Até onde vai a dignidade de quem sofre racismo?

A de Januário Santana, a quem já dediquei dois posts nos últimos dois dias, parece não ter barreiras. Como eu gostaria de ser como ele.

Os jornais O Globo e Diário de São Paulo, braços da mesma empresa, estão dando bastante atenção ao caso, como mostrei no post logo abaixo. Foi onde consegui mais informações sobre o caso. Não pesquisei grande coisa sobre o assunto na internet pela urgência em escrever aqui, e também porque estou ocupado com algumas outras coisas.

O destaque que dou a esses dois jornais é pela atenção ao lado humano do caso, ou seja, pelo impacto sofrido na vida do seu Januário. A matéria d’O Globo conta que ele perdeu 8 quilos nos últimos 14 dias porque sua gengiva descolou de tanta porrada na cara, e ele não consegue mais colocar a dentadura – e nem vai poder tão cedo, segundo a dentista -, o que o faz viver à base suquinho e sopinha desde então. Tá bom ou quer mais?

A boa cobertura d’O Globo ainda dá destaque à dificuldade de haver prosseguimento nesse tipo de caso, em que é sempre necessária a representação da vítima, ou seja, a sua manifestação para que o processo vá até o fim. E, nesse aspecto, Januário e sua esposa dão banho:

– O que mais dói é saber que não foi a primeira vez e que pode não ser a última – afirma, cabisbaixo.

Mas basta olhar para seus dois filhos, uma garota de 2 anos e um menino de 5, que Januário recobra a esperança.

– Mas é isso aí. A vida continua. Tomei a decisão de pôr a boca no trombone e vou em frente. Não quero que meus filhos sofram os mesmos problemas que eu.

Januário diz que pensa até em vender o EcoSport do qual já pagou 21 das 72 prestações. Já a sua mulher, Maria dos Remédios, de 41 anos, não concorda com o marido.

– Trabalhamos para conquistar as coisas. Não vai ser a imbecilidade desses preconceituosos que vai nos impedir de crescer na vida – diz.

Tomara que tenham forças para continuar nesse caminho, porque é dificílimo.

Já a Folha fez uma matéria voltada somente à questão dos processos em si, tanto judicial por parte de Januário, como administrativo por parte do Carrefour, assim como o Estadão, que por sua vez já tirou o assunto da capa do seu sítio virtual. (Em todos os casos, estou me referindo às versões online desses veículos, porque não saio de casa desde ontem nem pra ver capa na banca.)

Preconceito é sempre uma coisa terrível. Todo mundo no mundo já sofreu preconceito e sabe como é horrível ser tirado por baixo, qualquer seja o motivo. Mas, como se vê, é bastante diferente o impacto do preconceito contra um indivíduo negro daquele sofrido por um indivíduo gordo ou descendente de japoneses, porque, pelo amor de Deus, não há uma memória de 358 anos de escravidão de gordos ou japoneses. Exceto em raros casos de bullying, você jamais vai ver um gordo ou um descendente de japoneses tomando surra e saindo ensangüentado – especialmente da polícia, que detém o monopólio da violência. Acho estranho quando algumas pessoas berram contra um suposto exagero quando afirmamos que a memória da escravidão ainda está muito presente. Ela não só está presente como assume suas várias faces. As violências simbólicas, de maior ou menor grau, acreditem, acontecem TODOS OS DIAS para o indivíduo negro, mesmo de pele clara como a minha. E, na menor brecha de “legitimação” (como se fosse “legítimo” dar surra num ladrão, mas é assim que muitas pessoas pensam), essas violências simbólicas encontram formas de se concretizar em violências físicas – e aí, dá-lhe pau na crioulada, que isso que aconteceu com o seu Januário é coisa que também acontece todos os dias.

Da mesma forma, essas violências acontecem com a mulher, com @ homossexual, o pobre, porque são concepções de mundo enraizadas na sociedade, e haja força pra isso ser diferente, um dia.

Entendeu, Danilo Gentilli, por que, apesar de suas brilhantes elucubrações de que são apenas termos relacionados a animais, é completamente diferente chamar branco de lagartixa, gordo de baleia, você de burro – e chamar negro de macaco? Ou quer que eu desenhe?

gentilli

Anúncios

2 Responses to “Até onde vai a dignidade de quem sofre racismo?”


  1. 1 Rafael Abreu 21/08/2009 às 18:48

    As menções aos japoneses e gordos são tristemente engraçadas. Porque tem gente que acha que é a mesma coisa.

    Aliás, essa é uma boa forma de se iniciar uma conversa: se a pessoa achar que dá no mesmo o preconceito contra negro e japonês, ou achar que usar uma camisa 100% negro é o mesmo que usar uma escrito 100% branco, é melhor parar a conversa por aí. Porque eu realmente acho que essas pessoas não estão entendo nada, e meu pessimismo me impede de achar que vão entender.

    Cara, fala sério: quem lê minhas bobagens no teu blog deve achar que sou negão. De hoje em diante exijo ser chamado por você de meu preto!

  2. 2 Rafael Cesar 22/08/2009 às 00:41

    Rapaz, você é um negão de tirar o chapéu e ainda não descobriu isso!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




oquê, caboco!

quando chegar a um milhão, eu fecho o blog.

  • 42,746

escreva seu e-mail no campo abaixo

Junte-se a 8 outros seguidores

quer falar comigo, ném?

meu jazz @ gmail . com

———————————————-


%d blogueiros gostam disto: