O debate racial nas literaturas africanas de língua portuguesa (parte 2)

O tema a que ora chamo atenção não é visto a partir dos enredos e representações nas literaturas em questão, mas sim pela parte de trás dos panos: seus autores, “condições de produção” etc. Em algum momento, espero, vou tratar a questão mais literariamente – só que, aí, se eu fizer uma coisa legal, o texto deve ir para alguma revista acadêmica, e não pro blog. Esperemos, até porque, por agora, imagino que o assunto já esteja saturando os meus três leitores.

Na verdade, é até difícil debater a questão racial nessas literaturas porque ocorre bem menos do que, me parece, deveria. Ela aparece, é verdade, como já falei, e não é raro – só é menos frequente do que, creio, seria se houvesse mais autores pretos levantando suas questões. E é justamente a ausência do debate que está me motivando a levantar o tema. O vazio também é indicador de algo.

É preciso considerar também, sempre (coisa que não fiz na primeira parte), as especificidades de cada país. É completamente diferente falar de racismo em Angola, onde quase todo mundo é preto, e Cabo Verde, onde a população é bem mulata. Certamente há questões raciais em Cabo Verde, mas os paradigmas devem ser diferentes. O mesmo posso dizer de Moçambique, em que a presença árabe e indiana é muito forte (e, pelo menos a árabe, bem anterior à europeia), o que também muda bastante coisa. Até por isso tudo, acabei falando um pouco mais de Angola, embora o título dos posts remeta à literaturas africanas de língua portuguesa como um todo. E nem mencionei São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, cujos contextos são quase totalmente desconhecidos por mim (e cujas literaturas conheço bem pouco, também).

Mas, então, vamos completar o raciocínio iniciado na parte 1 dessa gororoba.

Já indiquei aqueles autores angolanos que considero serem os mais conhecidos e importantes (não necessariamente os melhores, é preciso que fique clara essa diferença; sem bem que já está clara demais, tem é que escurecer) e, como vimos, dos 9, apenas 2 são pretos. Sabemos, evidentemente, que a prerrogativa da literatura é sempre de uma elite cultural e que, portanto, não se pode achar que é representativa do pensamento do “povo”, ou, no caso africano, da tal “África profunda”, essas coisas. Não tenho essa preocupação, posto que seria infantil iniciar essa discussão aqui. Pópilas, mas é que parece-me especialmente contraditório que os caminhos da literatura de um país africano sejam ditados majoritariamente por autores brancos e mulatos (e nenhuma mulher, como já indiquei, também). Num contexto de busca e afirmação de identidades, tão necessário e quase inevitável a países que, como tantos, lutam pela libertação simbólica do processo de colonização, é algo que gera uma situação complicada, a meu ver.

A contexto todo torna-se ainda mais complexo ao se estender para além do público leitor africano. As universidades mundo afora – e, aqui, falo a partir de Brasil, obviamente, que tem os melhores programas de literaturas africanas lusófonas, provavelmente -, ao não verem isto como um problema, acabam alimentando e legitimando – talvez o problema maior esteja aí – o fato dado como algo natural. Fiz recentemente um curso muito bom que, de saída, já tinha algo especial que era trabalhar o amor, erotismo e outros sentimentos nas literaturas de Angola e Moçambique, abordagem bem incomum para literaturas africanas (normalmente fica naquela tecla, que eu mesmo toquei aqui, de identidade, guerra, afirmação, o que às vezes limita a humanidade dos africanos e suas literaturas). Dos autores que estudamos, entretanto, não havia UM preto. A crítica era toda branca-europeia, branca-norte-americana e branca-sul-americana, e os escritores eram Pepetela, Mia Couto, Ondjaki, João Paulo Borges Coelho, Agualusa. No meio do curso surgiram outros, mas manteve-se em zero o número de autores pretos.

Não estou fazendo uma crítica à escolha dos autores em si, já que estes contemplavam a bela ementa proposta pela professora. Mas, vou repetir pela última vez (era só para dar um exemplo do ambiente aadêmico), estamos falando de África sem ler africanos, grosso modo. É claro que todos esses autores são, sim, africanos – mas nenhum carrega consigo, como um africano preto carrega, a experiência de ser enquadrado, indubitavelmente, como africano, e conhecer todas as consequências positivas e negativas deste fato. Digamos que estes são homens do mundo que falam a partir de África?

O Mia Couto, por exemplo, já disse numa entrevista que sofre discriminação por, costumeiramente, não ser considerado africano dentro do país em que nasceu, pelo qual luta e o qual ama. Isso é ruim, evidentemente, mas é preciso sempre contextualizar o motivo de tal discriminação. Será que haveria essa resistência a um escritor tão incrível como ele se houvesse um número maior de autores pretos? Creio que não ocorreria da mesma forma, porque não seria necessária uma posição agressiva por parte dos pretos em busca de sua afirmação. Mas, se o maior autor moçambicano é branco, isto evidentemente vai trazer conflitos num país em que quase não há brancos em comparação ao número de pretos.

No meu ponto de contato com o tema, que é a literatura, acho que este deveria ser um assunto central nas discussões em âmbito acadêmico, jornalístico, especialmente se consideramos que tais autores estão projetando a imagem e a identidade de seus países num contexto de reconstrução e inserção no mundo globalizado. Que imagem estarão estes autores passando? Ou, mais importante que isso: não estará essa construção por demais restrita? A minha sensação, quando sinto resistência ao tema, é a mesma que senti tantas vezes, em meio ao processo de reconhecimento de minha identidade racial (politicamente falando, não geneticamente, é óbvio) e das discriminações que eu testemunhava: será que eu estou ficando louco?

Quem já passou por isso sabe como é angustiante. Porque as pessoas negam, dizem que você está colocando chifre em cabeça de cavalo, que você está vendo coisa onde não tem (e você está vendo por todos os lados).

Pra você, colega que me lê e já passou por isso, eu tenho a resposta: não, você não está louco(a). Mas tome muito cuidado, porque podem acabar te deixando assim. É mais comum do que você imagina.

Mia Couto sofreu discrminação, como declarou. Uma professora minha já testemunhou também contra João Paulo Borges Coelho, e me disse: “os negros estão reproduzindo, em sentido inverso, o mesmo que já sofreram”. Ela, como sempre magistral, levantou também a partir disso a ideia de que devemos começar a pensar, inversamente a Fanon, em “peles brancas e máscaras negras”, dado o fenômeno de tantos autores não-pretos. Mas vamos então, a partir desses fatos, concluir essa reflexão fundamental (a reflexão, não, o post; porque a reflexão continua, ou começa, assim espero).

a) Realmente, qualquer tipo de discrminação é absurda. É absurdo pensar que tais autores, apenas por serem brancos ou mulatos, sejam discrminados;

b) Para a própria África, discrminá-los é algo ruim. Cria a ideia de que África só pode ser negra, e exclui a possibilidade de uma característica importante para qualquer país desejoso de inserir-se no mundo moderno: a cosmopolitização de suas cidades, suas culturas, pessoas. Excluir autores brancos é perder em diversidade e, consequentemente, em qualidade;

c) Pensando na produção literária em si, acreditar que brancos não podem fazer texto africanos é o mesmo que considerar africanos somente os textos herdeiros de missossos e outras formas de oratura tradicional, provérbios, jogos e demais signos culturais localizadamente africanos. Isso é um reducionismo, uma prisão. Sem liberdade, jamais podem os textos tornarem-se universais, por mais que saibamos que o conceito de “universalidade”, no caso de arte, é normalmente o de diálogo direto com as tradições ocidentais, o que significa uma por vezes violenta adequação ao seu sistema semiológico.

Pelos itens acima, eu poderia considerar puramente um absurdo essa resistência aos autore brancos e mulatos. Entretanto, por todas as contradições do fato que já expus nesses dois longos posts, não posso me satisfazer parando em c), e, por isso,

d) Se os discriminados autores brancos e mulatos são tão avessos à discriminação, e vêem nela tanto prejuízo, por que não desconfiam também do prejuízo que têm a literatura quando percebem que quase não há autores pretos no mainstream literário de seus países?;

e) Será que, reconhecendo um processo de discriminação silenciada contra os pretos em seu campo de atuação, são eles capazes de levantar a bandeira dos autores pretos africanos em suas falas nos encontros, nos artigos de jornal, ou mesmo em seus livros?;

f) Será que os países europeus, tão cosmopolitas, são capazes de chamar de literatura nacional, com vigor e socos no peito, os textos de autores europeus cuja fenotipia não coincide com o caucasiano? Há essa relação de igualdade?

Não temos aí, portanto, um grave desequilíbrio?

Ou serei eu apenas um brasileirinho metido, que nada conhece de África, querendo gerar ódio racial onde nem discriminação há?

A parte 3, deixo com vocês.

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2 Responses to “O debate racial nas literaturas africanas de língua portuguesa (parte 2)”


  1. 1 simone 06/10/2009 às 07:14

    Oh! Rafael,

    grandes e precisas palavras. Precisamos pensar e repensar o intrínseco e o extrínsico do racismo, levando sempre em conta os contextos que criam a necessidade de afirmar o valor da diferença, para igualar os diferentes cidadãos.
    Puxa, você é cruel! Fica escrevendo desse jeito aliciador e eu, com tanta coisa para ler, agora terei que ler ´também os seus posts….

    Abraço

  2. 2 Rafael Cesar 06/10/2009 às 12:26

    Simone, querida, que nada! Essas aqui são apenas provocações (ambiciosas, é verdade…). Leia quando tiver seu tempo! Isso aqui, digamos, é um pedacinho da luta. Sei que não preciso convidá-la, mas seja bem-vinda!

    Um beijo,
    R.


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