra quando comparada em condições semelhantes de formação acadêmica de indivíduos brancos. O nosso Estado não é racial, mas a nossa cultura é. Quando o Estado adota políticas de cunho racial, ele não está confirmando que raças existem, mas apenas dirigindo determinadas políticas àqueles que têm um prejuízo específco, ou seja, está indo no ponto da questão para resolvê-la. Isto porque não se resolveem politicamente questões cuja raiz é o preconceito racial com base no preconceito de classe, por exemplo (são problemas diferentes, embora possam interseccionar-se), assim como não é possível quebrar as barreiras impostas ao homossexuais sem que se faça uma política específica para eles.

    Continuando, há muitas coisas em seu discurso que considero confusas, embora, realmente (sério, não é ironia), eu é que possa ter entendido errado. Por exemplo, o senhor afirma que “a resistência a escravidão não foi da ´raça negra´. Foram por milhares de Irmandades, de Cemitérios e associações de ´homens de cor´, ´homens pretos´ ou ´homens pardos´. Se vc. pesquisar não encontrará dentre milhares uma só que seja de ´negros´.” Acho que temos aqui um problema conceitual: homens de cor, homens pretos e homens pardos, na minha visão, é absolutamente a mesma coisa: são todos negros. Negros são aqueles que, em função da nossa cultura racista, são atingidos pelo racismo. Portanto, se são mulatos ou pretos, isso importa muito pouco frente ao fato de que estes estão muito mais próximos entre si em termos de trajetória social, e estão mais distantes da população branca. É claro que sempre houve brancos que estiveram juntos na luta abolicionista, mas a situação dessas pessoas é completamente diferente, porque jamais poderiam tornar-se escravas, e nem mesmo seus filhos. O problema não chegava a elas, e por mais que aqueles que lutavam contra a escravidão não fossem todos pretos, certamente eram um número muito pequeno – porque os escravos, esses sim, eram todos pretos. Não há como dizer que não havia uma base racial neste enredo todo.

    Por último, volto a afirmar que o senhor está se valendo de um retórica que, se não é muito sacana, é muito confusa – e no final acaba sendo uma grande sacanagem do mesmo jeito. O senhor afirma: “Meu prezado, os efeitos do racialismo estatal que durou um século nos EUA, é devastador: pretos e brancos acreditam e pregam o pertencimento racial”, e, logo adiante, diz que também por isso “hoje, em 2009 com OBAMA Presidente, cerca de 5% dos afro-americanos estão sob custódia da justiça. São 2 milhões de jovens (16-24). Embora 12% da população representam 65% dos presos e 70% das meninas adolescentes grávidas.” Senhor Militão, acredito que o senhor esteja se referindo às leis de Jim Crow e semelhantes quando fala dos efeitos do racialismo estatal que durou um século nos EUA. Agora, volto à questão lá de cime, referente às AA: é profundamente sofismático, para não dizer canalha, usar estas leis como argumento para dizer que as AA com base em raça vãop produzir efeitos semelhantes. Pelo amor de Deus, senhor Militão! São leis que, embora baseadas na questão raça, seguem caminhos completamente diferentes. As leis de Jim Crow queriam separar, e conseguiram. As AA buscam reaproximar aquela população segregada. Diferente do que o senhor diz ter acontecido (os tais efeitos negativos), na pesquisa que fiz para a cartilha Cotas Raciais: por que sim?, descobri que “O percentual de pessoas negras matriculadas passou de 13% em 1967 para 30,3% em 2000. A população negra matriculada no ensino superior representava 4,4% do total em 1966; dez anos depois, esse percentual subiu para 9,6% (o equivalente a 1 milhão e 33 mil pessoas negras).” (p. 31). onde está a negatividade nisso? Os EUA hoje têm uma elite preta milionária, têm uma classe média negra ilustrada, e têm negros vivendo na pobreza. Antes, todos os negros vivam na pobreza, praticamente. Esta é uma batalha que ainda está longe de terminar, mas que sem dúvida teve avanços concretos. As universidades americanas, hoje, SEM ações afirmativas para negros, têm proporcionalmente muito mais alunos negros do que as universidades brasileiras (e eu desconfio que até absolutamente). O senhor não pode dissociar estes dados atuais de tudo o que as ações afirmativas fizeram por lá durante um bom tempo. Por isso afirmo que é canalha a comparação que o senhor faz.

    O Brasil nunca encarou a questão racial, e com isso a população negra brasileira continua na mesma. Recebe proporcionalmente os ganhos que o Brasil todo tem, mas continua sempre o mesmo número de degraus abaixo. E, com isso, em termos de representação, o indivíduo negro tem sempre menos poder, porque é associado a um grupo que, concretamente, o tem. E isso se reproduz.

    O senhor diz que é “filho de pretos que ocuparam terras de pretos”. Não entendi se isso foi metafórico, ou se de fato o senhor tem antepassados negros. Mas, entenda, é muito diferente ter antepassados negros e ser negro. Ter antepassados negros, se o senhor é branco (como me parece ser, já que não afirmou ser negro), não o faz vivenciar e ser prejudicado pelo racismo. Nunca use isso como argumento de autoridade para justificar seus pensamentos, porque é muito ofensivo. O senhor não precisa ser negro para defender questões relativas aos negros.

    Um abraço.

  5. 5 José Roberto Militao 21/12/2009 às 21:40

    Sr. Rafael,

    Infelizmente o senhor reproduz o que de comum tem nos racialistas, diante da falta de bons argumentos, parte-se, covardemente, para a agressão ao interlocutor, oportunamente pela via digital.

    Eu não sou ´negro´. Negro é uma designação racial outorgada aos africanos destinados à escravidão, por Marquez de Pombal em 1.755 (V. o Directório do Índio, art.10). Eu sou um afro-brasileiro, que a 30 anos sou ativista contra o racismo, sem jamais ter tornado isso a minha profissão, e que agora, ao lado de 64% repudiamos as leis raciais e políticas públicas raciais.

    Nossos antepassados, nenhum deles quiseram pertencer à ´raça negra´ aquela designação imposta por Pombal – antecessor de Sarney no governo do Maranhão – no auge da criação do racismo. Eram homens e mulheres de ´cor´. A cor, Dr. Rafael é humana. A ´raça´ foi a estratégia do racismo para nos sonegar a inteira humanidade (MALCON X). Não é a toa que Sarney é o pai dos projetos destas leis raciais em trâmite no Congresso nacional.

    Meus argumentos não são canalhas. São argumentos que devam ser contestados, se fosse possivel contesta-los.

    Entretanto os teus argumentos são falaciosos. É falso dizer que ´cotas raciais´ seja equivalente a Ações Afirmativas que é uma doutrina nobre destinada a neutralizar as discriminações, cujo principal papel é assegurar a igualdade de tratamento e de oportunidade.

    AA faz a garantia da IGUALDADE, Sr. Rafael, jamais equivale a busca de ´privilégios´ raciais.

    Se possível, pesquise mais para não escrever bobagens em ´cartilhas´, e consigne com a respectiva fonte, aonde existem boas políticas de AA com base em privilégios e segregação de direitos. Não vale o exemplo da Índia, onde cotas foi criada pelos britânicos, exatamente, para dividir e controlar aquela imensa população.

    É falso dizer que ´cotas´ raciais fizeram milionários pretos nos EUA. Não foram ´cotas´ foram as AA sem nenhuma lei em base racial. O que o racialismo estatal nos EUA fez foi ensinar o pertencimento racial a brancos e pretos e o resultado disso são as estatísticas dramáticas referidas no post anterior.

    Há estudos sérios nos EUA que revelam que a renda média das famílias afro-americanas caiu de 35% a 40% nos últimos quarenta anos e, intelectuais afro-americanos, como CORNELL WEST, KELVIN GRAY, THOMAZ SOWELL, BARACK OBAMA e outros têm diagnosticado que o niilismo que se abate sobre os afro-americanos é uma tragédia inédita na história da humanidade: jamais houve numa população o percentual de 5% sob a custódia da justiça, ao mesmo tempo.

    Não tenha dúvidas, Sr. Rafael, estamos em lados opostos. O sr. quer contemplar o ideal do racismo, bebeu na fonte das Foudacion´s e quer ver institucionalizado o conceito de ´raça´ que servirá apenas para assegurar uma clientela passiva e dependendente de favores. Eu sou antirracista e lutarei sempre para destruir esse conceito construido para oprimir. Conforme dizia FRANTZ FANON o primeiro grande antirracista: ´numa sociedade com a cultura de raça, a presença do racista, será, pois, natural´.

    Lutarei pela reconstrução da humanidade dos afrodescendentes jamais para o acatamento da lógica do opressor que foi dividir os humanos e nos outorgar a ´raça inferior´.

    Pontofinalizao aqui a nossa interlocução. Passar bem.

  6. 6 Rafael Cesar 22/12/2009 às 04:32

    Ô dotô Militão! Porra, o senhor me faz escrever duas respostas enormes, que me tomaram horas em que eu poderia estar a) lendo para o meu mestrado; b) fazendo revisão de textos que tenho de entregar quarta-feira; c) transcrevendo áudios que tenho de entregar até o fim deste mês – para depois vir com esse papinho de que eu, como é comum entre os racialistas, o agredi me protegendo via web? Ah, dá um tempo e me forneça argumentos em cima dos que eu contrapus ao seus, né?

    Esse papinho de que nossos antepassados não quiseram ser negros e blábláblá é patético (não quiseram, mas foram, e isso cria um outro sentido de classe para eles, e também para nós, hoje), bem como o senhor querer dizer que é a mesma coisa ser filho de negros e ser negro. Seu Militão, eu sou filho de um homem branco, mas não nasci branco, e isso faz toda a diferença. Eu sou um prejudicado pelo racismo, e as pessoas brancas são beneficiadas por ele, por mais que nem todas sejam racistas.

    Aí, o senhor me diz que os seus argumentos não são canalhas, mas que deveriam ser contestados, “se fosse possível contestá-los”. Porra, tá me zoando, dotô Militão? Seus argumentos são impossíveis de serem contestados? É isso mesmo que eu li? Quer dizer que o senhor acredita em verdades absolutas, como, por exemplo, a de que os seus argumentos são o ponto correto da questão?

    Depois, olha que coisa vazia o senhor me escreve:

    É falso dizer que ´cotas raciais´ seja equivalente a Ações Afirmativas que é uma doutrina nobre destinada a neutralizar as discriminações, cujo principal papel é assegurar a igualdade de tratamento e de oportunidade. AA faz a garantia da IGUALDADE, Sr. Rafael, jamais equivale a busca de ´privilégios´ raciais.

    Jura? Mas considerar privilégios raciais o fato de termos pessoas brancas hiperrepresentadas na política, mídia, educação etc., nem pensar, né? Isso não é privilégio, é só uma coincidência no país que escravizou pretos por três séculos e meio de cinco de existência, claro! Muito razoável a sua colocação. O racismo, depois disso, desapareceu junto à assinatura da Lei Áurea, num passe de mágica! Que mundo lindo, gente. É pra lá que eu quero ir, na boa. (Mas nem em Pasárgada conseguiram isso, seu Militão.)

    E quer dizer que

    “É falso dizer que ´cotas´ raciais fizeram milionários pretos nos EUA. Não foram ´cotas´ foram as AA sem nenhuma lei em base racial.?

    Que AA foram essas, meu caro? Dá pra expor claramente, em vez de ficar dizendo que

    Há estudos sérios nos EUA que revelam que a renda média das famílias afro-americanas caiu de 35% a 40% nos últimos quarenta anos

    E, se essas rendas caíram, terá isso a ver com as AA raciais? Ou terá a ver com séculos de escravidão e segregação, que criam a memória cultural do racismo? Botar isso na conta das AA raciais, ou mesmo dizer que elas perpetuam isso, é muita má fé. Igual ao Magnoli, igualzinho.

    Por favor, seu Militão, pare de vomitar autoridades em mim como Martin Luther King, Jr., Malcolm X, West, Sowell, Obama, Fanon e a população afrodescendente brasileira. Isso é de uma covardia enorme. O senhor descontextualiza a colocação de todos, que falavam contra a divisão de raças em relação a leis como as Jim Crow, e ainda tem coragem de as aplicar às AA de base racial (que, já expliquei, não confirmam a raça, mas especificam determinadas políticas para os grupos atingidos pelo preconceito, dentre os quais, os pretos) para comprovar seu ponto de vista. Usar palavras dos outros, para falar o oposto do que eles queriam dizer, e ainda se aproveitar da autoridade por trás deles, é uma coisa muito feia. Viu como é canalha o seu argumento? Tanto assim é que o senhor, agora, fica dizendo que eu o ataquei em vez de debater os pontos que eu rebati.

    Por falar em Fanon, dotô, cuidado com a sua pele negra revestida por máscaras brancas, viu? Acho que o senhor não leu direito o que ele escreveu.

  7. 7 André Yaakoub 24/12/2009 às 22:22

    Belo debate para se ler em uma noite de Natal… Enfim, e a Miriam Leitão agora virou insuspeita!

  8. 8 Luís 27/12/2009 às 15:48

    Rafael, eu gostaria de fazer o seguinte esclarecimento: Demétrio Magnoli é, na verdade, sociológo, embora tenha obtido título de doutor em Geografia e lecione no DGeo da USP. Mas, sua formação principal é em Ciências Sociais / Sociologia. Claro que isto não muda o quadro que você, muito bem, criticou. De fato considero inaceitável que ele e outros intelectuais que nao fizeram carreira e trajetória acadêmica em torno das questões raciais ou sobre os meios de comunicação sejam apresentados pela “grande mídia” como especialistas no assunto enquanto é negada a palavra daqueles que realmente se dedicaram com afinco a estes temas.

    Por outro lado, a comparação contida no título de seu texto, que apresenta o Magnoli como “geógrafo de quinta” e o Muniz Sodré como “intelectual completo de primeira”, me parece um tanto preconceituosa. Por favor, acompanhe meu raciocínio: em primeiro lugar porque, ao tratar da questão racial, o prof. Demétrio não fala como “geógrafo”, nem tampouco a interpreta a partir do objeto e do corpo teórico-metodológico da geografia (ou de qualquer uma de suas subdivisões). Em segundo, o fato de não estar verdadeiramente apto para tratar de questões sobre as cotas raciais ou sobre o posicionamento dos meios de comunicação com relação a este tópico não quer dizer que ele seja despereparado ou inapto, a ponto de ser taxado como “de quinta”, para abordar outros temas, pois senão o mesmo adjetivo poderia ser aplicado ao Muniz Sodré quando o objeto da discussão for um outro assunto que não seja de sua real especialidade (como, por exemplo, política internacional) E esse julgamento seria igualmente injusto (e, torno a dizer, preconceituoso).

    Acho que a crítica de qualidade deve resistir à tentação de reproduzir algumas práticas reacionárias, dentre elas a desqualificação do outro. Você tem bons argumentos, sabe expô-los bem e seu texto prova isso (mesmo que nem todos concordem com o que você diz), por isso não vejo a necessidade de apelar para um título agressivo, porque isso é reprodução do que Diogo Mainardi e seus clones fazem aos montes na grande imprensa.

  9. 9 Rafael Cesar 28/12/2009 às 02:43

    Olá Luís,

    Olha, eu concordo contigo que sou agressivo, muitas vezes. É a raiva que bate. Depois releio meus textos e fico pensando que não precisava de tanto – não por medo de exagerar contra alguém (o que o Magnoli faz é muito pior; fora o fato de que ele é extremamente mal educado, como você vai ver num dos próximos posts, além do que já coentei sobre ele nesse mesmo post, chamando Munanga de charlatão, entre outras coisas), mas porque, no fim, acho que empobrece a coisa toda e tira o destaque dos argumentos, certamente. Até te agradeço as críticas, que são sempre bem-vindas.

    Mas, aí, são duas coisas. Primeiro, pensa comigo: eu posso até estar errado em chamar o Magnoli de geógrafo de quinta, porque ele pode ter escrito/elaborado coisas boas. Mas não faz sentido a sua argumentação de que eu não posso chamar o Magnoli de geógrafo de quinta, como se ele pudesse ser perdoado porque está falando de um assunto que não conhece (relações raciais), e que o Muniz não seria um intelectual de primeira se falasse de política internacional. A questão é: o Magnoli fala de relações raciais (e fala mal), e o Muniz não fala de política internacional. Isso muda tudo.

    Assim, o que acontece é que o Magnoli está falando um monte de bobagens (o que me faz qualificá-lo como um geógrafo de quinta, ou sociólogo, não importa); enquanto Muniz é um cara que escreve sobre os assuntos de que entende (temas “afro” e comunicação), tendo feito contribuições nos dois campos que o fizeram reconhecido na América Latina, EUA e Europa. O Muniz não escreve sobre política internacional, problemas climáticos, biologia molecular, engenharia de transportes, nada do que é estranho pra ele. E, como o que escreveu é bastante respeitável, ele é, para mim, um intelectual de primeira. Se tivesse escrito sobre essas coisas todas – que certamente resultariam em bobagem -, isso certamente faria dele um mau intelectual. O Magnoli está centrando sua produção atual em relações raciais, e só fala merda (ainda não li Uma gota de sangue, o badalado livro dele, mas pelas entrevistas e artigos, já sei mais ou menos o que está lá), cria sofismas, deixa de considerar coisas básicas que qualquer sociólogo tem que saber (aliás, ele parece um biólogo escrevendo, porque se esquece de falar de memória, história, representação, escravidão, tudo; ele não tem a menor ideia do que é racismo e seus efeitos, ou finge não ter, o que acho mais provável). O que ele anda falando não é só fraco, raso, etc – é tosco, cara. É muito tosco. Por isso tudo que afirmo que ele é um geógrafo de quinta. Pode até já ter escrito coisas interessantes sobre outros assuntos, mas o fato é que uma parte da produção dele é de quinta categoria. Ele pode não ser todo de quinta, mas da forma como se expõe, no tema em que se expõe, é de quinta.

    Nesse contexto, você acha tão prejudicial ou equivocado eu chamá-lo assim?

    Um abraço.

  10. 10 José Roberto Militao 28/12/2009 às 19:06

    Prezado André,

    a qualificação de ´insuspeita´ refere-se ao tema de leis de cotas raciais e demais políticas de segregação racial que são defendidas pela jornalista Miriam Leitão.

    A referência a ele, como insuspeita, é que os números da tragédia afro-americana foram postados por ela em seu blog no globo.com no dia 27.12.2008.

    Portanto, como é defensora do racialismo, a qualifico como ´fonte´ não suspeita de parcialidade. O que revelam os números por ela divulgado é que, em 2009, cerca de 45% de jovens afro-americanos (16-24 anos) estão presos ou sob custódia da justiça.

    O que deduzo com tais números é que a crença racial e o pertencimento à ´black race´ praticada nos EUA faz com que as crianças e jovens tenham sua personalidade destruida, pois, como vc. deve imaginar: não é fácil para uma criança compreender o pertencimento a uma raça que a sociedade racista dix ser a ´raça inferior´.

    É isso: luto para que o Brasil não adote leis raciais pois elas farão nossas crianças aprenderem que pertencem ´raças´ e as pretas e pardas o pertencimento à ´raça negra´ aquela que o racismo diz ser a ´raça inferior´.

    Como ´raça´ não existe, o Estado não tem o direito de nos outorgar um falacioso pertencimento racial.

    abraços, Militão.

  11. 11 Rafael Cesar 28/12/2009 às 19:58

    Sr. Militão, obrigado pelo esclarecimento ao André. Eu ia escrever isso para ele, também, mas acabei deixando de lado porque o cara está viajando além-Atlântico, e não deve ler isso tão cedo. No caso, o André zombou da insuspeição da Míriam Leitão porque, em muitas das coisas que diz, ela acaba sendo bastante suspeita, né? Eu, pelo menos, acho.

    Sobre o texto dela, encontrei lá de acordo com a sua indicação. Mas ela diz que é um jovem em cada três. Isso não seriam 33%, em vez de 45%? (Não que o cenário fique bom por conta disso, mas só corrigindo…)

    Entretanto, senhor Militão, repare também o seguinte: o mesmo cara que dispôs dos dados que você está usando para se colocar contra as cotas diz que

    a partir da escolha de Obama nas primárias, começou a se fazer um imenso silêncio nos EUA sobre a trajetória do movimento negro. O ponto dele é que, agora, fala-se de cada detalhe da saga pessoal de Obama, como se isso resumisse e resolvesse tudo; como se não houvesse um longo e doloroso processo ainda inconcluso, e assustadores sinais de perigo.

    Quando se refere à trajetória do movimento negro, creio que o autor esteja querendo dizer que a vitória do Obama só foi possível por causa das conquistas que os negros americanos conseguiram por lá. E dentre as muitas ferramentas para tais conquistas estiveram também as ações afirmativas, que possiilitaram que tantos negros entrassem nas universidades e em outros espaços. Vou insistir no meu ponto anterior: não dá pra colocar na conta das ações afirmativas de base racial o aumento da população carcerária negra dos EUA quando você tem por trás uma história muito maior de escravidão e leis de segregação que ainda mantêm – seja por reflexo direto ou pela memória social – tantos negros na pobreza, e impelidos ao crime.

    Abraço.

  12. 12 José Roberto Militao 28/12/2009 às 20:53

    Prezado Sr.Rafael,

    Faço minhas as observaçoes críticas do Sr. LUIZ, acima. Vc. tem ótimo texto e evidente interesse em tratar dessa questão, e um nível de compreensão dos fenômenos sociais que a maioria de nossos irmãos não tiveram oportunidade, o que merece muito respeito. Porém, na linguagem para interlocução, há que se elevar o nível. É o que proponho fazei-lo.

    Eu não ´vomitei´ autoridades. Cito reflexões de pessoas que, como nós, em nivel muito mais elevado, estveram empenhados na luta contra o racismo e dedicaram sua vida a isso: são respeitáveis. Todos eles lutaram para destruir a crença em ´raças´ e nenhum deles para afirmar o pertencimento racial. Mesmom Malcom X, no final de sua vida, foi executado por pretos radicais, exatamente por ter compreendido isso e abandonado o ódio racial: se propunha apenas a lutar por nossos direitos de humanos.

    No tocante aos dados do niilismo que atinge os afro-americanos, os dados denunciados por vários autores conferem com os citados por KELVIN GRAY (in Miriam Leitão). A minha referência é para os jovens masculinos. Os dados de GRAY se referem ao conjunto de homens/mulheres de 16-24.

    In verbis: “Nacionalmente, um em cada três jovens negros de 16 a 24 anos está sob algum tipo de supervisão da Justiça Criminal. Há dez anos era um em cada quatro.”

    Eu recorto e cito apenas os dados masculinos: 45% dos jovens 16-24. É a metade de uma geração perdida. Em relação às meninas a situação é ainda mais trágica. Elas estão gerando filhos sem paternidade (a que se referiu OBAMA durante a campanha). Ou seja, 70% da gravidez adolescente são meninas afro-americanas. Isso significa que em 15/20 anos uma nova e ainda maior geração de jovens, sem família regular, estarão nas ruas.

    O relevante dessa tragédia é que a 40 anos esses dados estavam declinando e voltaram a subir estratosféricamente. Os estudiosos debitam isso sim ao ´pertencimento´ racial que nos EUA os brancos e os pretos professam. O que ocorre, é a psicologia social que explica: uma criança hoje, alfabetizada e digitalizada, não consegue aceitar nem compreender o seu pertencimento a uma ´raça inferior´, isso reduz sua auto-estima HUMANA e a torna presa fácil da criminalidade.

    Na internet tem um filme que é revelador, feito nos EUA e talvez já tenha visto. Sete crianças pretas são colocadas em salas diante de uma mesa com duas bonecas, uma preta outra branca. Elas ficam sozinhas na sala. Uma voz então manda escolher uma. Todas, todas escolhem a boneca branca. A voz faz perguntas sobre qualiddades que veem nas bonecas. As crianças, todas, conferem as qualidades boas, para as bonecas brancas e as qualidades ruins para as bonecas pretas. Ou seja, crianças de 4/5 anos, já possuem essa auto-rejeição de sua própria imagem.

    Essa criança, sem auto-estima, não quer o pertencimento racial que seus pais, amigos, professores e o Estado norte-americano lhe atribui. Diante da imposição da ´black race´, é uma violação à dignidade humana dessa criança que o Estado, em nosso caso, não tem o direito de impor às nossas crianças.

    O interessante do niilismo social é que não é uma questão só de pobreza. Também os filhos da classe média e de milionários afro-americanos, atletas, jornalistas, médicos, executivos enfim, também estão delinquindo em proporções 4 vezes maior que a média.

    No Brasil, onde não o Estado não nos ensinou a acreditar num pertencimento ´racial´ a criminalidade é questão social: os pobres, pretos ou brancos, praticam crimes em razão do ambiente social. O que há é que a maioria dos pobres são pretos. Nós não temos jovens pretos e pardos da classe média brasileira na criminalidade. O que temos é na mesma proporção da criminalidade na classe média.

    Ou seja, o sentimento ´racial´ é degradante para as crianças que se tornam jovens revoltados e desiludidos, sem esperanças, pois o racismo ensina que pertencem a uma ´raça inferior´.

    É contra essa ´raça´ compulsória que tenho lutado, pois o Estado não tem o direito de nos impor uma identidade racial, que é exatamente aquilo que o racismo sempre desejou. Quando temos uma identidade racial, nós perdemos a dignidade humana.

    Querido, essa matéria é da maior relevância, continue atuando, nós precisamos de intelectuais que compreendam a realidade social e náo de ´militantes´ que se profissionalizam e passam a defender interesses pessoais.

    boas festas.

    abraços, Militão.

  13. 13 Não somos apenas rostinhos bonitos 29/12/2009 às 16:28

    Que descoberta este blog, amamos!

  14. 14 Rafael Cesar 30/12/2009 às 13:55

    Que legal, rostinhosbonitos! Eu pensei a mesma coisa quando descobri o blog de vocês. Fico muito feliz. Um abraço!

  15. 15 Rafael Cesar 31/12/2009 às 21:00

    Sr. Militão,

    Esclarecida, agora, a proporção de 45% de jovens negros encarcerados ou sob custódia da justiça – e não um em cada três – que o senhor citou. Beleza, obrigado.

    Mas, para além disso, há coisas muito mais reveladoras e interessantes neste seu último comentário. Primeiro, o senhor diz que eu tenho um “nível de compreensão dos fenômenos sociais que a maioria de nossos irmãos não tiveram oportunidade”. Acho curioso você utilizar esse termo após ter dito que não era um homem negro, já que isso era denominação do Marquês de Pombal (acho que isso é viagem do senhor, porque negro é chamado de negro por todas as Américas, e pelo mundo todo; vai ver o Pombal tinha mais influência do que eu imaginava…), e que raças não existem, somos todos humanos, uma coisa só etc. Como, agora, me vem falar de “nossos irmãos”? (Não me diga agora que se referia aos “humanos” ou aos “pobres”, porque aí sua colocação não teria feito sentido.) Eu sei que o senhor é um homem afrodescendente, e que sabe muito bem o que é sofrer racismo, e por isso se refere a mim e a outros afrodescendentes como um irmão do senhor (o que, aliás, isso sim é cópia de americano, convenhamos; confesso que não curto essa mania da militância negra brasileira cunhar todo negro de irmão, mas é implicância minha). Mas o que fica claro para mim é que o senhor é muito conveniente e nada coerente em suas falas sobre o tema. Quando interessa, diz que negro não existe, quando interessa, diz que somos irmãos pelo fato de sermos negros. Há que definir uma posição, amigo.

    Em seguida, o senhor comenta que os números relativos à criminalidade e gravidez precoce da população afro-americana estava caindo, e que, de 40 anos para cá, voltou a subir. E, segundo estudiosos, a raiz do problema está no pertencimento racial em que os americanos tanto acreditam e investem. Muito bem, eu posso concordar com o senhor que a crença no pertencimento racial é danosa, maléfica etc. Só não posso concordar – e vou falar isso com o senhor pela última vez, porque das duas ou três vezes que mencionei, o senhor não respondeu – que as ações afirmativas com base em raça tenham essa responsabilidade toda. Acho pouco pouco provável, também, que esses estudiosos (cujos nomes o senhor não cita) acreditem nisso. Pelo menos, não creio que deem às ações afirmativas de base racial o mesmo peso de responsabilidade que devem dar à escravidão e às leis de segregação que ainda estão na memória do americano médio, bem como o imaginário racista que se mantém sendo construído e transmitido por mil outras maneiras.

    Aí, o senhor vai naquilo que, para mim, é o ponto central de toda a questão do racismo: a auto-estima do indivíduo negro, que, como o senhor bem colocou, não se refere apenas a uma coisa de tristeza, como às vezes é tão banalmente dita, mas sobretudo a uma crise de representação deste indivíduo. Este ponto, senhor Militão, que faz com que as meninas americanas não gostem das bonecas negras (já vi o filme, é assustador; qualquer dia posto no blog, obrigado pela lembrança) e prefiram as bonecas brancas. Aproveitando esse gancho, o senhor afirma que

    No Brasil, onde não o Estado não nos ensinou a acreditar num pertencimento ´racial´ a criminalidade é questão social: os pobres, pretos ou brancos, praticam crimes em razão do ambiente social. O que há é que a maioria dos pobres são pretos.

    Senhor Militão, não consigo entender como o senhor diz que tal matéria é da maior relevância, como o senhor pode ter qualquer envolvimento com a questão racial, como o senhor pdoe ser ativista há mais de 30 anos no combate ao racismo, como disse – se acredita que não fomos ensinados a crer em raças. Qual o sentido? Na minha cabeça não entra. A própria ideia de que o Estado não nos ensinou a crer em raças é completamente absurda, para mim, num país em que pessoas negras foram escravizadas por 350 anos de 510 (feliz ano novo!) de existência. E se nos últimos 122 anos o Estado não nos ensinou que pertencemos a alguma raça, nós mesmos fizemos esse papel através da História do Brasil que contamos aos nossos alunos, onde o negro sóa aparece como aquele escravo passivo que só foi libertado quando a Princesa Isabel e a Inglaterra decidiram que era o momento; das propagandas, que não exibem negros; das novelas e telejornais, que fazem o mesmo; da ausência de negros em cargos de chefia ou visibilidade, mesmo quando têm formação idêntica ou superior à de profissionais brancos; dos nossos ditos populares e piadas, que são a melhor expressão da consciência coletiva (o senhor conhece “piada de branco”?); da polícia, que revista, reprime e mata muito mais negros do que brancos (olha o Estado aí), fazendo o negro aprender que, mesmo sendo inocente, é suspeito – senhor Militão, é uma lista interminável.

    Essa representação negativa que a sociedade criou sobre o negro, e que o negro reproduz sobre si mesmo, acontece no Brasil também. Isso não é fenômeno norte-americano, mas diaspórico, meu caro. Para onde foram escravos, isso aconteceu. Dou um exemplo para o senhor: não sei de onde o senhor afirma com tamanha segurança que a criminalidade de negros de classe média é a mesma de brancos de classe média (não que eu duvide disso, até acredito, pra falar a averdade), mas posso te afirmar, por uma pesquisa feita pelo próprio MEC, que o rendimento escolar de alunos negros, comparado ao de alunos brancos nas mesmas condições socioeconômicas e com pais de mesma escolaridade, é inferior. E quanto mais elevado é o nível educacional, e quanto mais rico é o ambiente, maior é a diferença (os dados estão na cartilha). Isso é fruto, sim, dessa crise de representação e de autoestima. Essa é a nossa grande fragilidade e o nosso grande problema. Então, afirmo ao senhor que não perceber o problema da autoestima do negro no Brasil – como indico ao senhor no caso da educação, e com os exemplos do parágrafo acima de como isso é construído – é ver o problema por uma lógica muito pobre, que não percebe o poder de nossas culturas e do nosso modo de ver o mundo na constução do espaço e das dinâmicas que nos envolvem. Acreditar que somos absolutamente diferentes dos norte-americanos, quando a história da escravidão é tão semelhante em sua essência por todas as Américas e Caribe, é um enorme equívoco, no meu modo de ver.

    Por último, eu usei o termo “vomitou” naquele comentário em relação às suas citações de Malcolm X, Luther King, Fanon porque, pra mim, o senhor as está usando em um contexto completamente diferente daquele em que foram proferidas originalmente, e está, inclusive, invertertendo o sentido das mesmas, ou a proposta política que tinham. E se valeu das mesmas apenas por serem de grandes figuras da história da luta contra o racismo (daí a “autoridade” a que me refiro). Eu acho que os três estariam se revirando no caixão se ouvissem isso de você. Por mais que quisessem um mundo onde não houvesse diferenças entre negros e brancos, eles sabiam da urgência de os negros conquistarem poder político para conseguir o seu espaço na sociedade e pararem de sofrer as agruras que sofriam. Ou o senhor acredita que os brancos americanos um dia iam perceber que estavam fazendo coisas muito feias com os negros, e então iriam se arrepender e parar com tudo? O senhor acredita que o racismo, venha de brancos ou venha dos próprios negros, vai sumir numa epifania de consciência e justiça? Se isso vai acontecer, quando será? E será justo a população negra esperar que esse dia chegue para ter o espaço que lhe é devido?

    Abraço e boas festas para o senhor também,
    Rafael.

  16. 16 José Roberto Militao 03/01/2010 às 21:21

    RAFAEL, sou ativista contra o racismo faz mais de 30 anos e não faço disso meio de vida. É uma questão de princípio ético. Me refiro a nossos ´irmãos´, humanos afro-brasileiros e não à designação racial de ´negros´. (Já utilizei e aprendi que estava errado pois essa é uma linguagem racista).

    Vc. está enganado: ´negro´ não é utilizado ´no mundo todo´. Apenas na língua portuguesa e espanhola – herança pombalina – pois, pois. Nos EUA eles são black ou na África do Sul e demais países africanos.

    Como essa é tua seara vc. conhece o poder da linguagem conceitual: ´negro´ não é sinônimo da cor preta nem de afrodescendência. É uma designação pejorativa, degradante e infamante, conoforme declarava o Marquez na Lei de 1755 – art.10 (V. Google -´Directório do Indío). Nos EUA se chamar um black (preto) de ´negro´, estará arrumando uma grande confusão… rss. É considerado ofensa!

    É verdade que a nossa literatura e as traduções de literaturas estrangeiras sempre se referem a ´negros´ em vez de pretos ou afrodescendentes: é que a nossa universidade no século XX havia acolhido essa linguagem racialista, herança de Pombal… Tenho feito essa crítica em cada debate que tenho com acadêmicos: essa designação é racial.

    Com relação à tal identidade racial, que nós, ainda bem, não a temos, está documentado desde ORACY NOGUEIRA (Tanto Preto Quanto Branco, USP, 1953), que nos legou a diferença entre o racismo no Brasil e EUA: lá era de origem (racial) aqui é de marca (a cor). O que deduzia é que no Brasil, a raça não foi assimilada nem por pretos (eram humanos de cor) nem por brancos. Ano passado (2009) outra pesquisadora a FRANCISCA CORDÉLIA, da UnB, chegava à mesma conclusão:
    http://www.unb.br/noticias/bcopauta/index2.php?i=567 ou seja, nós não temos e não prezamos a identidade racial.

    A respeito dos afro-americanos, a repulsa a sua própria imagem, aquela baixa estima das crianças, é uma imagem da perversidade da crença racial: você fazer uma criança acreditar que pertença a uma ´raça´ que ela aprende ser a ´raça inferior´ é uma violação à dignidade humana daquela criança. Tenho filhos: 18, 17 e 7 anos. Sei o que representa a auto-estima de uma criança. Sem ela, o niilismo social é a condençaão de seu futuro. O fato não é que as meninas ´não gostem de bonecas pretas´: elas não gostam de si mesmas!

    Concordamos que o racismo é uma doença que produz vítimas e que essas vítimas são os afrodescendentes, em todos os cantos do mundo. O que não concordamos é com a terapia no combate a isso: você defende ainda mais racismo. Eu entendo que a única terapita plausível é a destruição da crença em ´raças´.

    Nisso entra as leis raciais. Quando o estado confere direitos raciais ele produz ódios fratricidas. Em Ruanda houve nos últimos dez anos um genocídio de 4 milhões de Tutsis e Hutus. Eram ´etnias´(no sentido correto do termo) que coabitavam aquele território a milhares de anos, em paz. Os belgas, na lógica colonial, para dominação, no início do século XX outorgou direitos distintos a Tutsis e Hutus: demorou 90 anos e o genocídio desses povos irmãos.

    Outras experiências de leis raciais vc. conhece: nos EUA da segregação; na Alemanha nazista, na Itália facista, na Índia das castas, e na África do Sul do aphartheid. O estado legislar sobre ´raças´ é realizar o ideal do racismo realizado em 1755 no Brasil. Ou seja, onde o estado oficializou políticas raciais, profundou o racismo.

    Em relação aos autores que tratam do niilismo dos afro-americanos: KELVIN GRAY (já referido); THOMAS SOWEL (Ações Afirmativas ao redor do mundo, traduzido e com boas resenhas na internet) e CORNELL WEST são fáceis de encontrar. OBAMA BARACK se referiu a isso no livro ´Audácia da Esperança´ e num de seus principais discursos da campanha (após a divulgação daquele vídeo do Pastor Writh).

    Quanto aos falecidos, lembro que o mais radical deles foi MALCON X e ele foi assassinado por pretos racistas radicais, exatamente quando, abandona o discurso do ódio racial e religioso e passa a declarar:

    “a estratégia do racismo foi dividir a humanidade e sonegar nossos direitos humanos. Não devemos lutar por separação: lutamos por nossos direitos de humanos.”

    Enfim, meu prezado, parece que vc. somente tem bebido nas fontes do racialismo, viciado pela crença e pregação de raças distintas. Nós somos apenas humanos e temos o dever de lutar para que os racistas aprendam isso.

    A divisão dos humanos em ´raças´, é recente, a partir de 1.730/1.750 (época da criação da ´raça negra´) e poderá ser destruida também, em alguns séculos.

    abraços, Militão.

  17. 17 Rafael Cesar 13/01/2010 às 19:59

    Militão,

    Desculpe a demora em respondê-lo. Estive de férias, viajando, e não dava pra concentrar e escrever com calma.

    Acho louvável o senhor ser ativista contra o racismo há mais de 30 anos, mas discordo completamente da ideia de que fazer disso meio de vida seja algo antiético. É claro que, muitas vezes, pode, sim, trazer problemas éticos (o primeiro seria a ideia de que, acabando o racismo, acaba o meio de vida desta pessoa, algo paradoxal; é como o político que alimenta os problemas para ter motivos para ser eleito, ou o fabricante de antivírus que lança vírus na rede). Entretanto, me parece muito inocente acreditar que é possível batalhar contra o racismo sem uma “profissionalização” desta luta. À medida que os movimentos se organizam, naturalmente vão ganhando poder político, e o caminho não pode ser outro que não entrar na máquina política para atingir os seus interesses. Se não tivéssemos ONGs e políticos defendendo nossos interesses, não haveria qualquer possibilidade de termos conseguido, por exemplo, leis como a Caó (nem sei se o Caó fez do combate ao racismo meio de vida antes ou para além do mandato que teve, mas sem dúvida só lhe foi possível fazer a lei porque houve uma estrutura de pessoas que se dedicaram em tempo integral a isso, e não é possível fazê-lo sem receber dinheiro para tal), as campanhas de combate ao racismo e valorização da afroascendência (“Não deixe sua cor passar em branco”, “Onde você guarda o seu racismo” etc.), enfim, tantas ações fundamentais. Sem pessoas que ganham suas vidas cuidando de questões relativas ao meio ambiente, não teríamos Protocolo de Kyoto, COP 15 (que ainda não deram os resultados desejados, mas são esforços necessários); sem pessoas que ganham suas vidas tratando dos direitos da mulher, não teríamos ferramentas para o combate à violência doméstica. Por que com a questão racial deveria ser diferente? Dizer que é antiético ganhar a vida com o combate ao racismo me parece uma colocação de quem quer ser mais realista que o rei. Se hoje não houver pessoas organizadas para fazer isso, o máximo que teremos serão artigos em jornal e passeatas. E, aos poucos, os artigos deixam de ser publicados (porque perde-se a força política legitimadora que pressiona os jornais a publicá-los) e as passeatas vão-se tornando atos isolados que não teriam continuidade.

    Em relação ao uso do termo negro, acho que há uma confusão. Eu sabia que “só” na América Latina usava-se negro para se referir à população afrodescendente, mas nunca tinha entendido isso como uma manifestação racista, como o senhor coloca. A minha colocação foi apenas porque não via nenhum racialismo em chamar alguém de negro – e o senhor busca me comprovar isso referindo-se ao directorio dos indios, que já vou comentar. Mas, antes, quero lembrar-lhe que também os franceses (“noir”) e italianos (“nero”; no caso dos italianos não estou totalmente certo de que não seja ofensivo, mas acho que não) também usam o termo “negro”. Por isso, me parece muito mais uma questão relativa à nossa raiz latina do que à influência do Pombal. Teríamos que pesar isso aí melhor a partir dessa minha observação, não acha?

    Mas, em relação a ser um termo racialista e racista, também não posso concordar totalmente contigo. É evidente, como está lá no próprio Directorio dos Índios (que eu não conhecia), que o termo negro era usado para designar os escravos. Isso, aliás, me dirimiu uma curiosidade que eu tinha: por que os índios, até certo momento da nossa história, eram chamados de negros, se não eram negros como os pretos. Agora entendo. Mas o que quero dizer, aproveitando que esta é minha seara, como o senhor apontou, é que o senhor não precisa ter a preocupação em ser chamado de negro, pelo simples fato de que esse sentido de “escravidão” para negro não existe mais em nossa língua corrente, e sequer está em nossa memória. Estou falando isso de minha experiência de falante da língua, ok? Pense comigo: o termo negro tornou-se, no Brasil, respeitoso para se tratar de afrodescendentes. Tornou-se parte da linguagem culta, jornalística etc. Não tem, nem de longe, a possibilidade de ofender como, por exemplo, “crioulo”, “tição”. Ninguém fala “negro é uma merda, quando não faz na entrada, faz na saída”. Nessas horas, dizem “PRETO é uma merda”. Mas quando é pra falar que é lindo, o termo é “NEGRO é lindo”. Veja, novamente, como o sentido das palavras muda: alguém no Brasil usa “crioulo” para se referir aos antepassados de origem europeia nascidos aqui, como é no caso dos países de língua hispânica? Claro que não, não faz nem sentido, sequer se faz entender. Da mesma forma ocorre com o termo “negro”. Lá pro meio, acho, d’Os Lusíadas, Camões faz referência a uma mulher negra por quem ele teria se apaixonado. Essa mulher não era africana, como pensaríamos numa primeira leitura, mas oriental. O senhor usaria o termo “negro” para se referir a alguém oriental? Certamente que não, embora este também já tenha sido o uso para o termo. O senhor sequer entenderia, em sua leitura d’Os Lusíadas, que essa mulher era oriental, como ninguém na minha sala entendeu até que a professora explicasse. Todos pensavam, logicamente, que fosse uma africana. As palavras passam por esvaziamentos semânticos, novas significações, e podem mesmo desaparecer. No caso, o sentido de escravidão se esvaziou. Achei interessante saber que o termo referia-se, necessariamente, ao escravo (e não à cor da pele, embora haja aí, forçosamente, uma relação com a cor da pele, certo?), e especiamlente para os acadêmicos é bom que saibam disso, mas recuperar esse sentido me parece uma inócua batalha pelo politicamente correto. Já fizemos uma coisa muito mais interessante, que foi inverter o valor pejorativo que a palavra possuía. Por isso não concordo que, a essa altura, seja um termo racista.

    Em seguida a isso, o senhor repete argumentos que estamos discutindo há semanas, dizendo que invisto no racismo, mas sem me responder a alguns pontos que me parecem fundamentais, e que já lhe perguntei.

    A primeira questão é a seguinte: como o senhor pode estar há 30 anos lutando contra o racismo se não acredita que o racismo seja o responsável, por exemplo, por levar a população negra ao crime, debitando os altos índices apenas o contexto da pobreza? Qual o sentido de lutar contra o racismo? É apenas por nos chamarem de macacos ou dizerem que quando não fazemos merda na entrada, fazemos na saída? Se for só isso, se para o senhor não é uma questão estrutural em nossa cultura ou em nossa psicologia, realmente o racismo é uma coisa muito branda por aqui. Mas, estranhamente, não explicaria, por exemplo, aqueles números de rendimento escolar que indiquei ao senhor na cartilha. E seria muito estranho achar que 350 anos de escravidão – acabados há relativamente pouco tempo – nos legariam tão poucos males, não acha?

    Em segundo lugar: o senhor me afirma que o brasileiro recusa definições raciais, apontando Oracy Nogueira, que mostra a diferença do racismo no Brasil e nos Eua, por marca e por origem, respectivamente, e Francisca Cordélia, que pelo que li na matéria indicada, só comprova que a ausência de definição faz parte do nosso pensamento racista (sobretudo porque a dúvida é sempre quando não se é branco; quem é branco não tem dúvida nem dificuldades de assumir que é branco). A minha segunda pergunta, então, é para tentar entender como pode ocorrer de o indivíduo afrodescendente sofrer preconceito racial se não há a crença em raças, como o senhor diz? O que explicaria tal situação? Isso é praticamente uma impossibilidade lógica, a meu ver.

    Em relação aos autores citados, ainda não tive a oportunidade de ler nenhum deles (acho que já li um artigo do Cornell West, na verdade), mas espero fazê-lo assim que puder. Só teria a dizer que Obama, na minha opinião, desfaz o discurso de raça numa estratégia puramente política. Ele, como negro, entra devendo, e tem uma posição muito mais frágil do que qualquer presidente branco. Veja, por exemplo, que ele preferiu tomar cerveja com o policial que confundiu Henry Louis Gates Jr. com um ladrão do que exigir a prisão do mesmo. Por quê? Porque sabe que isso iria acirrar toda a questão racial, já que ele é o primeiro presidente negro. Tenho certeza que ele não teria a mesma dificuldade de condenar um homem negro, em vez de fazer essa mis-en-cene toda, porque isso não geraria conflitos. Tudo continuaria como sempre foi. Repare que, nos discursos dele, por várias vezes ele falava da grande conquista que era, para os EUA, ter um presidente como ele. Mas ele NUNCA fala que é por ser negro. No discurso de vitória, ele disse que os EUA haviam provado que os céticos estavam errados, e que aquela era uma grande noite. Porra, do que ele falava? Do fato de ser o primeiro presidente preto, é óbvio. Mas ele não podia falar isso explicitamente. No discurso dele de candidatura às prévias do partido, ele começa dizendo “Let’s face it, America: minha presença nessas prévias é algo bastante improvável”. E novamente não fala que é por ser negro. Ele evita o assunto porque sabe que é pedir pra tomar porrada, e não porque ele acredita numa nação pura e sem racismos. É claro que ele deseja isso e trabalha para tal, mas o que estou dizendo é que essas atitudes dele têm muito mais a ver com uma autopreservação política do que com a construção de um país sem racismo dentro dos próximos 4 anos.

    Volto a insistir em outra coisa: o senhor está misturando alhos com bugalhos ao colocar no mesmo saco, e propor que terão os mesmos efeitos, leis raciais que tinham fins segregacionistas e de dominação, como foi nos EUA, África do Sul, Alemanha etc. e políticas públicas de ação afirmativa que buscam contornar os efeitos negativos que uma determinada parcela da população sofre em função do preconceito e de uma herança social. Por mais que essas políticas possam trazer conflitos, vamos combinar de uma vez por todas, Militão, e pela última vez, que não podem ser tidas como a mesma coisa que as leis segregacionistas. As ações afirmativas não visam a dominação, por exemplo. O senhor acha que, por causa das ações afirmativas, teremos um grupo dominando o outro neste país? Mais do que já temos? Ou que isso volte a ser feito de modo explícito como foi na escravidão? O senhor realmente acredita nisso?

    Quanto à invenção de raças que o senhor cita, é completamente absurdo afirmar que ela só ocorre a partir do século XVIII. É só a partir do século XVIII que ela ganha status científico (o que não é pouco, claro), mas isso decorre de um processo muito mais antigo. A ciência só vem embasar uma ideologia que já era corrente e que já tinha seus impactos sociais. Fala-se de raça no Antigo Testamento, senhor Militão. Marco Polo fala de raças em seu livro de Maravilhas. A escravidão africana foi baseada na ideia de que os homens negros não possuíam alma. Isso é racial, sim, mesmo que não seja dito explicitamente (e acho que o foi, não?). Ou, como dizia um antigo professor meu de literatura, o senhor acredita que isso é campeonato carioca, e que foi no esquema “Suderj informa: sai ideologia não racial, entra ideologia racial”? São processos, querido. E jaá está tudo lá, mesmo quando não é oficial.

    O senhor diz, por último, que sou um racista, ou que invisto no racismo, algo assim, e que, ao contrário, o senhor luta para que as pessoas simplesmente deixem de acreditar em raças. Aí, novamente, pergunto ao senhor (porque, como de costume, o senhor não me responde): será justo a população negra esperar que esse dia chegue para ter o espaço que lhe é devido? Até lá, vamos aguentando? O senhor acredita que o racismo vai sumir numa epifania de consciência e justiça social? O senhor acredita na Era de Aquário, senhor Militão?

    O racismo é um mal-estar que sempre vai existir, senhor Militão. É natural, faz parte do estranhamento. Eu estranho quando meus vizinhos nordestinos colocam forró em altíssimo volume ao lado da minha casa. Pra mim, é estranho, e me incomoda a presença deles ali. O problema é que estamos estranhando negros nesse país há 500 anos. Negros estão aqui desde praticamente o achamento do Brasil, mas ainda não podem se sentir em totalmente em casa. O estranhamento não acaba com palavras bonitas e dizeres de que raças não existem. E eu não posso ficar esperando o dia que aqueles que me estranham decidam parar de me estranhar. Quem tem fome tem pressa, lembra? Enquanto não houver uma possibilidade de “convivência” em igualdade (não apenas no bar, no carnaval, mas no trabalho, na divisão de poder, nas esferas íntimas), como o Muniz Sodré já havia apontado em Claros e Escuros, não haverá a internalização de que o racismo é uma estupidez. E as ações afirmativas forçam essa convivência, que não acontece justamente pelo estranhamento, formando um círculo vicioso que não se desfaz (estranha e afasta porque não convive, e não convive porque estranha e afasta), que não acaba sem uma interferência externa, sem luta.

    Um abraço,
    Rafael.

  18. 18 José Roberto Militao 06/06/2010 às 23:11

    Prezado Rafael,

    fiquei devendo uma resposta a você. Porém, início do ano foi muito cumplicado. Além disso, em 05/03, tinha minha exposição no Supremo Tribunal, na Audiência Pública sob o tema designado pelo Ministro Lewandowski: ´Raça Estatal e RAcismo.”

    Em razão da ampla divulgação, participei nas aberturas de anos letivos de diversas universidades, e logo após a audiênci pública outras tantas.

    Em breve voltamos ao debate. Estava muito bom. Sem responder a todos os pontos que vc. questiona tem dois que adianto: primeiro, ´negros´ não é sinônimo da cor da pele que é preta, parda, branca. Outra é que quem foi escravizado não foram os negros, foram os africanos.

    Outras também: nem mesmo a palavra ´raça´ não existia até o século 17, segundo Marilena Chauí. Ela nasceu com o racismo, e foi o racismo que disse que os ´pretos da Costa D´África´ eram os pertencentes à ´raça negra´, aquela que o racismo dizia e diz, ainda, ser a ´raça inferior´.

    Por último: se o estado produz lei para inclusão compulsória baseado em ´raça´, é obrigado a estatizar a definição de uma ´raça jurídica´, e esse sempre foi o propósito do racismo. Mais ainda, é uma sacanagem política, que sem investir nenhum tostão, como fez o irresponsável, racista e populista gov. Garotinho, retiram-se vagas de pobres brancos e entrega aos pobres pretos, dizendo que é ´raça negra´ (a soma de pretos e pardos = raça negra.

    O primeiro efeito disso, é que socialmente faz uma confirmação racista: o estigma da inferioridade intelectual que nos impede de competição. O segundo, é rotular a todos os talentosos jovens afro-brasileiros de serem dependentes dessa muleta estatal, degradante, injuriante e deprimente, exatamente, como definia o Marquez de Pombal, em 1755.

    Ainda por último, luto contra o racismo pois a ideologia existe, mesmo sem amparo na crença de pertencimento racial. Mas essa luta deve ser para impedir a discriminação e não para pedir privilégios. A boa doutrina de Ações Afirmativas visam garantir a IGUALDADE DE TRATAMENTO e de OPORTUNIDADES e não visa, nem tem sido empregada, mesmo nos EUA, para assegurar vantagens ou privilégios em bases raciais.

    abraço, até a próxima.
    JR.Militão

  19. 19 José Roberto Militao 06/06/2010 às 23:26

    Rafael,

    a respeito da sacanagem política, merece um adento, pois o conflito racial plantado pelo estado, não é imediato, ele demora, duas, três gerações.

    Num debate no Senado, o Dr. Lázaro Brandão e o prof. José Jorge argumentaram com a ausência de conflitos ´dentro´ das universidades. Eu lhes respondi, ponderando: não há motivos de conflitos ´dentro´ das universidades. Pois dentro estão os que foram incluídos. O problema, antevejo, é a cultura de ressentimento com os pobres que ficaram ´fora´ da universidade e que, o futuro, irá debitar seus fracassos e justificará com seus filhos, que foi em razão da ´cota racial´ do Sr. Garotinho.

    Conforme tu podes observar, nesse sistema, os mais ricos nada perdem: ele são os primeiros colocados nos vestibulares. Quem perdem são os colegas da mesma escola, da mesma periferia, do mesmo ambiente social.

    Anexo para ilustrar minhas preocupações, na síntese das palavras de nosso mais lúcido pensador afro-brasileiro, meu fraterno e saudoso amigo prof. MILTON SANTOS, vale a pena: http://www.youtube.com/watch?v=xp9_fPuYHXc

    bye, Militão
    bye,


  1. 1 Manifesto da Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial « Meu jazz Trackback em 23/12/2009 às 05:02
  2. 2 Presente que recebi: um post pronto saído da boca de um colega « meu jazz Trackback em 21/01/2010 às 18:21

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