O pedaço estrategicamente omitido de “Ngola Kiluanje” (conheça-o agora!)

Eu escrevi aqui um post, há pouco tempo, falando que considerava um absurdo essa atitude de jogar sobre os grupos que sofrem os mais diversos tipos de discriminação o ônus de eliminar as discriminações sofridas por outros grupos (no caso, usei o exemplo das pessoas que falavam mal das ações afirmativas pró-negros que não incluem os índios, depositando a culpa da exclusão dos índios no Brasil sobre os movimentos negros). Essa responsabilidade moral que inventam é algo impensável na minha cabeça, pois já estamos bem grandinhos para saber que não há santos querendo fazer um mundo perfeito, mas sim pessoas que estão lutando por suas visões políticas e seus espaços de poder. Não poderia ser mais legítimo.

É claro que, quando você assume um discurso anti-discriminação, pode reforçar politicamente a sua postura apoiando outros grupos discriminados. É legitimador, é bacana, faz muito sentido. É até um caminho natural, porque, ao pensar e expor as suas questões, você acaba se sensibilizando em relação à discriminação sofrida por outro. Mas daí a ter de se tornar um ser humano perfeito, e sem falhas éticas, defensor dos frascos e comprimidos 24 horas por dia, ou ter quaisquer obrigações nesse sentido, há um abismo.

O mais terrível é que quando impõem aos grupos discriminados essa responsabilidade de levantar todas as bandeiras do mundo (“se você é militante da questão racial, então tem que ser vegetariano e respeitar os animais”; coisas do tipo), automaticamente tiram do grupo beneficiário da discrminação a sua parcela de responsabilidade sobre a discriminação (os brancos não são necessariamente racistas, mas são necessariamente beneficiados pela discriminação contra negros).

Então, surgem frases do tipo:

No Brasil, os mais racistas são os negros.

Isso é um mito que inventaram e, ao que parece, pegou mesmo. Eu ouço isso a torto e a direito por aí quando surgem discussões sobre racismo. Essa assertiva canalha costuma surgir quando estamos discutindo a existência do racismo no Brasil. Não raro surge alguém dotado de muita má fé (mesmo que a pessoa não perceba, é má fé, sim) que lança essa frase como forma de se liberar da responsabilidade do racismo.

O caso é que, sem dúvida, existem muitos negros racistas. Até porque o problema não são as pessoas racistas, mas os racismos que atravessam a nossa cultura, e que portanto podem fazer algozes tanto brancos como negros. Mas, meu Deus do céu, o fato de haver negros racistas – ou, melhor dizendo, negros que reproduzem racismo – não pode, de maneira nenhuma, avalizar um branco a ser racista. Era só o que me faltava. Então eu, que sou homem, posso dar porrada em mulher porque há muitas mulheres por aí que acreditam que os homens têm direitos de violência sobre as mulheres. É isso?

Pelo contrário: acho sempre que se percebemos que as vítimas começam a reproduzir o ideário que as prejudica, é porque estamos num ponto bastante complicado da questão. Assim, quando vejo uma pessoa negra reproduzir estereótipos racistas que colocaram na sua cabeça, meu alarme dispara, porque sei que o racismo já foi longe demais. E que, portanto, é mais do que hora de todo mundo entrar nessa luta e perceber que não pode mais, de forma alguma, continuar com isso, sejam brancos ou sejam negros. Isso é sinal de que a luta tem que se intensificar, todos têm que entrar nela com mais força, e não pular fora convenientemente. Até porque, um dia, essa bomba explode – e vai sobrar pra todo mundo.

Remeto agora a outro post, em que citei um trecho do conto “Ngola Kiluanje”, do angolano João Melo. Caso não se lembrem, é aquele em que as relações raciais de Angola são discutidas a partir do envolvimento de um homem angolano branco com uma mulher negra militante carioca (a narração é do homem):

Mas quando lhe revelei, dias depois, a conversa que tinha tido com o meu pai, ela contou-me que, tempos atrás, conhecera um escritor angolano branco que tinha vindo ao Rio participar num simpósio sobre literatura africana em língua portuguesa e que, quando questionado por um militante do Movimento Negro sobre o facto de Angola ter enviado um branco para essa reunião, teve uma resposta de que ela jamais se esqueceu:

– Meus senhores, se pensam que vou pedir desculpas por ser branco, estão muito enganados!… (Filhos da pátria, p. 114.)

Lembrou? Muito bem. À altura daquele post, acabei usando esse trecho apenas como introdução para levantar alguns pontos que eu considerava esquisitos sobre as relações raciais por detrás da produção literária nos países africanos lusófonos. E tive que deixar de fora, para uma oportunidade breve (que chegou!), a continuação desse mesmo trecho – que, para mim, é revelador da mentalidade que estou denunciando e criticando agora. Veja só:

Sentindo-se instigada por essa resposta, a Jussara aproimou-se do referido escritor e teve com ele longos papos, sobre Angola, o Brasil, as contradições raciais existentes em ambos os países e no mundo em geral, os preconceitos, os estereótipos e, principalmente, sobre esse profundo e terrível paradoxo, próprio do ser humano, que faz com que antigos humilhados seja, assim que o podem, irremediavelmente tentados a humilhar todos aqueles que identificam, acertadamente ou não, como os seus velhos opressores. “Todas as generalizações são fascistas”, dizia ele. Sonhava esse escritor que os oprimidos (todos eles, os negros, os pobres, as mulheres…) seriam capazes, um dia, de criar realmente um novo projecto civilizacional, de plena igualdade e liberdade, e não apenas de mudar a cor ou o sinal da opressão. Teorizava ele: — “A verdade é que, agora, os oprimidos apenas têm macaqueado os opressores! Por exemplo, nós, africanos, estamos muito revoltados e inquietos por causa das tendências xenófobas que se registam agora na Europa, mas o que acontece é que repetimos essas mesmas tendências nos nossos próprios países, pois somos incapazes de propor ao mundo uma nova civilização, mais huamana…”

A Jussara já não precisava de me dizer mais nada. Eu entendi tudo, até mesmo o que estava expresso no chamado infratexto. (Filhos da pátria, p. 115)

Vamos combinar que a África já tem problemas suficientes para resolver internamente, e os africanos não os criaram sozinhos (embora paguem sozinhos por ele). Mas, ainda por cima, agora têm que propor um novo modelo de mundo? Sinceramente, acho um pouco demais.

A escolha das palavras também se mostra de uma fragilidade ética enorme, a meu ver. Quando o narrador diz que os africanos são incapazes de propor um novo mundo, está colocando nas entrelinhas, também, que “já que a África não propõe um mundo lindo e perfeito, então tudo bem detonar os africanos; eles fariam o mesmo conosco se nos tivessem colonizado, então é mais que merecido”. Exatamento o que faz o indivíduo que explora a ideia estapafúrdia de que o negro é o mais racista. O ideário é o mesmo, e se manifesta em várias escalas e situações possíveis.

(Por último, eu preferiria acreditar que esse “infratexto” de que ele fala ao fim seria a crítica nas entrelinhas, justamente essa que estou fazendo. Confesso que não entendi o que é o infratexto nessa passagem, mas não acredito que seja a crítica, porque não me passa nada de irônico – a única coisa que poderia me levar à ideia de que ele faz uma crítica, e não vejo isso.)

Sem desenhos desta vez. Você entendeu o que eu escrevi, estou certo disso, e não vai mais repetir essa frase feia.

E vou dormir, que está tarde, e amanhã tenho mais racismos para combater – os meus, os seus, os nossos.

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4 Responses to “O pedaço estrategicamente omitido de “Ngola Kiluanje” (conheça-o agora!)”


  1. 1 andré. 29/09/2009 às 10:39

    “Até porque, um dia, essa bomba explode – e vai sobrar pra todo mundo.” E se mexer com árabe, esse dia chega mais rápido do que você imagina!

  2. 2 Rafael Cesar 29/09/2009 às 12:19

    ahahahahahahahahah!

    falou o árabe de goiás! falou, tá falado!

  3. 3 Edmilson Osvaldo Lourenço Manuel 22/10/2013 às 14:48

    gostei muito aprendi mas coisas


  1. 1 Allied Business Schools} Trackback em 02/10/2014 às 07:45

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