Plástico: uma questão de paixão

Eu sou professor de Português. Assim, meio irregular e com salário de subemprego, ainda, porque não tenho a licenciatura (resta-me uma última e torturante matéria), mas nesse país a gente dá um jeitinho, os donos de escola também, e eu consigo ir pra casa com algum no bolso no fim do mês.

(Algum, não: algunzinho.)

Hoje, após aplicar provas, saímos eu e a professora de Biologia em direção a um mercado ao lado da escola, pelas ruas a comentar as respostas absurdas que nossos pimpolhos haviam registrado – ela pra comprar salsicha, eu pra comprar óleo e molho de tomate; e se estivéssemos indo pro mesmo lugar, é provável que o jantar fosse cachorro-quente.

Entre casas com ‘z’, cachorros com ‘x’ e aberrações de Biologia das quais eu não fazia qualquer ideia, mas ria por educação e pra não fazer vexame, chegamos à fila do caixa para pagar nossas compras. A professora passou as suas salsichas Pif-Paf, meteu em duas sacolas plásticas e pagou. Vi aquilo (duas sacolas!) e, chegada a minha vez, resolvi sacanear.

Olha a diferença entre uma professora de Biologia e um professor de Português, né? Eu sei que não devemos sujar o pouco que resta de nossa bela e frágil natureza e, por isso, vou dispensar esta sacola plástica que há de levar mais de mil anos para se desintegrar!

Garrafa de óleo e lata de molho de tomate direto na mochila, eu rindo e ela meio sem graça,

Ah, deixa de ser palhaço, Rafael, a salsicha vai molhar a minha bolsa!,

de fato com razão; eu mesmo não botaria a salsicha sem proteção, se é que vocês me entendem. Estamos ainda rindo e eu pegando o dinheiro para pagar, quando dirijo meu olhar à operadora do caixa para entregar a importância necessária à pequena compra feita. E então…

A partir desse instante, o tempo parou. Nem sei como descrever o que vi. A mulher me olhava como se eu fosse um extraterrestre que estivesse devorando a mastigadas o computador em que ela confere o troco e arrotando parafusos em seu rosto. Não sei. Sei que cheguei a me assustar, achando que tivesse falado alguma besteira, algo inconveniente. Não sei, fiquei mesmo sem saber. Era uma expressão entre o horror e o nojo.

Eu estava, naquele momento, quebrando completamente as expectativas dela como fiel responsável por toda e qualquer mercadoria que passa pela leitura ótica que ela detém, arfante, a cada ‘pi’, e que libera as compras para o ensacamento – a etapa final de um processo quase fordista que ela mantém orgulhosa, cheia de si. Desconfio que eu a tenha, mais que tudo, ofendido. Uma coisa.

E tive medo. Achei que, na sequência, ela fosse pegar o saco plástico e me torturar ali, na frente de todos, ao modo Capitão Nascimento, me sufocando, querendo descobrir que plano maligno eu tinha por trás daquela minha atitude inconsequente de recusar uma sacola plástica.

Fala o que tu sabe, neguinho! Fala logo, porra!

Quê isso, tia! Não sei de nada, não! Só quero um mundo limpo, lindo e sem poluição, com borboletas voando pelos campos, rios cristalinos em que possamos nadar e ar puro nos pulmões das futuras gerações!

Rá, tá bom! Tá achando que eu nasci ontem, é?!

Imagina se ela souber o que faço com o óleo usado…

Obama nectarine

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4 Responses to “Plástico: uma questão de paixão”


  1. 1 Marcelo Santana 24/09/2009 às 10:24

    Agora é lei:

    http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL1232415-5606,00-APROVADA+LEI+QUE+PREVE+SUBSTITUICAO+DE+SACOLAS+PLASTICAS+EM+COMERCIOS+DO+RI.html

  2. 2 astrocat 24/09/2009 às 12:03

    Hahahah, ontem mesmo ganhei um olhar desse, no pet shop. Adorei o blog.

  3. 3 Rafael Cesar 25/09/2009 às 11:10

    Parece que ainda vamso ganhar muitos olhares assim, Astro. Beijo!

  4. 4 Rafael Cesar 25/09/2009 às 11:11

    Marcelo, vê só o que é um cidadão visionário: eu estou aplicando a lei muito antes de ela entrar em vigor, hein?

    Abraço!


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