Grife de maquiagens ‘Rio 2016’ anuncia seu primeiro produto

Eis que estou almoçando na santa paz da minha cozinha, no recônidto de meu lar, me deliciando com o feijão e o pé de porco, quando ouço, da sala, o apresentador do telejornal vespertino:

O prefeito Eduardo Paes anunciou, hoje de manhã, a implantação de barreiras acústicas ao longo da Linha Vermelha e da Linha Amarela.

Lembrando-me da figura do prefeito carioca com aquele cabelinho sem um fio fora do lugar e sorrisos prontos até sob tortura, pensei logo que boa coisa não podia ser. Corri para a sala, e continuei ouvindo:

As Linhas Amarela e Vermelha vão receber barreiras acústicas a partir de novembro. As placas, de 38 metros de comprimento e cerca de três metros de altura, serão instaladas em quase toda a extensão da via. Somente os locais não habitados ficarão sem a proteção. As barreiras acústicas serão construídas em aço, concreto e policarbonato.

De acordo com o prefeito Eduardo Paes, a questão da segurança não foi o principal motivo para que as placas acústicas fossem instaladas. Ele afirmou, ainda, que o principal ponto é isolar as pessoas do barulho criado pelo tráfego de veículos em áreas residenciais. Paes, no entanto, confirma que as barreiras trazem mais segurança, mas não têm intenção de esconder as comunidades do entorno.

As placas acústicas das Linhas Amarela e Vermelha vão exibir a silhueta de montanhas que são ícones da beleza da cidade, como o Corcovado, Pão de Açúcar, Dois Irmãos e Pedra da Gávea. As pinturas vão mostrar também a cultura das comunidades locais. Para isso, será feito um concurso, em que mais de 400 artistas poderão colaborar. Autores famosos serão convidados a expor seus desenhos ao longo das duas vias.

Pois bem: a notícia não é nova, mas é, de certa forma, da ordem do dia – ou melhor, dos próximos sete anos. Essa é, ao que parece, a primeira das muitas medidas que devem vir por aí em função das Olimpíadas de 2016, que serão sediadas na cidade do Rio de Janeiro. E começamos mal, como se vê.

Quando começou a ficar evidente que o Rio tinha chances concretas de ser escolhido como cidade-sede das Olimpíadas de 2016, minha primeira reação foi de total repúdio. Tendo acompanhado as várias suspeitas de irregularidades no Pan, e não tendo percebido nenhuma melhora estrutural para a cidade, como prometido e apregoado (é verdade que não circulo pela zona oeste, pode ser que por lá tenha havido alguma evolução; mas sei também que o lixão da Cidade de Deus continua igualzinho, ao lado daqueles prédios da Vila do Pan), falei horrores contra a dimensão que a farra do dinheiro público ia tomar se fizéssemos algo do tamanho de uma olimpíada.

Não sei se se lembram, também, à época do Pan estava havendo uma tentativa de tomada da Vila Cruzeiro pelo Bope como forma de vingança da morte de um de seus membros, se não me engano. Os caras ficaram cerca de duas ou três semana tentando entrar no morro de mil maneiras (os traficantes construíam muros, jogavam óleo na ladeira), trocando muitos tiros todos os dias – foi uma crise pra imagem do Bope, na época, e terror para os moradores durante um tempo grande. E isso saía nas mídias impressa e televisionada todos os dias. Não posso me esquecer: no dia em que começou o Pan, essas cenas, que ficaram em primeira página durante um tempão, desapareceram. E no dia seguinte ao encerramento do Pan, a manchete d’O Globo era algo como “E tudo continua igual na Vila Cruzeiro”. Aquilo me chamou muito a atenção. Parecia que os jornais estavam dizendo pro poder público: “Olha só, estamos cansados de tanta violência. Vamos apoiar vocês tirando essas matérias de nossas páginas, até para não prejudicar a imagem da cidade internacionalmente (e porque teremos bons lucros a ganhar com os jogos sendo bem realizados), mas vamos mostrar nossa indignação novamente quando passar essa festa – e vocês vão sair mal na fita.”

Lembrando e considerando tantas coisas da época do Pan, e conhecendo o nosso Brasil-sil-sil e governantes, eu não poderia ser a favor das Olimpíadas. Aliás, eu não poderia não ser frontalmente contrário a elas. E vi muita gente escrevendo essas coisas que eu pensava.

Mas, chegando o dia da decisão, balancei. Me bateu a mesma dificuldade, creio, que sentiram os jovens revolucionários do tempo da ditadura, orientados pela patrulha a torcer contra a seleção na Copa de 1970, pois a nossa vitória no México seria mais uma forma de alienar o povo e perpetuar no poder o governo militar. A verdade é que esses homens e mulheres não se aguentaram e torceram loucamente, mesmo que em silêncio, para que o Brasil trouxesse a Jules Rimet. Ora, não tinha como! E eu também. Fiquei meio encabulado na véspera, mas quando anunciaram a vitória, fui alegria pura. E só não corri pra praia de Copacabana pra ver Revelação e Bateria do Salgueiro porque tinha de trabalhar no fim do dia. Ossos do ofício.

E passei a ser a favor das Olimpíadas (quem me conhece, sabe que sou capaz de abraçar ideias radicalmente opostas em questão de segundos se sou convencido delas; amanhã este blog pode estar desdizendo tudo o que diz, riscando posts e xingando o próprio autor dos piores nomes) porque ela é um passo importante para essa maturidade que tanto falta ao nosso país. País que foi colônia, tirando os EUA, não tem jeito: sofre de baixa autoestima. Em 1958, com a conquista da Copa na Suécia, começamos a desfazer aos poucos a ideia de inferioridade perante os europeus altos, louros e técnicos, que se perderam na nossa sábia ginga, essa nossa sabedoria outra. Foi-se a síndrome do patinho feio, como descreveu Nelson Rodrigues. Cinquenta anos depois, agora estamos mostrando no âmbito “diretivo”, e não apenas “expressivo” (da capoeira, samba, futebol), que somos adultos dentro da ordem mundial estabelecida. O impacto disso sobre a população é algo incomensurável. Nenhum país cresce se a sua população não acredita na própria competência – porque, aí, perde-se iniciativa e força de trabalho em massa, o que tem efeitos, evidentemente, maciçamente negativos. Dá pra entender mais ou menos essa minha lógica? Certamente não é a única coisa importante para o crescimento de um país, mas acho mesmo que é uma das fundamentais, e muito corriqueiramente subestimada. Não adianta um grande líder se a sua população não trabalha junto, digamos assim.

O caso é que essa dose de otimismo me fez crer, inocentemente, que nossos governantes passariam a se sentir como que obrigados a tomar atitudes mais responsáveis em relação ao abandono do Rio, porque para as olimpíadas teremos o mundo inteiro fiscalizando, e um povo que se dá maior importância e passa, aos poucos, a cobrar mais porque não quer fazer feio, também.

Mas aí me vem uma notícia dessas. “Barreiras acústicas”, diz o noticiário, sem problematizar minimamente esse fato que se mostra de uma cara-de-pau para a qual não haverá verniz suficiente no mundo. Os caras têm sete anos para, pelo menos, oferecer um pouco de dignidade aos moradores das favelas do entorno das Linhas Amarela e Vermelha; podiam pintar, fazer algum tipo de reforma, limpar a sujeira dos lixos acumulados. É um pensamento escroto, mas era o que nos restava. Eu, que não vivo em favelas, estava pensando: “Esses caras não põem uma nova estação de metrô nessa cidade com trânsito que se complica a cada dia, mas prometem até uma nova linha se rolarem as olimpíadas. Isso é um completo absurdo, mas se é a única forma de termos mais estações de metrô e um trânsito organizado, então ok, vamos torcer pelas olimpíadas”. O mesmo fico pensando para uma possível melhora nas condições de habitação dos favelados à beira das vias expressas. Não podiam iniciar uma reforma? Não. Vão botar tapumes. Esconder essa gente toda.

E, nessa, a chance de levantar a autoestima da galera se torna uma forma de botar ainda mais pra baixo quem já acha que vale tão pouco. “Vamos esconder vocês para que os atletas e comissões esportivas do mundo civilizado-branco-louro-perfeito não os vejam, seus pobres-pretos-fedorentos-ignorantes.” Ao fim, com o perdão da comparação, o que estão fazendo é varrer a sujeira pra debaixo do tapete. Porque é isso: para os almofadinhas que governam, as pessoas que moram nas favelas têm a cor e o aspecto da sujeira. Quando falo de cor e aspecto, não me refiro apenas à população negra. É força de expressão. Mas pode crer que está tudo relacionado, e que as matizes não-brancas têm papel importante nisso.

(Fora que esse lance de a barreira ser acústica só pode ser pra impedir que se ouçam tiros, já que evidentemente a preocupação não é com o sono dos moradores das favelas. E eu fico pensando no calor que não vai ser com essas barreiras, que nem uma brisazinha vão deixar passar.)

Ainda penso numa última coisa. Não sei como foi, mas se a imprensa abafou o caso da Vila Cruzeiro na época do Pan, certamente abafou muitos outros casos em que a polícia agiu. Se houvesse uma chacina na Vila Cruzeiro nauqel época, como pode ter havido, certamente não ficaríamos sabendo. Com as mil desocupações e choques de ordem que a prefeitura vai ter de fazer pra realizar as Olimpíadas de 2016, podem anotar o que aqui escrevo (ou melhor, ctrl + c e ctrl + v, que estamos na era digital): vai morrer muita gente. Muita gente mesmo. E só gente pobre e/ou preta, evidentemente. Tenho um amigo que trabalha num núcelo temático de terras e habitação da Defensoria do Rio, e que lida com direitos humanos das populações marginalizadas. Esse setor foi criado justamente na época do Pan, por conta da desocupação de áreas em que moravam muitas pessoas, o que gerou grande demanda de serviços jurídicos para resolver indenizações e fiscalizar como estava sendo feito o processo. Agora, com o anúncio das olimpíadas no Rio, estão todos desesperados e tentando aumentar a equipe para tentar suprir o que de pior vem aí. E o problema é que muitas mortes certamente não serão evitadas, especialmente durante os jogos.

Como disse um outro amigo, sob brilhante inspiração: “Bota na conta do COI.”

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5 Responses to “Grife de maquiagens ‘Rio 2016’ anuncia seu primeiro produto”


  1. 1 Rafael Cesar 16/10/2009 às 16:09

    Só pra ratificar: continuo sendo a favor das olimpíadas, acho que pode trazer mutia coisa boa, e a autoestima é a primeira e mais importante delas. Quem só enxerga benefícios (ou prejuízos) materiais, está deixando de ver muita coisa importante. O que acho é que temos de fiscalizar e tentar impedir ao máximo esse monte de sacanagem que vão querer fazer – as maquiagens, o desvio de verba, a opressão contra as populações marginalizadas. A questão é: será que dá?

  2. 2 Marcelo 16/10/2009 às 19:20

    Também fiquei puto quando li essa notícia… mas, honestamente, desse prefeiteco não esperava nada mesmo! E as desculpas são tão ridículas!! Isolamento acústico?!

  3. 3 Rafael Cesar 16/10/2009 às 20:11

    mas não é, rapaz? e olha que simbólico (eu adoro procurar coisas simbólicas): o cara tapa as favelas e bota o quê na pintura dos tapumes? imagens da zona sul! não poderia ser mais perverso.

    e isolamento acústico, sério mesmo, pra mim só pode ser pra não deixar a galera do coi ouvir o barulho dos tiros quando passar nas vias.

    já era a administração desse infeliz quando resolveram fazer o muro no dona marta? esse cara vai entrar pra história como o prefeito dos muros… e um dia o povo favelado vai derrubar essa merda como se fosse um muro de berlim!

  4. 4 Rafael Abreu 18/10/2009 às 21:11

    Eu, meio irresponsável e meio irônico, não consegui torcer contra ao ver Lulinha falar. Estava contra mas na hora, que nem você, balancei.
    A questão é que é uma oportunidade e tanto e, em si, não é nem bom nem ruim. Só que com dudinha e cabralzinho… Pessoas erradas na hora errada.
    Mas tergiverso. Queria falar das barreiras acústicas. Piada pronta né? Óleo de peroba acabou nas prateleiras. Estão todos preocupados com o sono dos favelados ao longo da linha amarela. Quanta sensibilidade…
    Outra coisa: já parou pra pensar o mal que faz o prefeito ter sido subprefeitinho (de Cesar Maia, o Nero Carioca) da Barra? Justo da Barra? A Barra não se integrou à cidade, é um peso morto que suga os investimentos. Faz muito mais sentido botar dinheiro em qualquer outra área da cidade.
    Abração

  5. 5 Rafael Cesar 18/10/2009 às 23:28

    eu já não gostava do dudinha por ele ter sido subprefeito da barra, mas sem o seu raciocínio técnico da falta de integração da barra com a cidade – e de ele ter feito parte disso. eu não gostava desse fato apenas porque tenho preconceito com a barra, mesmo. mas, agora, meu preconceito vai vir embasado de sólida argumentação. te devo essa, abreu! valeu mesmo! abraço!


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