Vovó chegou para o jantar

Muniz Sodré

Monsieur, madame, entrez s’il vous plaît! Ah, entendem o português? Melhor, melhor… Meu francês não é tão fluente como o de minha filha… Vão longe os tempos do Sacré Coeur… Entrem, entrem! Meu nome é Viviane, já devem saber por Kiki. Na sociedade – so-ci-e-da-de! grandmonde, sabe – chamam-me de Vivi. Vivi Perrier. Adoro o sobrenome do meu segundo marido. Não, não é francês, mas descende, sabe? Família brasileira de classe. Vão sentando, vão sentando, je vous em prie!

Linda a sua esposa! Não, não me agradeçam – sou sincera. Verdade também é que eu morria de vontade de conhecê-los, principalmente a você, que foi professor de minha filha na Sorbonne, orientador de tese e tudo o mais. Maravilha! Tão raro ver uma jovem com doutorado na Sorbonne. Incomparável ventura! Ah, sim, fortune, fortune!

Aí está ela, la voilà. Kiki, minha filha, você nos fez esperar um bom pedaço. Mas valeu a pena. Ela não é linda? Não, não sou uma vulgar mãe-coruja, mas tenho coragem de celebrar em público os encantos da minha filha. Certo, Monsieur? Vejam só: pele de veludo; olhos azuis, azuis como os do pai; cabelos louríssimos. Uma deusa branca! Bem, bem, não vão pensar que idolatro raça, bobagens desse tipo, mas morenice parece-me mais gloriosa quando é uma gradação do branco, do louro, um efeito solar. N’est ce pas? Kiki, minha filha, ordene aos criados mais scotch. S’il vous plaît!

Jantar servido. Monsieur, aqui; ali, madame. Kiki, filha, onde está o Poully-Fuissé? Sim, é de fato uma de suas melhores safras. Correto o consommé? Estas são costeletas perfumadas. Adiante, lombinho ao alecrim. Cheguei a pensar num menu de cor local, coisas baianas talvez, mas temi pela saúde de vocês. Azeite de dendê – sim, l’huile de palme – não combina com estômagos finos. Sobremesa allons-y: bavaroise, torta Sacher, gelados. Madame… Champagne?

Neste salão também meu pai costumava sentar-se depois do jantar e bebericar conhaque. Martin, Rémy Martin – jamais aderiu a nenhum outro. Importava-o religiosamente da França, junto com charutos holandeses. Não fumava os da terra, porque tinha uma cisma im-pres-sio-nan-te com questões de higiene. Preocupava-se, vejam só, com a limpeza das folhas de fumo! Frutas, mandava fervê-las ligeiramente antes de comer. Era simplesmente incrível o meu pai! Quanta saudade… Mas não vou aborrecê-los com recordações pessoais… Mais licor, monsieur?

Retratos de família: ali, meu bisavô, avô, minha avó, pai, mãe… Esta aqui? Uma velha ama-de-leite… Oui, oui baby-sitter typique, pessoa de estima na família. É, depois ainda falam em discrminação racial., todas essas asneiras. Não dou crédito. EM nossa família, negros sempre foram tratados com humanidade, como se fossem iguais. Ma foi! Claro, meu bisavô tinha escravos – eram necessários nos engenhos de açúcar e mesmo no palacete da cidade, esta casa onde vivemos até hoje. Ninguém da família, porém, jamais tratou um deles dessa forma que às vezes se lê em livros de História. Non, monsieur, muito pelo contrário. Nossas amas-de-leite, aquelas que ainda nos embalam, nos mantêm apertados junto ao coração, têm cor negra. Negrinha, sim!

Monsieur está mesmo interessado em histórias de negros, não? Alguma tese à vista? Volontiers, embora não ache que valham a pena, pois em minha opinião, já se disse tudo sobre a escravatura. Poderíamos ter sabido mais se o Ministro Rui Barbosa – monsieur conhece a história da Águia de Haia? – não tivesse mandado queimar os arquivos. Eu, por mim, acho que fez muito bem! Se foi uma nódoa, uma mancha em nossa História, pra que guardar lembranças? Para quê? Para alimentar rancores? Não faz sentido. Depois, põem todos os senhores no mesmo saco, não se distinguem os benfeitores, os de bom coração, como meu bisavô.

Bem, se monsieur está tão curioso, posso contar. C’est pas beaucoup, sabe? Bisavô foi um dos maiores produtores de açúcar da região. A terra era excelente para o plantio, a família dispunha de muita mão-de-obra escrava e de muita garra para ampliar as fazendas. Bisavô foi um civilizador: mandou construir uma igreja na fazenda principal, alimentava de vez em quando os índios que sobraram, trouxe máquinas para modernas para o engenho, até mesmo uma locomotiva! Bisavó? Não ouvi muito sobre ela, salvo pequenas deixas em conversas de família.

Não, madame, absolument pas, não é por machismo que se apagou na família a memória da bisavó. Afinal, por que tanto interesse? Se me calo, é que sei pouco. Bem… sei que ela não chegou a habitar este palacete, apesar de bisavô ter morado aqui. Por quê, ignoro. Hic… Hic… Não se preocupem. Crise passageira de soluços, coisa que me dá de vez em quando. O que dizia eu? Ah, sim, a bisavó… Claro que temos um retrato dela. Não mostrei? Mas sim, aquele ali! Ali mesmo, ao lado do bisavô, ora essa! Eu tinha dito que era ama-de-leite? Tolice, coisas do champagne, sim. A imagem está enegrecida pelo tempo, daí a confusão. Sim, de fato, fotografia amarelece, mas esta aqui empreteceu, cacete! O que, Kiki? Não, minha filha, não falei palavrão nenhum, meu amor. Ma foi! Quero ser natural com monsieur e madame. N’est ce pas? Como eu ia dizendo, o retrato… O quê? Não, sim, en effet, sempre houve muito cruzamento de raças neste país. Meu avô, meu pai tinham hor-ror a essas uniões. Bisavô? Era um liberal – espírito de civilizador, sabe – mas o resto da família não partilhava de suas escolhas. Dizem que foi uma dessas… Hic… Hic… Hic… Soluços, Kiki, não se preocupe! Monsieur…? A religião de bisavô? Bem, ele acompanhava bisavó, não tinha muito siso nessas coisas. Pelo menos é o que conta a família. Dizem até que foi enfeitiçado. Senão, como teria casado com bisavó? Por quê? Porque, meu cacete! Parce que! Esses gringos… O quiéqui êzi muréqui pensa? Hic… Hic… Hum… Hum… Nada, nada, estou muito bem, Kiki, não se afobe. Monsieur, Dame… Essas histórias de cor, sabe, esses casos de família, sabe, tem hora que voltam… Engenho é inferno… Bisavó, monsieur? Vovó, meu filho… Vovó chega, sim. Negou, ela volta – o que não se vê tem voz. Não, Kiki, me larga, me solta! Pra quê roupa? Tiro, sim, caboclo tem roupa? É nua mesmo que eu gosto! Tá quente na aldeia… Sou daqui não, sou de Zinangora… Sou tudo, sim, homem, mulher, sou mina, sou gege, gê… Sou preta de ganho, não, sou de guerra, caboclo de corso. Não mexa conego, não, mexa não! Hic… Hic… Hum… Hum… Agora vovó tá dançando, sim. Não, nada de língua de gringo conego, moléstia! Quiéque suncê qué? Tem zimbo pra mim, chibungo, tem? Tem miçanga? Então arreda! Hum… Hum… Hic… Hic… Hum… Êêêêita! Salve as falanges da mata!

(In Santugri: histórias de mandinga e capoeiragem. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988)

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1 Response to “”


  1. 1 Raphaella 05/08/2009 às 23:33

    o blog vai de vento em popa…e as monografias?
    ( caro amigo, não se assuste. eu também faço planos e planilhas pros próximos 25 anos.)

    beijocas!


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