Antes da parte 2…

Uma atualização referente à parte 1 de “O debate racial nas literaturas africanas de língua portuguesa”:

Apesar de eu ter dito que não precisava falar mais nada depois de mencionar a escravidão, na verdade tem, sim. As literaturas africanas no mundo lusófono começam a aparecer, normalmente, lá pela segunda metade do século 19. Neste tempo, a escravidão, se já não tinha acabado, estava bem próxima ao fim. E, além disso, nem todos os pretos angolanos foram escravizados, como se sabe. Mas, ainda assim, deixo a referência lá à escravidão porque ela foi a maior realização de todo o ideário que “privilegiava” os brancos e mulatos em detrimento dos pretos. É por isso que, mesmo quando falamos de um literatura que surge com a escravidão já com os dias contados, o estigma que ficou na população preta foi enorme – prova disso é, por exemplo, a dificuldade de inserção dos mesmos no sistema educacional, de permiti-los se expressar, de dar voz aos mesmos etc. (o trauma, esse lado psicossocial da colonização/escravidão é uma das dificuldades; não a única, claro).

Entendeu? Ou quer que o Debret desenhe?

debret

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9 Responses to “Antes da parte 2…”


  1. 1 Luciana 28/09/2009 às 11:57

    Quando li Pepetela pela primeira vez, eu não sabia que cara ele tinha. E, meu caro, vc não imagina a minha surpresa quando o conheci pessoalmente, aquele Robin Williams de barba branca, branco branco branco, mais que eu, inclusive.
    A partir daí, essa minha surpresa foi sempre aumentando quanto mais eu conhecia de literatura africana. A cada novo autor, novo membro da “branquitude”. Por muito tempo fiquei tentando me convencer de que isso se deve a fatores sócio-econômico-culturais, do tipo “literatura-que-se-formou-entre-as-elites-da-Casa-dos-Estudantes-do-Império”. Mas daí a gente se lembra que Machado de Assis era mulato e pobre numa sociedade extremamente preconceituosa e de dificílima ascensão social. João do Rio era preto, pobre e gay. Lima Barreto era mulato, pobre e louco. E todos conseguiram não só escrever mas ainda ocupar um espaço no cânone literário.
    Qual será o obstáculo real que impede a chegada dos escritores africanos negros não só à academia mas também ao mercado editorial e ao público leitor?

  2. 2 Rafael Cesar 28/09/2009 às 12:04

    Pois é, Luciana. Não haverá algo de podre no reino da Dinamarca, ou melhor, no reino de Nzinga?

  3. 3 Rafael Cesar 28/09/2009 às 12:06

    Aliás, Robin Williams foi ótima, hein?

  4. 4 Spirito Santo 20/08/2010 às 09:38

    (Instigante o papo)

  5. 5 Spirito Santo 20/08/2010 às 09:44

    (Muito instigante o papo)

    Eu acho, contudo que isto tem a ver muito mais com uma valorização da cena literária africana AQUI no Brasil (e em Portugal também, claro).

    A percepção que nós temos aqui no Brasil sobre o que se produz em Angola, Moçambique, etc. é aquela criada por livreiros e jornalistas daqui do Brasil que – por razões demasiadamente óbvias para nós – enfatizam ‘certo’ tipo de escritor (muito mais do certo tipo de literatura). Vendem-nos o que querem que seja vendido da África e não, exatamente o que a África tem de melhor ou mais representativo da literatura de lá.

  6. 6 Rafael Cesar 20/08/2010 às 14:55

    e não apenas um certo tipo de literatura, mas um tipo de literatura certa, não é? ; )

  7. 7 Sandro Brincher 27/11/2010 às 09:39

    Publiquei no blog Amálgama uma lista de 10 clássicos das literaturas africanas de língua portuguesa. Acho que pode interessar a vocês.
    http://www.amalgama.blog.br/11/2010/literaturas-africanas-de-lingua-portuguesa/

    Abraço!

  8. 8 Sandro Brincher 27/11/2010 às 10:31

    Vivo, estudo e leciono em Florianópolis, capital de um dos estados mais reacionários (se não o mais) do Brasil. Aqui já temos obras de Ahmadou Kourouma, Mia Couto, Ondjaki e Chinua Abebe, por exemplo, em escolas públicas (destaque-se) municipais. Na escola do meu bairro, Rio Vermelho (um dos mais distantes do centro, cerca de 40 Km), encontrei um “Alá e as crianças-soldados”, livro infantil lindo, edição primorosa, do Ahmadou Kourouma (autor da Costa do Marfim) na estante de destaque da entrada da biblioteca. Casos parecidos envolvendo os outros autores mencionados aconteceram em outras escolas. Se aqui, onde se deveria esperar grande resistência (intencional ou não) a esse tipo de iniciativa, é visível que as coisas “estão acontecendo”, devagar. A questão, como aponta o colega Spirito Santo acima, não pode ser simplesmente resumida a um grande complô das editoras, livreiros e jornalistas. Há outra para a qual muita gente ainda não abriu os olhos: o mercado editorial, esse modelo de mercado tal como o conhecemos, está mudando absurdamente rápido (acompanhem a Digital Book World; é uma saraivada de info sobre o tema). Essa mudança, tanto física quanto de estratégias mercadológicas, está gerando uma espécie de limbo temporário(?) de onde ainda é difícil retirar elementos para uma discussão mais esclarecedora.
    O que, penso eu, deveria ser muito interessante, é algo como uma mesa redonda (eu ia usar “discussão”, mas preferi ser mais concreto na proposta) entre pelo menos 3 tipos de pessoas: as que lidam com os resultados “finais” dessa cadeia (professores, leitores etc.), as que giram a engrenagem desse sistema (editores, livreiros etc.) e as que produzem conhecimento teórico sobre isso (sejam quem for). Um debate dessa natureza poderia trazer à tona algumas coisas que, pelo menos para mim, ainda não estão muito claras com relação a essa questão das literaturas africanas.

    Abraço.

  9. 9 Rafael Cesar 01/12/2010 às 11:59

    Olá, Sandro

    Fico feliz de saber que há esse tipo de iniciativa em sua cidade. Sem dúvida, as coisas estão mudando muito (a própria entrada das literaturas africanas entre nós é um claro sinal disso), mas há sempre que estar de olho para não deixarmos a coisa afrouxar. Dizer que as coisas já estão mudando, assim, simplesmente, é perigoso porque não vemos que 1) as coisas estão mudando justamente porque tem gente trabalhando para isso, e não por conta de uma consciência que está emergindo do nada, naturalmente; 2) a mudança construtiva que estamos testemunhando ainda é muito pouco, e muito frágil, frente aos 500 anos destrutivos que tivemos em relação à nossa temática, e como essa memória da destruição ainda é muito maior, a reversão do processo de mudança (que, aliás, é concomitante ainda a processos destrutivos) é algo que pode facilmente ocorrer.

    Enfim, não se pode dissociar a mudança do trabalho que se faz por ela, e que tem que continuar por, talvez mais 500 anos. Mas concordo que estamos vivendo uma série de coisas positivas, e pessoalmente acho canalha não reconhecer isso, como alguns (veja bem: ALGUNS) setores da militância gostam de fazer para viver do discurso da vitimização e da reclamação (que tem a sua razão, também, reconheçamos). Mas também pode ser profundamente canalha o discurso do “as coisas já estão mudando”, porque pode ser usada para esvaziar a discussão da importância do que ainda há de ser feito. Entende o perigo que identifico em sua fala quando ela não é problematizada por você mesmo (embora eu concorde com ela)?

    Em relação à questão da quase-ausência de autores negros nas literaturas africanas, eu também não acredito em complô, e não me lembro de ter escrito isso no post. Sequer há a necessidade de complô (esse ato consciente, bem pensado e que dá trabalho de articular) porque as forças produtivas relacionadas à literatura já estão nas mãos desse “grupo”, que sequer precisa se debater em suas consciências em relação a isso. É tudo muito natural, e não há a necessidade de questionamento. Explico, e usando a ótima relação que você levantou (e que eu achei que tivesse feito no post, também, mas acho que fiz foi em uma discussão recente): ora, é natural que nessa África de língua portuguesa oficial, a maior parte dos que têm domínio sobre a letra e acesso à literatura sejam pessoas de origem europeia, mesmo que nascidas e África. Elas têm uma memória relacionada à literatura do ocidente, e puderam trabalhá-la pois estudaram na ex-metrópole, tiveram a acesso a muita coisa que o colonialismo não permitiu aos negros. Além disso, a crítica a essas literaturas ainda é formada em bases eurocentradas (na Europa e no Brasil), por pessoas brancas, normalmente, e que têm formação eurocêntrica, como é o normal nas universidades. Assim, é natural também que, pelo menos em um primeiro momento (e considero que, apesar de muito coisa já ter sido revista, ainda vivemos “um primeiro momento”), a produção teórica só vá legitimar como boa literatura aquilo que tem alguma relação mais próxima com o que se entende por literatura no ocidente, ou seja, com aquelas literaturas que, e alguma forma, dialoguem com a tradição ocidental, que faça sentido dentro dela (mesmo que levantando a diferença). É óbvio que há exceções, e que há também o momento em que se quer algo realmente diferente da tradição ocidental quando se vê o absurdo da colonização (por isso a divulgação, na época imediatamente-pré-libertação, dos poemas de combate, por exemplo; e no imediatamente-pós-libertação, de textos muito marcadamente africanos com Luandino Vieira, Uanhenga Xitu, Boaventura Cardoso etc.). Mas, como se vê hoje, também, a maior parte dos autores que faziam textos nessa base não sobreviveram, e hoje a predominância é de autores que têm um trânsito maior com a Europa e tal. Sei que isso é discutível (o que é “ter maior trânsito com a Europa”?), mas acho que isso fica claro num sentido mais geral. Se não estiver, você me diga, porque na verdade me parece que a grande dificuldade da questão é quando não concordamos nesse ponto. Bom, continuando, aí entra, de fato, a questão do mercado editorial. Ora, a ponta dele, ou seja, os seus consumidores, têm sua formação literária com base na tradição ocidental, e certamente encontram mais dificuldade do que prazer quando leem textos que não dialoguem com a tradição ocidental, ou seja, que estejam distantes daquilo que conhecem por literatura. Assim sendo, há toda uma cadeia de construções sígnicas e simbólicas que não permitem que textos que apontem para aquela “África profunda” – para usar um termo horrível, mas que localiza a minha ideia – circulem da mesma maneira que textos que sejam também africanos, mas mais “universais” – para usar outro termo horrível, mas que localiza minha ideia, novamente, ou seja, textos ais próximos, em sua forma e abordagem de temas, a uma visão do ocidente sobre o mundo.

    E o que isso tem a ver com a cor da pele? Na minha concepção, absolutamente TUDO. Não se pode achar que a experiência africana e a memória cultural de um autor branco seja a mesma de um autor negro nesse ponto da história em que estamos, ou seja, a apenas 35 anos da libertação colonial, e em que os valores da colonialidade são ainda muito presentes, e que, por meio de operações subjetivas, ainda separam culturas negras e brancas, muito mais do que as unem. É verdade que há um processo de aproximação, mas o processo de separação ainda é muito maior. Enfim, não se pode acreditar que um Pepetela, mesmo nascido em Angola e tendo lutado pela sua libertação, tenha a mesma visão de África e a mesma experiência naquele espaço que um Boaventura Cardoso. Por mais que haja diferenças entre todos os indivíduos, algumas diferenças são estruturais, são muito marcadas. Boaventura, bem como outros negros de seu país, mesmo que não se identifiquem com qualquer grupo étnico, ou mesmo que não falem nenhuma língua nacional, têm a experiência de ser negro em um contexto que foi de apartamento de culturas, de segregação, e que por isso manteve as diferenças. São memórias MUITO antigas, que têm a ver com o tempo em que Portugal e Angola não se conheciam (um tempo maior do que o tempo em que já estão em contato). Fora a experiência dos racismos etc.

    Por isso, não é uma questão de complô. É uma questão da estruturação desses signos todos, que vão-se legitimando e deslegitimando. A questão não é o mercado editorial. Ele só reflete isso. É muito, muitíssimo mais profundo. É atemporal.

    Um abraço!


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