O debate racial nas literaturas africanas de língua portuguesa (parte 1)

Eu só conheço um livro do escritor angolano João Melo. Chama-se Filhos da pátria e, coisa rara pras literaturas africanas, foi editado aqui no país pela Record. Recomendo a leitura porque nos ensina e reflete bastante sobre a sociedade luandense e é esteticamente instigante a sua mistura de crônica com narrativa (isso não é exatamente uma novidade, mas o modo como ele faz é bastante particular). Deu pra sentir que o cara é um puta escritor.

Mas aí teve aquele papo com ele e o Manuel Rui na UFF, que eu divulguei aqui. Foi muito bom, obviamente. Na hora das perguntas, ficou aquele clima constrangedor de alunos que não sabem o que falar e mediador sem graça esperando o primeiro cara-de-pau. E eu, que faço barba com óleo de peroba todas as manhãs, tendo lido o Filhos da pátria na véspera, muito bem impressionado e achando contraditórias algumas passagens, timidamente levantei o dedinho.

(Na verdade, tenho que confessar uma coisa: eu me sinto profundamente constrangido quando vejo alguém constrangido. Sempre, demais, muito mais do que deveria. Eu fico sufocado, sem ar, uma coisa horrível. E quando isso acontece, uma força interior muito poderosa, quase um summon de Final Fantasy 7, me faz tomar uma atitude pra resolver a situação, para o meu próprio bem. No mais das vezes, evidentemente, falo coisa que não devia, pago mico e tal. Nessas horas, eu queria ter um assento ejetor.)

Mas, nesse dia, sério, eu tinha mesmo coisa pra perguntar. Estava até marcadinha a página. E eu comecei lendo o seguinte trecho do conto “Ngola Kiluanje”, em que, a partir do envolvimento de um homem angolano branco com uma mulher negra militante carioca, são discutidas as relações raciais em Angola (a narração é do homem):

Mas quando lhe revelei, dias depois, a conversa que tinha tido com o meu pai, ela contou-me que, tempos atrás, conhecera um escritor angolano branco que tinha vindo ao Rio participar num simpósio sobre literatura africana em língua portuguesa e que, quando questionado por um militante do Movimento Negro sobre o facto de Angola ter enviado um branco para essa reunião, teve uma resposta de que ela jamais se esqueceu:
Meus senhores, se pensam que vou pedir desculpas por ser branco, estão muito enganados!…

Antes, faço aqui um esclarecimento. As literaturas africanas de língua portuguesa – de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau – contam com o curioso fato de serem escritas, basicamente, por autores brancos(as) ou mestiços(as). Isso é um fato realmente único na África negra. Há, obviamente, autores brancos e mestiços em outros países africanos abaixo do Saara, mas certamente não nessa proporção (a exceção talvez seja a África do Sul).

autores angolanos

Essa proporção racial da imagem acima, aliás, seria interessantíssima, muito justa, se estivéssemos tratando de Brasil. Mas, num país em que 95% da população é formada por pretos, 2% por mulatos e 2% por brancos (e 1% de ‘outros’), é pra ficar com a pulga atrás da orelha. E no Brasil, em que metade da população é formada por pretos e pardos, 94% dos escritores brasileiros são brancos, segundo pesquisa realizada por Regina Dalcastagnè publicada na Revista Gragoatá n. 24 (igualmente assustadores são os números e a abordagem qualitativa desse trabalho falando sobre os personagens, narradores e enredo da ficção brasileira dos últimos 10 anos; vou comentar sobre isso por aqui assim que for possível). É evidente, também, a ausência de mulheres. Não vou me deter na questão de gênero, no momento, pela ausência de uma reflexão mais clara sobre isso.

A pergunta que fiz a João Melo, então, foi sobre essa subrepresentação de autores pretos nas literaturas africanas de língua portuguesa de um modo geral, e na angolana em particular, e se, de alguma forma, isso não poderia estar viciando o debate racial, já que há poucas vozes de autores pretos para falar sobre o tema. Não é muito difícil imaginar o porquê da ausência de escritores pretos por lá, como se verá na resposta que João Melo me deu, mas minha pergunta foi motivada pela assombrosa ausência de discussão sobre um fato que, pra mim, pelo menos, é gritante, um fenômeno. E tanto no Brasil, entre os estudiosos, como em Angola, entre autores e estudiosos, essa questão estranhamente nunca é colocada – e há reações agitadas, às vezes, quando falamos disso.

João Melo começou explicando que não há, em Angola, conflitos raciais. Segundo ele, o que há é uma “tensão de baixa intensidade”, em suas próprias palavras, que não leva a questões mais sérias. Volta e meia o povo levanta questões como “por que o ministro escolhido para tal cargo é branco?”, ou alguns estranhamentos em relações interpessoais, mas nada que se desenvolva para alguma coisa maior. Dito isto, contou o caso de uma famosa antologia de escritores angolanos feita por José Luís Mendonça, um escritor mulato, e editada pela Maianga, salvo engano. Parece que foi um rebu, e choveram acusações de racismo porque praticamente não havia autores pretos (acho que só Agostinho Neto e Uanhenga Xitu) na seleção de Mendonça, e o clima chegou a esquentar por lá. João Melo disse que quem levanta uma questão dessas ou é profundamente ignorante sobre a história de Angola, ou está de má fé. Sem citar nomes, disse que quem botou a boca no trombone foi um escritor angolano, que, “como certamente não é ignorante sobre a história de Angola…” – e deu um risinho de canto.

Pode até ter sido má fé do tal escritor, mas eu, pessoalmente, acho legítimo o questionamento, mesmo que tenha sido pra colocar uma certa pressão sobre o debate. Porque, convenhamos, pode ser má fé, também, não discutir essa questão, ou simplesmente fingir que ela não existe, quando é um fato óbvio, empírico, observável, literalmente, a olho nu. E a questão principal que está por trás, me parece – e que costuma ser negada -, é que a ausência da discussão se dá justamente porque não há pretos, praticamente, para emitir as suas opiniões no espaço literário, e inclusive desenvolver o tema em seus enredos, poemas etc. É um ciclo. Melo afirmou que o debate sobre esse fato tem que existir, mas disse com muito menos convicção do que, na minha opinião, é merecida.

Do pouco que conheço de literatura angolana e moçambicana, vejo o debate racial tomar dois caminhos, normalmente: Primeiro, uma tendência a se denunciar o racismo anti-branco (do negro contra o branco), mas sempre com mensagens de paz, de que a mestiçagem é bonita, que o julgamento da pessoa pela cor da pele é ignorância etc. O Mia Couto, por exemplo, bate muito nessa tecla. Fala-se pouco do racismo contra o negro, e normalmente contextualizado em enredos que se passam no período colonial, em que a situação era, evidentemente, muito mais tensa. E tratam, ainda, essa dificuldade de referência que o mulato sofre (não é branco nem negro, não é do bem nem do mau), que é das mais interessantes, na minha opinião (Mayombe, de Pepetela, tem um personagem, o Teoria, se não me engano, que mostra a complexidade da questão). Em segundo lugar, os conflitos étnicos – entre pretos – que estão também muito relacionados com a questão de poder por lá. É uma especificidade africana que não conhecemos na diáspora.

Para João Melo, e como qualquer um já deve ter imaginado, há muitos autores brancos e mulatos porque no período de colonização houve um “relativo privilégio” destes dois grupos, que puderam ter uma formação educacional à ocidental muito melhor, mais recursos materiais etc, em detrimento dos pretos. Cabem, aqui, duas ressalvas importantes. Primeiro que a expressão “relativo privilégio” foi um daqueles eufemismos complicados. Estamos falando de um período em que, dentre as incontáveis interdições impingidas aos pretos, tivemos uma chamada escravidão. Não preciso nem desenvolver mais nada sobre isso, certo? Em segundo lugar, vale uma breve atenção ao fato de que, diferentemente de como ocorre na diáspora (excetuando-se o Haiti), em Angola – e, creio, nos países da África sub-saariana como um todo, exceto África do Sul – os mulatos são um grupo associado aos brancos, e não aos pretos. Isso acontece, provavelmente, porque a norma em África é ser preto, e não ser branco, como por aqui (entenda-se: quando falo de norma de raça nas Américas, faço-o pensando em termos de poder, referência, representação; e não de maioria numérica). O mulato se diferencia dos pretos, em África, porque em algum momento da história de sua família houve uma aliança com um branco (mesmo que essa “aliança” seja estupro, como é muito comum), que é o colonizador, o usurpador etc. Por isso, muitos mulatos são rechaçados pelos pretos, ainda hoje, e mais aceitos entre os brancos do que são os pretos.

Mas, voltando à fala, e como eu já havia comentado acima, essa maior inserção dos brancos e mulatos no processo educacional era algo que já imaginávamos como justificativa. Para João Melo, a questão toda se resume muito simplesmente a esse fato – isso não é ironia da minha parte -, e ele ainda defendeu, como comprovação disso, que, com o fim da colonização (em 1975), o equilíbrio representacional entre pretos, brancos e mulatos está se reestabelecendo nas mais diversas esferas do poder. E disse, sem dar exemplos, que “há muitos e bons escritores pretos surgindo em Angola”. Eu tenho dúvidas se esse equilíbrio representacional, na literatura, está mesmo ocorrendo. Eu não vejo isso, não mesmo. O mais recente escritor angolano de grande projeção, por exemplo, é Ondjaki, um mulato muito claro, o qual já vi dizer, na minha frente, que Obama não é negro. Dá um tempo, né? Mas, como falei para João Melo, após o debate, essa ausência total de autores pretos pode ser uma impressão de quem está de fora, porque os textos desses novos escritores pretos certamente ainda estão circuscritos a Angola, fato que ele me confirmou. Ele disse que em breve aparecerão. Estou esperando, atento e zeloso, mas bastante desconfiado.

*

Em 2007, quando participei de um evento internacional de literaturas africanas de língua portuguesa na UFRJ, tive o prazer de conhecer e conversar com muitos angolanos e, de quando em vez, eu perguntava sobre como funcionavam essas relações entre pretos, brancos e mulatos por lá. Dona Kanguimbo, uma senhora muito simpática, e um outro angolano que com ela estava me disseram que não tinha “esse negócio de racismo em Angola”, que todos se davam muito bem, e mudou de assunto. E Manuel Rui, que é uma peça rara, quando lhe perguntei se havia muito mulatos em Angola, disse-me “não, mas estamos providenciando diariamente”. Enfim, o caso é que é muito comum a negação da existência do racismo em Angola, e acho que também em Moçambique (este post do Tabus Afro Africanos explica um pouco a dinâmica das coisas em Angola; é muito interessante). E, como essas estratégias do silenciamento e da carnavalização sobre as relações interraciais é também muito comum no Brasil, comecei a pensar que um estudo comparativo entre Brasil e Angola no tocante a esse aspecto poderia nos ensinar muita coisa. Digo isso porque um fato interessante na fala de João Melo me chamou a atenção. Não é possível “transportar mecanicamente” a questão racial brasileira para Angola porque, apesar das semelhanças superficiais que destaquei (que desconfio ser algo típico da colonização portuguesa, mais que tudo), a demografia angolana é completamente diferente (entre outras coisas completamente diferentes). Então, por exemplo: no Brasil, é possível não haver políticos negros, empresários negros, elite negra, etc. Em Angola, evidentemente, isso não é possível, porque sequer há brancos e mulatos o suficiente pra preencher todas essas “vagas”. Poder-se-ia pensar numa comparação em termos proporcionais (na literatura, acho que rola), mas de toda forma não acho que as relações se dêem tão cartesianamente. Há muitas curvas nesse caminho.

O que eu penso, sobretudo, é que comparar as questões raciais do Brasil e de Angola é mais uma das muitas formas que ainda não exploramos de aproximação dos dois países. O Brasil é um produto angolano; e Angola, hoje, é um produto brasileiro. Analisar as semelhanças e diferenças, as complexidades das relações raciais que ocorrem nos dois países é, certamente, uma forma de nos conhecermos melhor. E estou convencido de que a literatura é um excelente ponto de partida para isso.

Na Parte 2, um pouco mais sobre o assunto no ambiente acadêmico.

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