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Palavras de origem africana 2

A palavra que escolhi para a segunda edição não deve ser novidade para a maioria das pessoas, pois é um conhecimento relativamente comum que sua origem é o quimbundo ou, pelo menos, uma língua africana. Mas, depois de apresentadas a sua origem e acepções, convido para uma reflexão.

Então, vamos à palavrinha do dia:

moleque

Segundo o Novo dicionário banto do Brasil, do Nei Lopes, “s.m. (1) Negrinho. (2) Indivíduo irresponsável. (3) Canalha, patife. (4) Menino de pouca idade /// adj. (5) Engraçado, pilhérico, trocista [fem. moleca, nas acepções (1), (4) e (5)] – Do quimbundo muleke, garoto, filho, correspondente ao quicongo mu-léeke, criança, e da mesma raiz de nléeke (pl. mileke), jovem, irmão mais novo.”

E o Houaiss, que dessa vez concorda, nos dá os mesmos significados, e ainda outros, que destaco abaixo:

“menino novo, de raça negra ou mista; menino criado à solta; menino de rua; garoto travesso; indivíduo sem integridade, capaz de procedimentos e sentimentos vis; canalha; diabo (regionalismo: Ceará); mancebo, escora (rubrica: carpintaria); barra de ímã us. para separar do ouro em pó as partículas de ferro nele encontradas (regionalismo: Minas Gerais); empregado doméstico, geralmente em idade escolar (regionalismo: Moçambique); que tem mau caráter, velhaco (adjetivo).”

Pra bom entendedor, meia palavra basta. Mas, de qualquer forma, eu vou dizer o que acho interessante nessas acepções.

Pelo que entendi, a raiz banta não confere nenhum julgamento de valor à palavra, denotando apenas a ‘criança’, ‘pessoa de pouca idade’ etc. Mas, veja como somos capazes de reconstruir o significado das palavras de acordo com a nossa visão de mundo: o termo usado para criança nas línguas bantas passa a ser sinônimo, por aqui, de criança preta, criança escrava. Todos já lemos em Machado de Assis, ou vimos em filmes e novelas de época aquelas cenas em que alguém manda chamar um ‘moleque de recados’ para enviar uma mensagem a alguém, ou apenas um ‘moleque’, para comprar alguma coisa etc. E nenhuma dessas pessoas chamava seus filhos de moleques, certo? Mas agora é que vem a loucura: como o termo se referia à criança preta, passa a ter o significado, por extensão, de mau caratismo, pilantragem e até diabo, que são maioria nas acepções encontradas em Nei e Houaiss.

Não tenho muitos elementos para analisar a acepção moçambicana que o Houaiss nos dá, mas sinto arrepios ao constatar que até entre os povos que criaram o termo e o usavam apenas com o sentido de ‘criança’, também eles passaram a usá-lo como sinônimo de ‘empregado doméstico’. A que ponto chegam os efeitos perversos do processo colonial, hein?

Me chamou a atenção, ainda, o jargão da carpintaria, que usa moleque com o sentido de ‘escora’. Quantos moleques não devem ter servido de ‘escoras’ do que quer que fosse – simbolicamente ou literalmente – para chegarem a ser metonimizados com o sentido de haste de apoio? E a acepção de “ímã usado para separar os pedaços de ferro do ouro em pó”, regionalismo linguístico justamente de Minas Gerais, onde a escravaria se arrebentou na tempo da mineiração? Alguma sugestão? Acho que jé está dado.

A conclusão a que chego é que (se tiverem outra, digam-me), justamente por causa da origem, foi dada a essa palavra uma conotação negativa na maior parte dos casos. E hoje, mesmo que não saibamos a sua procedência, sabemos o seu valor, e sabemos também que não é nem pode ser uma palavra culta, por exemplo. Não se usará ‘moleque’ com sentido de criança num texto formal, jamais, seja uma ata, um relatório, uma tese. E isso, como veremos mais para frente, acontece com praticamente todas as palavras de origem africana.

Pergunto, por fim: se somos capazes de reconstruir os significados para o mal, seremos capazes de reconstruí-los para o bem? Acho que sim, mas com muita dificuldade. Hoje, também usamos o termo carinhosamente quando falamos “o meu moleque tá grandão”, ou “essa menina é uma moleca”, com sentido positivo e afetuoso. Mas mesmo nesse último caso, entretanto, o termo ‘criança’, em português, não poderia ter a conotação de ‘levada’; então, ainda que ‘moleca’ seja carinhoso, continuamos tendo um juízo de valor – e que, perigosamente, facilmente e tenuemente pode se transformar numa frase negativa: eu não te criei pra ser moleca!; para de molecagem! etc. E o célebre Capitão Nascimento: você é um moleque, você não merece essa farda!. Por mais que ele estivesse criticando uma atitude infantil e impensada do seu subordinado, e pudesse tê-lo chamado de criança, escolheu ‘moleque’ por ser muito mais enfático para esse sentido.

(Isso tudo, aliás, me lembra um post muito bom da Lola em que ela fala da questão de gênero na língua, e que recomendo com gosto.)

E, agora, chegou o momento em que nós brincamos de criar frases com a palavrinha nova que aprendemos. Eu nem vou precisar inventar uma, porque acabo de ouvir minha mãe gritar do quarto dela:

Ô moleque, para com esse negócio de blog que você tem um mestrado pra fazer!

(Clique aqui para ver toda a série sobre as palavras de origem africana.)

Palavras de origem africana

Decidi criar uma série sobre as palavras da língua portuguesa de origem africana, mais especificamente as de étimo banto. Por quê, meu deus, eu vou criar uma série sobre isso? Porque eu acho um tema muito empolgante!! Você também não acha?

A série vai apresentar, a cada edição, alguma palavra que você provavelmente usa por aí, impunemente, sem louvar seus ancestrais africanos que a criaram, porque possivelmente não sabia dessa origem.

A minha fonte vai ser quase que exclusivamente o Novo dicionário banto do Brasil, do Nei Lopes. Acho que é o único trabalho sério sobre isso no mundo. Houve autores, como o Antenor Nascentes, que chegaram a considerar em seus dicionários etimológicos as línguas africanas, mas, até onde sei, ninguém havia feito uma pesquisa unicamente sobre isso (no caso do Nei, só com as línguas bantas). O Nei foi a todos esses dicionários, recolheu as propostas, avalizou muitas, modificou outras tantas, e, o mais importante e impressionante, trouxe mais um monte. É pesquisa de uma vida inteira. Tiremos os nosso chapéus.

E, por mais que eu ache desnecessário que outrem, algures e alhures venha legitimar esse trabalho feito por um sambista (porque os filólogos nunca deram a devida atenção ao tema e quase nada sabiam sobre isso), é muito legal saber que o Houaiss incluiu em seus verbetes mais de 250 propostas etimológicas desse dicionário. Na verdade não acho desnecessária essa legitimação, não – acho fundamental. Foi só pra dar uma espezinhada.

E a palavrinha do dia é:

lengalenga

Segundo o dicionário do Nei, “s. f. Conversa, narrativa ou discurso enfadonho. Do umbundo lenga-lenga, gemer repetidamente. 1) No quicongo, ndenga-ndenga, lentidão, derivado de de lènga, permanecer, durar muito tempo; que não acaba mais; 2) no suaíle, lengalenga, estar prestes a chorar; 3) no quimbundo, kuia ni kulenga-lenga, estar a esquivar-se. Nascentes vê origem expressiva.”

E aí? Você fica com o Nei ou com o Nascentes?

E agora vamos brincar de fazer frases com a palavrinha cujo étimo acabamos de aprender. Eu começo:

Para de lengalenga e vai logo comprar o dicionário do Nei Lopes!

atualização:

Logo depois que escrevi esse post, fui ao Houaiss ver se eles consideram essa etimologia proposta pelo Nei. E várias coisas curiosas. Primeiro, eles não consideram. E, pior, ficam com a do Nascentes. Mas a contradição maior vem agora: eles colocam que o uso do termo é “regionalismo”, concentrado apenas nos seguintes lugares, veja bem: Brasil, Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Moçambique. Ou seja, já que Portugal não está na rota da nossa querida “lengalenga”, tornou-se regionalismo. E não, não é que seja usado apenas em determinadas regiões desses países, porque quando é assim eles indicam. Mas, se você está com preguiça de pensar, vou trazer mais uma contradição nisso tudo: os caras indicam que o uso é exclusivo de países africanos e do país que recebeu o maior número de africanos no mundo… e ainda assim não consideram que é um lexema de origem africana??

Ora essa, filólogos do Houaiss, parem de lengalenga e atualizem logo o dicionário de vocês!

atualização 2:

Andaram aí pelos comentários perguntando o que é esse “de origem expressiva” de que o Nascentes fala. Em linguística, é quando se relaciona o termo a uma natureza como que interjeitiva (tipo um ‘opa’, ‘ei’, ‘psiu’), onomatopeica (‘tchibum’) ou imitativa. Ou seja, um prato cheio pra quando a gente não sabe a origem de uma palavra, né? Eu já reparei nessas minhas buscas informais que, volta e meia, está lá esse lance de “vocábulo expressivo” para palavras cuja etimologia é de línguas africanas ou indígenas, como veremos aqui ao longo da série. Acho que, no fundo, talvez nem tão fundo assim, fica evidente um grande estranhamento por parte desses filólogos para com essas línguas não-clássicas, vamos eufemizar assim, e, pior, uma absoluta falta de pudor e cuidado ao classificá-las dessa forma. Acho que tem aquele pensamento de que é língua de gente bárbara, e que portanto não articula sentenças semantica e sintaticamente bem resolvidas, ficando, no mais das vezes, no nível da expressão dos sentimentos, aquela coisa do grito primitivo, e por isso a profusão de “vocábulos expressivos”.

Sentiram o clima, leitores? Este blog é coisa séria e não dá mole pra lengalenga!

(Clique aqui para ver toda a série sobre as palavras de origem africana.)


oquê, caboco!

quando chegar a um milhão, eu fecho o blog.

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