Breve reflexão sobre o muro pichado com uma suástica na Uerj

Deu n’O Globo:

Teatro da Uerj amanhece pichado com inscrições racistas.

RIO – Os muros do Teatro Odylo Costa Filho, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), apareceram pichados com exortações racistas e símbolos nazistas na manhã desta segunda-feira. A Uerj foi a primeira universidade pública do país a adotar o sistema de cotas, em 2003. A universidade informou que está investigando para descobrir a autoria das pichações, que devem ser apagadas em, no máximo, dois dias.

Em dezembro de 2008, uma briga entre estudantes negros e brancos na saída de uma festa da universidade se transformou numa discussão sobre racismo, e acabou em denúncias de injúria racial e agressão. Um aluno branco do curso de Filosofia acusa integrantes do grupo Denegrir, que defende a política de cotas, de agredí-lo fisicamente e ofender dois amigos seus. Já os estudantes que fazem parte do Denegrir afirmam que os três rapazes brancos gritaram expressões racistas como “poder ariano”, “somos brancos e por isso somos superiores”.

Fora pretos

O racismo confortável se desconforta: eis os racistinhas colocando suas manguinhas de fora.

Então, vamos lá. Dias desses eu escrevi um post que defendia que a convivência entre negros e brancos era a melhor forma de combater o racismo, porque então a presença do negro seria vista como algo natural ao longo do tempo. Eis a primeira questão. Vendo a notícia acima, podemos pensar que a minha teoria está completamente equivocada, já que a convivência entre brancos e negros na Uerj está começando a dar sinais de tensão. Até dezembro do ano passado, me parece, ainda não tínhamos visto nenhum episódio de violência física. Mas aí aconteceu. Agora, pouco mais de um mês depois, tivemos um situação gravíssima: neguinho, ou melhor, branquinho pichou até suástica e pediu a saída dos estudantes negros da universidade, este que ainda é um espaço clássico de colonização, e que se configura como uma das áreas duras do contato racial (ou seja, onde o contato não é permitido), como eu já havia mencionado no tal post sobre a convivência a partir de um artigo do Marcelo Paixão.

Vou manter a minha defesa sobre a teoria de que a convivência seria positiva como forma de acabar com o racismo. Primeiro, pela citação que fiz do Muniz, em que está lá: convivência prolongada. Por quê? Ora, vivemos o momento do estranhamento. E isso vai durar muito tempo, porque a nossa memória social sobre as relações raciais é a da não-convivência em espaços como a universidade. Por isso, quando falo da conviência, e quando Muniz diz que ela deve ser prolongada, é claro que estamos contando com o momento do choque, do estranhamento, do conflito etc. E eu acredito, para completar caso não tenham lido o post anterior, que a convivência entre pessoas não seria o suficiente, mas que era necessária também uma convivência também com o universo simbólico relativo às culturas e populações negras como forma de combater o racismo e elevar a autoestima da população negra.

Isso tudo a que estou voltando não é para justificar eu ter dito que conviência é boa e, depois, surgir um conflito como esse (e muitos mais virão a partir de agora, provavelmente), que poderia me colocar em contradição. O que eu quero é puxar outro tema que merecia um post, que até hoje não fiz, mas sobre o qual o Alex Castro fez muito bem e está tudo lá, e que também gerou uma boa discussão entre mim e Lê do Mucungê nos comentários do post passado: o conflito racial é uma coisa positiva.

O Brasil mantém a sua fama de paraíso racial justamente porque o racismo não costuma gerar conflitos. Estes só acontecem em situações episódicas, normalmente por conta de injúria racial, tipo chamar de macaco, crioula imunda, essas coisas. Mas, como já sabemos e eu não gostaria de ter de repetir, o nosso racismo não gera conflitos porque não há, de fato, disputa de espaços e poderes entre pessoas de cores diferentes. Não há conflito porque tudo está em seu lugar, arrumadinho: brancos, e quase que somente brancos, no topo da pirâmide; praticamente todos os negros, e mais muitos brancos, na base. Não nos esqueçamos que pode haver mobilidade social nessa pirâmide, e que ela ocorre com muita frequência – mas somente para os brancos, o que só confirma que tudo continua no devido lugar. Um exemplo: os italianos chegaram ao Brasil com uma mão na frente e outra atrás (e um pedaço de terra, normalmente), eram todos muito pobres, e hoje encontram-se seus sobrenomes muito mais facilmente nas universidades, em capas de livros, na televisão, do que em carta chegando a barraco de bairro pobre ou favela. Os negros continuaram vivendo sobretudo na pobreza, mesmo em momentos de maior mobilidade social no Brasil, e nenhum dos mecanismos e possibilidades de ascensão social (quaisquer formas de proteção aos mais pobres, como o salário mínimo de Vargas, ou mesmo o ciclo desenvolvimentista do país, que tinha uma promessa explícita de elevar o status social da população negra pela geração de empregos) fez diferença para os negros. Continuamos na base. É por isso, muito simplesmente por isso, que não há sequer possibilidade de ter conflito. E o Alex Castro, no link que já indiquei, explicita com maestria a questão:

No Brasil, o negro sabe o seu lugar: os conflitos começam somente quando ele tenta sair desse lugar e ocupar outra posição socioeconômica. O negro brasileiro, imerso no mais profundo, avassalador, disseminado, estrutural racismo, ou introjetou sua própria inferioridade e acha que não merece um lugar melhor que o atual, ou então, por se saber cidadão de terceira categoria, sabe que a luta seria vã, que começar um conflito que não pode ganhar só pioraria as coisas, e educa seus filhos para serem humildes, calados, pra não chamarem atenção e não criarem problemas.

No Brasil, nunca houve leis racistas proibindo negros de ingressarem em restaurantes, hotéis, tribunais porque a própria estrutura socioeconômica perversa já era garantia mais do que suficiente de que negros somente entrariam nesses ambientes pra varrer o chão e servir café. O Brasil é tão arraigadamente racista que nunca nem precisou de leis racistas para manter seus negros em posição totalmente inferiorizada.

A falta de conflito racial no Brasil é a paz do mais forte que é tão mais forte que sua dominação nem mesmo é contestada e do mais fraco tão mais fraco que nem vale a pena começar a brigar. Assim é fácil não ter conflito racial.

Portanto, se estamos começando a ter esse tipo de conflito, isso é um indicativo de que está havendo uma reacomodação dessas massas historicamente preteridas, está havendo um distribuição desses poderes, ainda que a muito longo prazo e que estejamos muito no início. É por isso que estamos tendo conflitos na Uerj, explicitamente raciais. Conflitos que, repito, devem ficar cada vez mais frequentes, por ainda algumas gerações de estudantes. Porque, para a nossa memória, é inaceitável a presença de tantos negros na universidade, sejam ricos ou pobres (e é claro que a maioria é pobre); essa presença é muito mais conflitiva do que a presença de brancos pobres, que vêm frequentando a universidade e ascendendo socialmente por meio dela desde que temos universidades por aqui (os descendente de italianos pobres que citei, por exemplo, ou de japoneses, judeus, igualmente pobres, e que não são “brancos”, mas que não sofem racismo). Por observação minha em conversas e entreouvidos pela rua, além de leituras de comentários em fóruns de jornal, blogs etc., eu diria que muita gente, quiçá o senso comum, credita o fato de negros continuarem na base por preguiça, incompetência, além de termos mais feios, normalmente batendo no peito:

Meu bisavô veio da Cracóvia fugindo dos nazistas, e hoje meu pai é juiz porque ele ralou muito, trabalhou e não sei mais o quê.

Isso, claro, só vai ferrando ainda mais o problema todo.

Segue um exemplo dessa questão da memória, brevemente, que considero ser realmente importante: Muitos americanos vêm dizendo que os EUA agora vivem a era pós-racial, que o racismo já era, e que não há mais qualquer motivo para os negros reclamarem de racismo.

Vocês já têm até um presidente! virou a frase preferida dos americanos que acreditam que o problema do racismo foi superado da noite pro dia.

Está certo. Então, vamos pegar o exemplo do presidente e tentar tornar concreta essa percepção sobre a memória, pensando até numa possibilidade de mensurá-la. Apenas como exercício, vejamos a imagem abaixo (valeu, Rômulo!):

Os presidentes dos EUA: 43 brancos e 1 negro

Os presidentes dos EUA: 43 brancos e 1 negro

Frente a esta imagem, creio que fica mais clara a minha colocação de como ainda é muito frágil para a concepção do povo americano o entendimento de que eles têm um presidente negro, e de que isso é uma coisa natural. Para toda a carga de informações que recebem, seja sobre a história de seu país, ou esteja ela como pano de fundo em um filme, nas notas de dinheiro, nas conversas, no imaginário, na forma como entendem o mundo, seja falando sobre os seus presidentes ou não, sobre a história de seu país ou sobre culinária – os americanos estão profundamente sabidos de que têm por trás dele 43 presidentes brancos, e somente um presidente negro. Tentando tornar concreta a ideia da fragilidade: se esse quadro, que representa a memória dos americanos, cai no chão e se quebra (imagine que a queda represente algum conflito ou algo assim), certamente haverá mais chances de juntar pedaços em que haja figuras de presidentes brancos do que do único presidente negro. A ideia da presença de pessoas brancas no poder está muito mais fixada, e facilmente recuperável. Isso, creio, é a questão da memória.

E no caso brasileiro, podemos pensar o mesmo, desde a política (nós ainda não tivemos um presidente negro, ao que me consta, e são também pouquíssimos os políticos representativos da população negra), até espaços de prestígio (universidade), visibilidade (propaganda, televisão), ou de difusão de ideias e produção simbólica (livros, jornais, novamente televisão). Para a nossa memória, portanto, é estranha a presença de negros nas universidades.

Magnoli & comparsas já devem estar escrevendo artigos, que serão publicados amanhã mesmo nos jornalões brasileiros, dizendo, como ouço também de universitários e professores, e que li hoje nos comentários da notícia d’O Globo:

Viram só? Não tinha racismo no Brasil, e agora tem por causa das cotas. Está aí, claro e cristalino. Os jovens estão se tornando racistas e desenhando até suástica. Tudo culpa do movimento negro!

É assim que, normalmente, vão colocando em prática a precisa assertiva da carta dos jornalistas da Cojira, fazendo uma

perversa inversão semântica, transformando em “racistas” aqueles que lutam contra o racismo, apresentando como “anti-racistas” quem jamais moveu uma palha para combatê-lo

Caso se confirme minha suspeita sobre isso, amanhã teremos “especialistas” e especialistas defendendo os dois lados: a) que as cotas estão gerando o racismo e criando ódio racial, e b) que as cotas estão fazendo o racismo latente, oculto e confortado se levantar e agir. Eu, que não sou especialista, mas apenas atento à questão, defendo a segunda opção com a seguinte ideia: O estranhamento pela presença do negro no espaço universitário precisa significar que tal presença seja afrontosa?

Se eu acredito, como expus no post anterior, que o preconceito contra o negro vem pela falta de convivência concreta (na intimidade) e também simbólica (ausência de contato com o universo afro), por outro lado, não vejo sentido em manifestação de ódio racial, como parece ser o caso, se temos tão disseminado e naturalizado esse nível de convivência superficial (e muito antiga no caso brasileiro).

Para mim, é aí que fica tudo muito claro. A presença do negro é tolerada em determinados espaços e situações (nas áreas moles), mas predominantemente indesejada (e as áreas duras do contato racial comprovam isso). O que determina a aversão de alguns alunos à presença do negro na Uerj (e esses alguns ainda se revelarão vários…), portanto, é mais do que aquele simples estranhamento que pode causar o preconceito: é, de fato, o efeito dos séculos de segregação (mesmo que não oficial), que foi capaz de gerar um sentimento racista em si, cultivado em nossa cultura desde que os primeiros escravos chegaram ao Brasil. E que pode e deve ser combatido com a convivência.

(Faz sentido o que eu escrevi? Ou estou me contradizendo em relação ao post sober a convivência?)

Por isso tudo, acreditar que é justificável, ou mesmo compreensível (como querem Magnoli et caterva) o aumento de manifestações racistas por conta de cotas, e ainda por cima responsabilizar justamente os que estão são vítimas e herdeiros sociais de todo esse prejuízo – gente, isso é o cúmulo da mãozinha na cabeça, do afago no rostinho. Os pichadores da Uerj são os filhos mimados que esperneam histericamente por terem de dividir seus brinquedos com o filho da empregada, e os defensores que lhes justificam são os pais que, não sabendo o que fazer para contornar a situação, em vez de brigar com os filhos, descontam com gritos e ameaças na empregada negra que serve aos seus filhos todos os dias.

atualização

O leitor José Roitberg indica, nos comentários deste post, que o Brasil já teve um presidente negro, Nilo Peçanha. Eu não sabia tinha certeza disso, mas retruquei dizendo que, de toda forma, não temos essa memória. A quem interessar possa, veja a discussão lá.

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12 Responses to “Breve reflexão sobre o muro pichado com uma suástica na Uerj”


  1. 2 Lê do Mucungê 20/01/2010 às 13:30

    Nossa, fechou o texto com muita habilidade .. o link da repressão à mãe negra, que na minha opinião é o simbolo maior da resistência negra – uma espécie de soldado sem rosto – dos negros no Brasil.
    Falo isso porque principalmente depois da abolição elas foram as grandes responsáveis pelo lar negro e pela tentativa de estabilização de uma situação de degradação social potencializada pelo desemprego.

    Eu reafirmo o que disse. O Conflito está instaurado.
    Aliás, me lembro de um fato que causou tanta confusão no país da democracia racial a alguns anos atrás quando começamos usar a camiseta com a inscrição 100% NEGRO. Eu mesmo fui parado na rua e questionado, já que somos todos ‘mestiços’ (aliás, os pagodeiros fizeram uma camiseta também mais alinhada com o discurso oficial, na deles aparecia: “brasileiro, mestiço e pagodeiro” – sem comentários).

    Quando o Negro “sai do seu local historicamente imposto”, quando o Negro se afirmar Negro, quando ele exige o alvo volta a ser objetivo. O Racismo se objetiva … saí do discurso do ‘somos todos iguais, aqui não tem racismo’, para o discurso (como você escreveu) :

    “Viram só? Não tinha racismo no Brasil, e agora tem por causa das cotas. Está aí, claro e cristalino. Os jovens estão se tornando racistas e desenhando até suástica. Tudo culpa do movimento negro!”

    Então é hora de conflito amigos .. sem hipocrisia !
    amanhã vamos ver os ‘técnicos’ fazendo sua avaliação conjuntural da situação nos culpabilizando pelo preconceito deles.
    Por isso que o Negro tem que estudar, se mobilizar politicamente e integrar o conhecimento e sua busca. Por isso venho aqui no seu blog pra aprender e, na medida do possível, contribuir … é justamente o que o sistema não quer …

    Eles nos querem separados como quando aglutinavam diversas etnias nos porões dos navios negreiros, e mesmos assim havia a união. Assim vai ser hoje e Sempre, vamos resistir !
    100% NEGRO.

  2. 3 Rafael Cesar 20/01/2010 às 15:23

    Eles nos querem separados como quando aglutinavam diversas etnias nos porões dos navios negreiros.

    Porra, Leandro, interessante isso que você disse, hein? Eu vivo buscando analogias com a escravidão, e algumas batem perfeitamente, especialmente quando estamos falando sobre empregadas, essas coisas. Mas essa das etnias e da divisão, eu nunca tinha pensado. Muito interessante, cara.

    Abraço!

  3. 4 José Roitberg - jornalista 20/01/2010 às 18:14

    Caro, tivemos o primeiro presidente negro do mundo. Foi Nilo Peçanha em 1910. Como está corretamente resgatado na história: “Foi descrito como sendo mulato e frequentemente ridicularizado na imprensa em charges e anedotas que se referiam à cor da sua pele. Durante sua juventude, a elite social de Campos dos Goytacazes chamava-o de “o mestiço de Morro do Coco”.

    Consta que ele deplorava sua ascendência afro, não a aceitava e mandou retocar todos os retratos preto&branco e quadros oficiais exigindo ser retratado com pela branca. Vamos lembrar que 1910 ainda estava muito próximo do fim da escravidão no Brasil e ao chegar ao posto mais alto há uma comprovação de que racismo e teorias raciais não funcionavam por aqui naquele momento histórico.

    Na verdade a aceitação das teorias raciais na Europa juntando com Darwin, sobrevivência do mais forte e mais apto ainda estavam em seu início.

  4. 5 Rafael Cesar 20/01/2010 às 18:59

    Olá, José,

    Pois é, eu usei a expressão “ao que me consta” quando disse que não tivemos nenhum presidente negro porque eu já havia lido menções a Nilo Peçanha, e também a pelo menos um outro (Hermes da Fonseca, talvez?). Mas, como eu não tinha mais informações e um conhecimento um pouco mais preciso sobre isso, preferi dizer que não tivemos nenhum presidente negro. Na verdade, é que não gosto de entrar nessas polêmicas afrocentristas sem saber bem do que estou falando, porque vem pancada de todo lado (além de, realmente, poder acabar falando bobagem). Tem gente que defende que o Egito era todo negro, por exemplo; e por mais que me pareça uma informação interessante e que, pela radicalização deles no culto aos ancestrais, me pareça bastante verossímil que fosse mais negros do que imaginamos, pelo menos, eu não tenho segurança para discutir isso.

    Mas, voltando ao nosso ex-presidente Nilo Peçanha, de toda forma a questão é que essa memória nós não temos, concorda comigo? Se perguntarmos às pessoas na rua se já tivemos algum presidente negro, acho pouco provável que alguém diga que sim se não for historiador ou militante negro. Se pedir para alguém “desenhar” um presidente fictício, ele será sempre branco. Em filmes e novelas, os presidente serão sempre brancos. Em livros, charges, whatever. Ter sido op primeiro presidente afrodescendente do mundo deveria ser uma informação comum que todos deveríamos saber, como todos sabemos que fomos o último país a abolir a escravidão, por exemplo, ou que temos a melhor tecnologia de exploração de petróleo em águas profundas. Parece uma comparação esdrúxula, mas é isso mesmo: essa deveria ser a típica informação que todo brasileio deveria saber. Então, mesmo que um homem negro já tenha sido presidente do nosso país, isso não chegou à nossa memória social, não tem impacto em nossa forma de ver o mundo, porque o próprio resolveu apagar suas marcas de negritude nas imagens, e os textos históricos, imagino, raramente fazem menção ao fato ainda hoje.

    Isso me traz uma outra questão interessante, que estou querendo pesquisar. Já li também que a partir da segunda metade do século 19, já nos encaminhando para a Abolição e para a República – e até mais ou menos o início do século 20, o que fica confirmado pela sua fala -, o Brasil tinha um grande número de professores negros, inclusive universitários; políticos (inclusive presidente!); funcionários de alta classe; representantes nas mais diversas áreas. Isso foi muito rapidamente reprimido quando as teorias raciais da Europa tomaram conta das nossas cabeças, e o caminho das gerações negras seguintes foi barrado, além das políticas de imigração que buscaram substituir a mão de obra negra. O mais incrível, volto a isso, não é nem terem impedido os negros de continuarem em tais espaços, mas, sobretudo, terem conseguido apagar isso completamente da história em tão pouco tempo. ora essa, Nilo Peçana foi nosso presidente há 100 anos, apenas, e ninguém sabe que ele foi negro. Machado de Assis só começou a ser visto como um homem afrodescendente nos últimos 10 anos, acredito.

    Não te parece que houve um processo furioso e engajado de apagamento? Chega a me assustar.

    Um abraço e obrigado pela sua contribuição,
    Rafael.

  5. 6 Lê do Mucungê 20/01/2010 às 21:10

    Salve jornalista José, como vai ?

    Na verdade as teorias raciais ( evolucionismo social e darwinismo social) ja ecoavam em terras tupiniquins desde a década de 1870. Você pode obter mais informações sobre o pensamento social brasileiro do período através do livro: O espetáculo das raças. Cientistas, instituições e pensamento racial no Brasil: 1870-1930″ de 1993, da historiadora da USP Lilian Schwarcz.

    A mestiçagem e a sua interpretação enquanto causa da inviabilidade da nação influenciou os pensadores Euclides da Cunha, Silvio Romero e Tobias Barreto, para citar apenas alguns.

    axé.

  6. 7 Rhea 30/01/2010 às 11:13

    Rafael,

    Os outros presidentes negros que tivemos, ao que parece, foram Campos Sales, Rodrigues Alves e Washington Luís, todos com as fotografias retocadas (e praticamente sem menção a respeito, o que confirma o fato de não termos memória disso). E consta ainda, pasme, que Fernando Henrique Cardoso tinha um avô negro. Mas, no Brasil, ter um avô negro não faz de você um negro…

    Talvez no Rio de Janeiro haja uma percepção menor a respeito da Universidade como um lugar para “não-negros”, pois existem negros na Universidade. A primeira vez que eu entrei na UFRJ eu fiquei impressionada com a quantidade de negros lá. Quando eu fiz a graduação na Unicamp não havia NENHUM negro no curso de Letras. (No curso de Linguística os dois únicos negros eram angolanos e sua Universidade tinha convênio com a Unicamp.)

    Entendo bem quando você fala de áreas “moles” e “duras”, pois cresci com as pessoas perguntando se a minha mãe era minha babá, mas dizendo que não eram preconceituosas, só achavam “estranho” o fato de que ela, tão “moreninha” pudesse ter uma filha tão “branquinha e de olhos tão claros”. Se ela fosse a babá estaria tudo na mais perfeita ordem…

    Muito bom o seu blog!
    Um abraço!

  7. 8 Rafael Cesar 30/01/2010 às 13:23

    Rhea, querida,

    Que prazer tê-la por aqui!

    Sua mãe não era loura de olhos azuis como você? Veja, isso seria uma surpresa para mim, também. Assim como as pessoas se surpreendem quando meu pai, branco de olhos azuis, me apresenta como filho. E muitas vezes essas mesmas pessoas não têm o menor constrangimento de dizer que não me pareço com ele, que é estranho, fazem piada e tudo. Isso significa, entre outras coisas, que nem de longe encaramos a miscigenação com a naturalidade que apregoamos (e nisso me incluo, tanto que falei da surpresa de saber que sua mãe não era loura como ti). Eu tenho várias caracerísticas físicas semelhantes ao meu pai, mas ninguém consegue enxergá-las porque estamos muito presos ao paradigma racial: se o cara é branco, não é natural que o filho seja mais escuro que ele.

    Veja essa história: Tinha uma psicóloga na escola em que eu estudei que conheceu meu pai e minha tia (loura de olhos claros) na época da juventude deles. Quando me conheceu, muitos anos depois de não ter mais contato com minha família, ela não sabia que eu era filho do meu pai. Um dia, travou-se o seguinte diálogo entre ela e um professor meu da época (que depois ele me relatou):

    Professor: Você sabia que o Rafael Cesar é sobrinho da Ana, né?
    Psicóloga: Da Ana? Que ana?
    Prof: Ué, da Ana de tal, sua amiga de juventude?
    Psi: Da Ana? Impossível! A Ana era loura e tinha olhos claros.
    Prof: Não, é sobrinho dela, sim, o Rafael me contou. É filho do Flavio.
    Psi: Do Flavio? Ahahahaha, não tem como, Prof., o Flavio é muito branco e tem olhos claros. Aliás, como a família toda.
    Prof: Vem cá, Psi. Não passa pela sua cabeça que a mãe dele pode ser uma mulher negra? Eu a conheço, a Regina é negra.
    Psi: Prof, sem chance. Ele é adotado, com certeza.

    A mulher simplesmente não conseguiu acreditar que eu fosse consanguíneo à família descendente de alemães por parte de avô e de portugueses por parte de avó. Ela não aceitou, e pronto. Nisso aí, eu só faria duas ressalvas.

    Primeiro, que essa mulher cresceu e vive entre pessoas de classe média/média alta. E esse estranhamento é típico das classes mais altas. O pobre não tem muito disso. Também é cheio de concepções racistas, da mesma forma que o rico, mas encara com mais naturalidade a miscigenação. Não tem esse pudor, esse estranhamento. O pobre pode não gostar (é muito comum as famílias brancas não quererem seus filhos casando-se com pessoas negras, muito comum mesmo), mas vê com naturalidade isso acontecer. Os mesmos abastados e intelectuais que pregam a democracia racial por meio de discursos que vão da universidade à televisão (todos os meios de que possuem o controle), rarissimamente têm filhos ou se casam com pessoas negras – e sequer circulam em espaços em que haja presença negra mais forte.

    Segundo, essa mesma mulher é aquela típica brasileira que acha que é branca. Ela tem a pele bem morena, e seus cabelos são visivelmente forçados, por alguma técnica, a ficarem ondulados. Ao natural, certamente são bastante cacheados, caminhando para os primeiros estágios do crespo. Fora os traços da boca, nariz etc. Estou dizendo isso porque ela é evidentemente fruto da miscigenação; com certeza conheceu uma avó, avô, ou até mesmo pai e mãe mais escurinhos. Então, negar a possibilidade de que eu seja filho de um homem branco, me parece uma defesa contra complexos que ela própria deve ter (ainda mais que circula em espaços onde só há pessoas brancas). Isso é pura especulação, claro, mas não sem fundamentos.

    Em relação à UFRJ, a presença de negros pode ter sido marcante aos seus olhos acostumados à realidade da Unicamp. Mas, se pensarmos, o Rio de Janeiro é o segundo estado com a maior proporção de negros em sua população, se não estou enganado. Por isso, a quantidade de negros na faculdade é ainda muito pequena. Na turma em que eu entrei, de 40 alunos, acho que éramos apenas uns 5. Cartesianamente pensando, pela demografia fluminense, deveria ter ali pelo menos uns 20 pretinhos(as).

    Um beijo, querida!

  8. 9 Rhea 03/02/2010 às 13:59

    Pois é, Rafael…

    Somos assim bem misturadinhos.
    Tenho irmãos de olhos escuros e de cabelos crespos, só minha irmã é branquela como eu, que, por acaso, recebi todos os genes recessivos dos meus pais (ninguém mais na família tem olhos claros).

    Bem, o que eu quis dizer é que, talvez, no Rio, pelo fato de vermos negros na universidade, não tenhamos a dimensão de como a ausência de negros é marcante no resto do país: São Paulo é o estado com o maior número absoluto de negros no país e os negros não estão na universidade lá!

    Um beijo.

  9. 10 french critic 11/04/2010 às 18:50

    que merda, nao respondeu nada a mim, nao acho que tenha conteudo. vous garde!

  10. 11 Rafael Cesar 11/04/2010 às 21:52

    é, não devo ter conteúdo nenhum mesmo, french critic. mas é ainda mais difícil responder quando não tem comentário a responder, você não acha?

    um beijo no seu coração,
    r.

  11. 12 nuno 22/11/2010 às 20:41

    lool o que mata na foto é a suástica virada do contrario que não tem nada haver com o símbolo nazi mas sim um símbolo budista, hindu,… e usado ao longo da historia de outros países, mas a nazi é espelhada.


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